‘A política não sabe lidar com as soluções da ciência para a pandemia’

Médico e neurocientista, Miguel Nicolelis diz ao ‘Nexo’ que Brasil vive guerra de extermínio e cobra gestores a agirem como estadistas

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Há uma única saída para a humanidade na crise imposta pelo novo coronavírus, na avaliação do médico e neurocientista Miguel Nicolelis: a ciência. É ela que ocupa hoje, pela primeira vez numa pandemia, um papel “central e decisivo”, segundo o professor titular do departamento de neurobiologia da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

“A Europa perdeu metade da sua população no século 14. Duzentas milhões de pessoas morreram pela peste bubônica. Naquele momento, a ciência não podia fazer nada porque ninguém sabia a causa. Hoje, nós não só sabemos, como temos soluções científicas que foram colocadas em menos de um ano na mesa”, diz em entrevista ao Nexo.

Coordenador até o final de fevereiro do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, criado em março de 2020 para viabilizar a parceria entre os nove estados da região no combate à covid-19, Nicolelis defendeu na sexta-feira (26), em entrevista ao jornal O Globo, a criação de uma “comissão de salvação nacional” organizada pelos governadores de todo o país, mas que exclui a participação do Ministério da Saúde.

A primeira medida da comissão para tentar superar a fase mais aguda da pandemia em que o país se encontra atualmente seria a adoção de um “lockdown imediato, nacional, de 21 dias, com barreiras sanitárias nas estradas e aeroportos fechados”. “E depois ampliar a cobertura, usando múltiplas vacinas”, disse ao jornal.

Um ano depois do registro do primeiro caso de covid-19 no Brasil, o país tem batido recordes consecutivos de ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Na sexta-feira (26), 13 estados e 17 capitais estavam em situação crítica, com sua capacidade acima de 80%. Em São Paulo, hospitais privados de ponta como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês atingiram o limite e têm fila de espera para os leitos de terapia intensiva. No dia anterior, o país registrou 1.582 mortes pela doença em 24 horas, número recorde desde o início da pandemia.

A proposta de Nicolelis, porém, encontra resistência entre os próprios governadores. Ao ser questionado sobre o tema na sexta-feira (26), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que a proposta do médico é uma resposta “da ciência, não da política”. O coordenador do Centro de Contingência do Covid-19 de São Paulo, Paulo Menezes, afirmou ao lado do governador que a medida é de “um mundo ideal” e expressa muito mais “um desejo” do que algo “passível de implementação”.

Nicolelis discorda. Segundo ele, o cenário atual é o de um reator nuclear que perdeu o controle. Países em situação parecida com a do Brasil só conseguiram sair da crise, de acordo com o professor, ao ouvir os cientistas. “É uma guerra biológica que necessita de decisões de pessoas que se elevem no mundo político ao nível de estadistas”, diz.

Nesta entrevista ao Nexo, ele faz um apelo para que Doria e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), voltem a fechar as escolas por causa do aumento de internações em UTIs pediátricas.

O professor cobra ainda prefeitos e governadores a oferecer um auxílio financeiro, em meio à inércia federal, para que as pessoas possam ficar em casa durante os lockdowns. Ele também aborda o negacionismo dos gestores públicos e diz que a busca ilimitada pelo prazer no mundo Ocidental tem se sobreposto ao instinto de sobrevivência, o que ajudaria a explicar como chegamos ao atual estágio da crise.

O governador João Doria disse que a proposta do sr. de criação de uma comissão de salvação nacional é uma resposta da ciência, não da política. O que esperar da política brasileira na resposta à pandemia? Ela poderia caminhar junto à ciência?

MIGUEL NICOLELIS Num momento como esse, a política tem que andar com a ciência. A ciência não tem nenhuma pretensão de passar por cima da política do ponto de vista da democracia. Quando as sociedades estiveram numa situação como essa de catástrofe, numa batalha de vida e morte como estamos vivendo, a política deu ouvidos àqueles que poderiam tirar o país da crise. Isso é uma questão histórica. Nós, cientistas, realmente não fazemos parte do mundo político nem temos esse desejo. Mas esta é a primeira pandemia da história da humanidade em que a ciência tem um papel central e decisivo para tirar o mundo desse buraco.

Nos últimos meses, estudei a história das maiores pandemias da nossa espécie que se tem registro desde o Egito, 3.000 anos atrás. Esta é a primeira de toda a história, particularmente depois de 1918 [pandemia da gripe espanhola], em que a ciência está na linha de frente e é a única opção disponível para a humanidade sair dessa crise. Nós estamos em circunstâncias históricas que demandam atitudes de políticos como estadistas. É uma guerra de invasão. Não é uma guerra de um inimigo como a gente está acostumado, de outra nação ou de um Exército. É uma guerra biológica, de extermínio, que necessita de decisões de pessoas que se elevem no mundo político ao nível de estadistas.

Sociedades do passado desapareceram. A Europa perdeu metade da sua população no século 14. Duzentas milhões de pessoas morreram pela peste bubônica. Naquele momento, a ciência não podia fazer nada porque ninguém sabia a causa. Hoje, nós não só sabemos, como temos soluções científicas que foram colocadas em menos de um ano na mesa, e os políticos brasileiros, infelizmente, não estão preparados para lidar com essa condição porque não têm o hábito de dialogar com a ciência.

Não tenho nenhuma ambição de influenciar nenhuma política, não é o meu terreno. O meu terreno é científico e técnico. Só que eu consigo olhar dez minutos, dias ou semanas no futuro. E a situação que estamos neste momento passou de ser crítica. Imagine um reator nuclear que perdeu o controle. Estamos, do ponto de vista sanitário, equivalente a um Fukushima [acidente nuclear no Japão causado por um tsunami em 2011].

A postura de governadores e prefeitos, ao recusar a adoção de regras duras no Brasil como adotadas na Europa, tem também um pouco de negacionismo científico, como acontece com o presidente da República?

MIGUEL NICOLELIS Quais as regiões com o maior índice de negacionismo no Brasil neste momento? São as regiões Sul e Sudeste. Qual a região que está explodindo neste momento? A Sul, como um todo. De Porto Alegre a Curitiba, a região Sul explodiu. Neste momento, ela está tendo um crescimento de casos muito maior do que a gente viu no começo. E não é coincidência. Se você olhar o número de casos nos últimos 14 dias, é muito interessante porque você começa a ver coisas que não vê na imprensa, não vê as pessoas falando. São análises mais detalhadas que mostram que o negacionismo está diretamente correlacionado com o que está acontecendo no país neste momento.

O prefeito de Porto Alegre acabou de dizer que as pessoas precisam se sacrificar pela economia [em vídeo divulgado na quinta-feira, 25, o prefeito Sebastião Melo, do MDB, pediu para que a população contribua com a vida para salvar a economia]. É um discurso que ele copiou do vice-governador do Texas [em abril de 2020, o republicano Dan Patrick disse à TV americana Fox News que “existem coisas mais importantes do que viver, como salvar o país”]. Até o plágio é assustador. Isso é de uma gravidade. É difícil qualificar uma fala de um gestor público nesse nível. A gente viu o retrato do que está acontecendo em Porto Alegre.

Há algumas horas, foi feito um pedido para que o jogo da Copa do Brasil, entre Palmeiras e Grêmio, em Porto Alegre [marcado originalmente para às 16h do domingo, 28], fosse transferido para à noite, porque tem o toque de recolher agora oficial, para evitar aglomerações nos bares, nas cidades. A CBF [Confederação Brasileira de Futebol] negou [depois da entrevista, a CBF anunciou a mudança do jogo para as 21h]. Nós estamos jogando futebol no meio de uma pandemia fora de controle, o que já é um absurdo completo. É uma final de campeonato onde as pessoas vão se reunir para assistir nos bares de Porto Alegre. Qual era o problema de transferir o jogo para as 20h quando o toque de recolher já estará vigente? Não existe sensibilidade nenhuma em diferentes setores da sociedade. Nós estamos lidando com isso como se fosse algo secundário.

Ontem [quinta-feira, 25], a comemoração do Flamengo [pela conquista do Campeonato Brasileiro] no Rio de Janeiro gerou dezenas de milhares de pessoas nas ruas. É só para dar uma noção do que é óbvio. Começa no topo: o governo federal, realmente, faz o pior manejo [da pandemia] entre as democracias do G20, de longe. A Índia, que não tem um serviço público de saúde capilarizado, não tem serviços médicos em monta, e onde a densidade populacional e a miséria são explosivas, está dando um show no Brasil.

O sr. disse numa entrevista que o toque de recolher na Bahia não iria funcionar e que um lockdown era inevitável. Dias depois, o estado endureceu as regras. O lockdown é a única saída para o país? Como aplicá-lo sem fornecer as condições para as pessoas ficarem em casa?

MIGUEL NICOLELIS É a única saída neste momento se você quiser abater, reduzir drasticamente e rapidamente as taxas de transmissão que estão em níveis explosivos. Se comparar as taxas, neste momento, de incidência e crescimento com qualquer país europeu, o lockdown foi instituído com muito menos do que o Brasil está apresentando agora. E nações como o Reino Unido e a Alemanha ainda estão em lockdown e vacinando muito mais do que a gente. Com números de casos por 100 mil habitantes muito menores.

Nós estamos com escolas abertas. Pare para pensar numa coisa dessas. Neste momento, não tem saída. Bato na tecla e continuo reiterando: não vai adiantar lockdown de fim de semana. Três dias de lockdown não tem efeito estatístico epidemiológico nenhum no momento em que o vírus explodiu. Um exemplo categórico disso: eu mostrei [num artigo] que, nos primeiros 11 meses, o Nordeste teve o menor manejo no que tange a casos e óbitos por 100 mil habitantes. Dois indicadores importantes. Eu acabei de olhar os dados de crescimento de casos no Brasil. O Nordeste já não é a melhor região. Com os níveis de disparo, inclusive de crescimento exponencial que estamos vendo agora, você tem que fechar tudo.

E não é só das 20h às 5h porque eu vou repetir uma equação que é muito simples para nós, cientistas, mas é difícil comunicar aqui no Brasil. Você só tem um resultado efetivo se a sua medida de controle diminui a transmissão mais do que a transmissão que ocorre fora da sua medida de controle. Se a transmissão durante o dia é muito maior do que a inibição da transmissão pelo lockdown noturno ou toque de recolher noturno, é o delta — a diferença entre os dois números — que a gente usa. As pessoas estão chamando de lockdown um toque de recolher. E não é isso. Isso é um lockdown com jeitinho brasileiro. Isso não existe. O toque de recolher foi tentado em Portugal, na Espanha, na França, em vários lugares, e no momento em que você cruza um certo nível, pode esquecer, não funciona.

O cenário hoje se deve ao fim de ano e ao carnaval? São Paulo intensificou a fiscalização de aglomerações e festas clandestinas à noite. É esse o problema? Qual é o peso da mobilidade nesse quadro em que estamos vivendo?

MIGUEL NICOLELIS Isso depende. Não posso falar genericamente para um país como o Brasil. Seria uma irresponsabilidade minha porque a dinâmica desses parâmetros que você comentou varia de lugar para lugar. Uma cidade no interior da Bahia onde não tem transporte coletivo vai ter um fluxo de pessoas muito menor do que Salvador. Mas veja bem, não começou agora. Tem muita gente tentando dizer que a situação do Brasil está assim por causa das variantes, mas não é verdade.

A situação começou a degringolar na primeira semana de novembro, como consequência de todas as aberturas brasileiras terem sido feitas fora dos critérios da OMS (Organização Mundial da Saúde), das aglomerações produzidas pelas eleições e pela falta de controle do fluxo de pessoas. Seja o fluxo de pessoas vindo do exterior, trazendo essas novas variantes da Europa e da África do Sul, seja o fluxo interno do país. Nós nunca fizemos controle de fluxo das rodovias e nunca fizemos controle sanitário nos aeroportos. E o Brasil é um país extremamente conectado tanto na malha rodoviária como na aeroviária.

Volto ao futebol: quantas equipes tiveram surtos? Por quê? Porque eles estão entrando no avião e indo jogar bola na Bahia. Aí voltam e vão jogar no Rio Grande do Sul. Eles se transformaram em agentes de transmissão também. A gente não sabe o quanto, porque ninguém fez estudo sobre isso. Então, na realidade, é uma combinação. Em cada lugar, esses fatores de aglomeração, fluxo de pessoas, falta de vacinação e novas variantes têm pesos diferentes na soma. Só que o Brasil nunca fechou seus aeroportos internacionais, principalmente nessa segunda onda aqui. Nós pedimos isso desde outubro.

Hospitais privados, como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês, estão no limite, com fila de espera nas UTIs. O que isso indica sobre o perfil dos infectados hoje? O vírus voltou a atingir os mais ricos?

MIGUEL NICOLELIS A primeira onda começou em bairros de alto IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] de São Paulo e das capitais brasileiras onde existem aeroportos internacionais. Foram pessoas que foram e voltaram do exterior e que estavam infectadas ou trouxeram de forma assintomática o vírus para o Brasil. Teve uma crise no começo de março nos hospitais privados grandes e famosos aqui de São Paulo.

Eu testemunhei colegas meus de turma. Tive colegas de faculdade [Nicolelis se formou em medicina na Universidade de São Paulo, em 1984] que inclusive foram intubados. Médicos pneumologistas trabalhando na linha de frente. Começou nesses hospitais privados de grande porte, se espalhou pela periferia das grandes cidades e explodiu. Nós estamos vendo isso também aqui, basicamente, como parte também do negacionismo.

Isso está acontecendo não só em São Paulo. Hoje [sexta-feira, 26], atingimos 17 capitais acima de 80% de ocupação de UTIs. Você olha Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus. Em todos os lugares, os hospitais privados já foram. E tem outra coisa: está crescendo rapidamente as taxas de ocupação das UTIs pediátricas, pela primeira vez na pandemia. Esse é um crescimento assustador.

Grupos de pediatras têm feito campanha pela reabertura das escolas, devido ao impacto do isolamento no desenvolvimento das crianças. Muitas regiões, como São Paulo, retomaram as aulas no pior da pandemia. Quais os riscos dessa decisão?

MIGUEL NICOLELIS Minha posição é muito simples. Os pediatras estão absolutamente corretos que o envolvimento social é fundamental para o desenvolvimento do sistema nervoso central. Eu sou neurocientista, sei disso. Mas eu prefiro que as crianças sobrevivam. E que os pais delas estejam vivos. Porque, para as crianças, irem parar numa UTI ou ficarem sem os pais, o impacto neurocognitivo talvez seja muito maior do que a falta de contato social. É uma tragédia, evidentemente, mas neste momento, não pode abrir, porque algumas dessas novas variantes parecem atacar crianças com um índice muito maior do que no começo da pandemia, com complicações gravíssimas.

O fato das UTIs pediátricas estarem aumentando a sua ocupação é um outro indicador de que estamos num momento diferente, mais crítico. Sobre as escolas no estado de São Paulo, se o governador Doria realmente me ouve, eu faria um apelo para ele e para o prefeito de São Paulo [Bruno Covas] para fecharem as escolas neste momento. É um apelo sincero. Nunca concordei com as aberturas e publicamente falei isso.

E como você tinha me perguntado e não vou me omitir, é óbvio que as condições econômicas têm que ser dadas para a população poder ficar em casa. Seja do governo federal, seja dos governos estaduais e municipais. Uma reportagem recente mostrou que os estados e municípios estão com caixa [ele cita texto do site G1 mostrando que estados e municípios fecharam 2020 com o dobro de dinheiro em caixa em relação a 2019]. Como nunca tiveram nos últimos meses. Que esse recurso que está lá seja usado para ajudar as populações.

Quando eu estava no comitê do Nordeste, estudamos vários potenciais planos de ajuda econômica com economistas. Tínhamos várias propostas que nunca foram debatidas. Os estados, independente do governo federal, podem fazer isso. Por isso que essa comissão nacional que eu propus é tão essencial. Se o governo federal não vai fazer nada nós vamos ficar quietos e esperar o Brasil desaparecer?

O ministro da Saúde disse que a variante do novo coronavírus de Manaus aumentou três vezes o contágio no país. Essa questão tem sido usada para isentar os gestores ou realmente existe o risco de as mutações terem piorado a situação?

MIGUEL NICOLELIS Isso está sendo usado para escamotear a responsabilidade. A explosão de casos já era clara na primeira semana de novembro. A região Sul começou a explodir, e o Brasil inteiro sincronizou, naquele momento, por causa das eleições. Não nos dias das eleições, mas durante as campanhas que foram feitas no Brasil inteiro. Por isso que a pandemia sincronizou no Brasil inteiro. E nós fizemos um apelo em julho do ano passado para que as eleições fossem adiadas para o final de 2021. Isso já foi feito na história do Brasil. A ampliação dos mandatos dos prefeitos ocorreu na minha infância, se não me engano em 1976 [a ditadura militar estendeu o fim do mandato de prefeitos e vereadores eleitos naquele ano de 1980 para 1982, por causa da reforma partidária de 1979]. Isso era para ser feito por uma questão sanitária. Infelizmente, ninguém deu ouvidos.

O que aconteceu foi o primeiro grande evento que foi sucedido pelo Natal e que foi sucedido pelo Carnaval. Mas a variante é um componente mais tardio. E nós não temos ainda claro porque o Brasil não tem um plano nacional de sequenciamento do espalhamento geográfico das variantes. Cadê? Você da imprensa deveria ter direito de entrar num portal do Ministério da Saúde e ver um mapa bonito do Brasil com setas coloridas mostrando onde as variantes estão presentes e como elas estão se espalhando no tempo.

As variantes podem afetar a vacinação?

MIGUEL NICOLELIS Uma notícia que quase não saiu no Brasil: o governo da África do Sul mostrou que a eficácia da vacina da AstraZeneca na variante de lá não pegava 10% e suspendeu o uso, porque a variante dominante do país não tinha resposta à vacina. Ontem o FDA [Food and Drug Administration, equivalente à Anvisa no Brasil] aprovou a vacina da Johnson & Johnson. Tem outras vacinas sendo aprovadas nos próximos dois, três dias, e é o que eu falei: o Brasil não tem que discriminar nenhuma vacina que foi provada ser eficaz e segura e que foi ratificada por organismos internacionais. O Brasil tem que ir lá e comprar e depois pensar na questão jurídica.

O ministério anunciou a compra da indiana Covaxin, que não apresentou o resultado da fase 3. O país está certo em comprar mesmo sem saber se tem eficácia?

MIGUEL NICOLELIS A gente tem que comprar. Porque essa é uma vacina de um consórcio mundial da OMS que vai ser usada na África, em lugares com muito maiores dificuldades. Mas tem outras vacinas no mercado. E o Brasil deveria ter feito isso no começo do segundo semestre do ano passado, quando ficou claro que diferentes iniciativas iam gerar vacinas promissoras. Deveríamos ter criado essa logística.

Tudo isso é trabalho de um Estado-maior de emergência sanitária que todos os países têm. Gráficos de como as variantes estão se espalhando, por qual aeroporto estão entrando mais variantes. Tinha que testar gente que chega no Brasil. São coisas primárias que você esperaria de qualquer pessoa treinada para emergências e crises desse tamanho. Eu, lá nos EUA, fiz um curso de emergências no começo da minha carreira, porque a gente era obrigado. São coisas básicas. Não precisa ser engenheiro aeroespacial ou neurocientista para pensar nelas. Só que não seguimos nada.

O quadro atual é reflexo da falta de coordenação de uma política nacional de combate à covid-19?

MIGUEL NICOLELIS Claro. Falta um Estado-maior, falta uma mensagem, falta ousadia, faltam decisões de estadistas, faltam decisões estratégicas de quem representa o povo brasileiro e quer salvar o maior número de pessoas por ser o representante da nação. Falta tudo isso.

Existe uma pressão no Reino Unido por uma política de “zero covid”, como a adotada na Nova Zelândia, em oposição à do ioiô, em que se alterna abertura e fechamento. Em qual delas o Brasil se situa? E aonde as políticas adotadas aqui vão nos levar?

MIGUEL NICOLELIS Eu discordaria que nós somos ioiô, não chegamos lá. Ainda somos peão. O peão era a grande diversão da minha infância. Você soltava e via quanto tempo ficava rodando no chão. A política brasileira é peão, quem me dera ter um ioiô aqui. A primeira fase do plano de saída da Inglaterra do lockdown abre todas as escolas, do jardim da infância à universidade. Uma grande epidemiologista inglesa falou que é um absurdo, que tinha que abrir o jardim da infância, ver como funciona, como estão as coisas, aí abrir o pré-primário. Ela mostrou estudos. Até a abertura do Reino Unido está sendo pressionada a fazer coisas que vão de encontro à decisão correta, que só ocorreu porque o comitê científico foi à televisão e pôs o primeiro-ministro na parede, em dezembro, ao dizer que, se ele não adotasse o lockdown novamente, o país entrava em colapso em 14 dias. As escolas que estão abertas têm que fechar. E só podemos reabri-las quando tivermos segurança sanitária que equivale a ter uma vasta maioria da população vacinada e taxas de transmissão muito abaixo de 1.

Se nós mantivermos a política do peão, poderemos ter meio milhão de mortos e não termos saído da crise. Olhe para os Estados Unidos e você vai ver o Brasil. Como eles tem 330 milhões de pessoas, a dinâmica é um pouco diferente, mas estamos na linha para ultrapassar os Estados Unidos. Ontem [quinta-feira, 25], eles celebraram 50 milhões de doses em 37 dias [desde a posse de Joe Biden, em 20 de janeiro]. A queda [nos casos] não foi por causa da vacinação porque não deu tempo, eles só têm 14% da população vacinada com uma dose e 7% com duas. Não acredito que seja ainda o efeito da vacina. A queda é brutal, só que os óbitos ainda estão extremamente altos. O número de casos caiu dramaticamente, eles estavam atingindo 300 mil [por dia]. Ontem, quando olhei, eram 77 mil. Mas eles continuam na casa entre 2.000 e 3.000 óbitos por dia. É muito alto. Agora o Brasil tem tudo para passar 2.000 óbitos [diários] a qualquer momento. A possibilidade de o Brasil chegar a 100 mil casos por dia também é real. Não estou dizendo que vai acontecer, mas é bem real.

Apesar de estarmos falando de epidemiologia e sanitarismo, quem vai explicar o que está acontecendo, no frigir dos ovos, é a neurociência. O contraste do mundo ocidental com o oriental é dramático. O mundo oriental, na Ásia, principalmente, o “mind frame” das pessoas entende o que é uma guerra, o que é uma crise existencial dessa magnitude. O senso de empatia humana, de comunidade, de fazer parte de algo maior do que o seu egoísmo, do que o seu umbigo, é muito maior. No mundo ocidental, o hedonismo, o entretenimento, a necessidade de ir atrás do seu consumo de prazer a qualquer custo virou algo na mente coletiva do Ocidente mais relevante do que o instinto de sobrevivência. Essa busca incessante pelo prazer em casos totalmente absurdos de entretenimento no meio de uma pandemia ofuscou na mente coletiva do Ocidente a noção do que é o preço impagável e irreparável da morte.

Como você não vê as pessoas morrendo na rua, ou não vê na televisão, posso ir lá ver meu jogo de futebol. Porque não tem ninguém morrendo aqui na minha rua em Perdizes [zona oeste de São Paulo]. Mas aqui na filial do Albert Einstein que tem no final da minha rua, se você for lá agora, ninguém te atende. Curiosamente, o que a neurociência sabe sobre o poder de “resetting” da mente, da busca do prazer ilimitado, do hedonismo ilimitado, explica como nós chegamos a esse problema.

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