‘A gente desafiou o vírus, pôs pessoas na rua, e ele fez isso’

Coordenador da Rede de Análise Covid-19, Isaac Schrarstzhaupt diz ao ‘Nexo’ que mobilidade moldou curvas de infecção no país

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Em 26 de fevereiro de 2020, o Brasil confirmou o primeiro caso de covid-19. O infectado era um homem de 61 anos, morador de São Paulo, que havia viajado à Itália. Na época, o país europeu sofria com um surto do novo coronavírus, que só seria declarado como uma pandemia pela OMS (Organização Mundial de Saúde) poucos dias depois, em 11 de março. Isolado em casa, o paciente se curou.

Quase um ano depois, o Brasil registra oficialmente mais de 10 milhões de casos da doença e 240 mil mortes, o que coloca o país em segundo lugar no mundo em número de vítimas do vírus.

Inicialmente, a covid-19 no Brasil acompanhou a dinâmica das doenças respiratórias sazonais (que acontecem todos os anos na mesma época), embora com muito mais gravidade. Depois de uma primeira onda iniciada em abril, os casos caíram em agosto, mas voltaram a apresentar tendência de alta cerca de dois meses depois.

“Por um período, a dinâmica da pandemia andou no trilho da sazonalidade. Até que a gente desafiou o vírus e botou todo mundo na rua para ver o que acontecia. Aumentamos a mobilidade e ela [a pandemia] fez isso”, diz ao Nexo Isaac Schrarstzhaupt, coordenador da Rede de Análise Covid-19 que vive em Caxias do Sul e tem se dedicado a analisar a evolução da doença.

O novo coronavírus mostrou que era forte o suficiente para atacar fora do período sazonal, tomando uma trajetória própria mesmo quando outras doenças respiratórias estavam em baixa, segundo o pesquisador. Isso levou a um segundo aumento de casos e mortes no final de 2020, e a curva voltou a cair após a virada do ano, embora com pouca força. Em fevereiro de 2021, os números já apontam para a formação de uma terceira onda, cujo tamanho pode depender das novas variantes do vírus — há indícios de que elas possuem maior poder de contágio, o que ainda depende de confirmação científica.

Schrarstzhaupt critica o Ministério da Saúde, segundo o qual o aumento de casos em 2021 era imprevisível até o fim de 2020. Para ele, a tendência poderia ser constatada com base nos dados disponíveis. Nesta entrevista ao Nexo, ele fala da dinâmica observada na pandemia de covid-19 no Brasil e diz que locais que adotaram medidas restritivas de circulação conseguiram minimizar o impacto da doença.

Olhando em retrospecto, qual foi a dinâmica da pandemia no Brasil até aqui?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT O Brasil é um país continental. Toda vez que a gente for falar da dinâmica da pandemia no país, a gente não vai estar contando a história de nenhum dos estados. O Brasil teve um caminho que já se repetiu e está se repetindo novamente agora. A gente teve um crescimento de casos na região Norte, depois no Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Essa dinâmica é muito similar à dinâmica natural de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) que acontece todo ano.

Todo ano tem ela sobe na semana 7, no final de fevereiro, fica no pico entre as semanas 12 e 15 [entre março e abril], e depois dá uma baixada. A gente poderia até supor, olhando isso, que a covid é uma doença sazonal, como se a sazonalidade fizesse ela andar. A gente percebeu que a sazonalidade serve para ampliar a doença, porque ela é forte o suficiente para atacar fora do período sazonal. Basta a gente dar oportunidade para isso, e foi o que aconteceu.

Ela seguiu a dinâmica sazonal — claro que numa quantidade muito superior aos outros anos, e é absurda a diferença de casos e óbitos em comparação com os outros vírus respiratórios —, mas começou a cair em agosto e setembro, seguindo a sazonalidade [as outras doenças respiratórias também apresentam queda nesse período do ano]. Em setembro, a gente meio que liberou geral. Teve o feriado de 7 de Setembro que foi emblemático: fotos das praias nos jornais, todo mundo na praia, a mobilidade começou a aumentar muito e no final de setembro, começo de outubro, a gente teve a reversão da tendência [em vez de se manter em baixa como outras doenças respiratórias, a covid-19 voltou a crescer, apresentado trajetória própria].

O que era queda começou a subir num período totalmente anormal. Ali não tem sazonalidade, pois teria que estar lá embaixo. Virou final de setembro, outubro, novembro e dezembro, estourou e começou a ter a mesma dinâmica: Norte, depois Nordeste e agora parece que está querendo descer para Centro-Oeste. Aqui no Sul já está começando um colapso. E a gente está virando o ano e começando aquela dinâmica de amplificação [em que a covid-19 pode seguir a dinâmica das outras doenças respiratórias sazonais]. Então, por um período, a dinâmica da pandemia andou no trilho da sazonalidade, até que a gente desafiou o vírus [em setembro] e botou todo mundo na rua para ver o que acontecia. Aumentamos a mobilidade e ela fez isso.

É possível identificar fases da pandemia, como quando chegamos a um platô (estágio em que os números estão em alta e permanecem estáveis por um período)? Quais foram elas?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT Esse é o problema de se analisar o Brasil inteiro. Se olharmos estado por estado, não teve nenhum platô. Ele aconteceu [nos dados nacionais] porque enquanto um estado subia, o outro descia, e aí tinha um que estava segurando a curva lá em cima. Quando aquele estado saía, entrava outro no lugar. E aí quando olhávamos o Brasil, havia um platô. Esse platô não estava acontecendo. O Norte deu um estouro, quando estava saindo de cena, subiu o Nordeste, e assim por diante. O que pode se repetir é acontecer no Norte e depois nas outras regiões, simplesmente porque isso acontece todos os anos no Brasil com as doenças respiratórias.

E tem um fator que é importante lembrar: a gente fala que a sazonalidade influencia o vírus, mas na verdade ela influencia muito o comportamento das pessoas. É aquela coisa óbvia: começa uma época de chuvas fortes, as pessoas saem menos ao ar livre, se fecham mais. Como vai deixar nos ônibus as janelas abertas se está caindo uma chuva lá fora? Não tem como. Com o frio é a mesma coisa. Estou aqui no Rio Grande do Sul, aqui faz um frio absurdo no inverno. Não tem como deixar as janelas abertas e ficar ao ar livre, fazer os procedimentos de prevenção no inverno fortíssimo. Em Manaus, os períodos com esse estouro foram os mais chuvosos.

No início, havia o temor da interiorização, das metrópoles para o interior do país. Isso mudou?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT A doença agora está mais distribuída do que no começo. Ela veio pelas capitais, veio de avião, pelos locais que têm aeroportos, os locais maiores. Então o sentido foi capital-interior. Aí, depois dessa fase, a dinâmica dependeu muito mais da mobilidade de cada local. Se tem um interior com um alto nível de mobilidade, aquelas cidades grudadas umas nas outras, que as pessoas saem de uma para trabalhar na outra, como se fosse uma grande cidade, acontece muito isso. O Triângulo Mineiro, por exemplo, está sofrendo bastante com a covid, porque tem essa dinâmica de mobilidade. O vírus não tem mais que vir de algum lugar, ele já está aqui.

É possível dizer que tivemos várias ondas?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT Onda é quando zerou. Deu uma onda, subiu, caiu e acabou, ficou tudo normal e depois ela volta. Não era uma segunda onda porque nunca zerou e não chegou nem perto disso. O momento com menor número de óbitos por dia notificados era em torno de 300, 400 por dia. Por isso se dizia que não era uma segunda onda, mas se a gente analisar como aumentos e quedas, a gente pode dizer que está indo inclusive para a terceira onda.

Teve a primeira que começou em abril, maio, junho, subiu e depois caiu em agosto. Depois, teve o segundo aumento que começou em outubro, estourou em novembro, dezembro e agora em janeiro caiu na grande maioria dos locais. Tirando Manaus, na grande maioria dos locais os casos caíram no começo do ano, porque nós tivemos uma queda de mobilidade geral das pessoas, aquela coisa de final de ano, pré-Carnaval. Agora, estamos tendo de novo uma tendência de querer aumentar pela terceira vez. Se for olhar em onda, é uma só mesmo.

A fase atual da pandemia se deve às festas de fim de ano?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT Qual a maior correlação que a gente viu até agora na pandemia no Brasil? Número de casos e mobilidade. Aumenta a mobilidade, aumentam os casos, reduz a mobilidade, reduzem os casos. A gente teve esse aumento de mobilidade maior no final do ano. O Natal foi um ápice, porque essa mobilidade começou em setembro e foi aumentando gradativamente. A cada mês que passava, a mobilidade ia aumentando, e os casos aumentando juntos. E o isolamento, diminuindo. A gente coroou isso com uma super aglomeração, que foi o Natal e o Ano Novo. Aí deu um estouro.

O que aconteceu logo depois do Natal e do Ano Novo? Caiu bastante a mobilidade, mas não caiu porque o governo foi lá e fez um fechamento. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, quando vira o ano, esvaziam as cidades. Vão todos para as praias e só voltam no pós-Carnaval. Isso é uma coisa natural e realmente aconteceu. No transporte público, a mobilidade diminuiu quase o dobro em relação ao que era. Caiu bastante a mobilidade e a gente teve correlacionado a isso uma queda de casos. Só que foi uma queda pequena. Agora que a mobilidade está começando a voltar ao normal, os casos e as internações começaram novamente a subir. O Rio Grande do Sul bateu hoje [sexta-feira, 19] recorde de pacientes internados em UTI [Unidade de Terapia Intensiva].

A mobilidade interfere tanto quanto as aglomerações?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT A Coreia do Sul seria um dos países que mais teria controlado a pandemia se não fosse por uma igreja clandestina que se reuniu. Eles estavam fechados. Fizeram um culto e estourou. A aglomeração faz muito. Só que na verdade, aqui no Brasil, não é assim: está todo mundo parado e teve festas de Carnaval. A festa de Carnaval e o Natal são eventos super espalhadores que se somam a essa mobilidade já natural. A mobilidade tem um papel forte.

Qual foi o impacto do isolamento nas curvas de casos e mortes?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT A gente teve agora essa virada de ano com essa queda nos casos e depois já começou a aumentar, a não ser por dois locais que não aumentaram na ordem que deveriam aumentar: São Paulo e Belo Horizonte. Coincidentemente, são uns dos únicos locais que fizeram políticas de fechamento. São Paulo ficou um tempo com fase vermelha agora, foi uma das poucas que ficou nessa fase. Em Belo Horizonte, o prefeito Alexandre Kalil fechou por um tempo e, coincidentemente, o crescimento não foi tão acentuado quanto nos estados vizinhos.

Fechar depois da explosão de casos é medida de contenção. Pensa num incêndio, até pode tentar demolir as casas ao redor para o fogo não se alastrar, mas ainda vai ter muita destruição. A medida correta que deu certo em vários países é fechar quando notam esse crescimento de casos inicial: apareceram cinco casos num bairro, depois 18, é ali a hora certa. Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul, Taiwan, Vietnã fizeram isso. São locais onde começou um pequeno surto. Na China, se tem quatro casos, testam 10 milhões de pessoas na mesma semana, aí descobrem 300 pessoas assintomáticas, isolam todas e todos os contatos, e acaba segurando a doença. Há muitos locais que não tem essa condição.

O Ministério da Saúde disse que o avanço da doença era imprevisível em 2021. De que forma os governos têm usado os dados para agir?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT Como é imprevisível se eu aqui da minha casa com uma planilha de Excel sabia que ia aumentar? Eu consegui perceber lá na metade de dezembro que teria aumento no final de fevereiro. O que eu noto é que não estão olhando progressão, que é isso: a doença está aqui, se aumentar desse jeito vai acontecer esse nível de internações, esse número de óbitos. O próprio ministro da Economia [Paulo Guedes] deu uma declaração há um tempo atrás que deixou claro como é que estão controlando a pandemia. Ele disse que haveria segunda onda só se tiverem mil óbitos por dia. Sendo que óbitos já são o fim.

Esse aumento de casos que está começando a colapsar o Rio Grande do Sul agora vai gerar óbitos bem mais lá na frente. Em São Paulo, quando a gente fez o alerta em outubro de que estava tendo aumento, o pessoal dizia que a gente era alarmista. O prefeito Bruno Covas falou que não tinha segunda onda, mas já tinha. Já estava lá.

O que acontece: não está caindo num dia e começa a crescer no outro. A curva está caindo numa determinada velocidade. Pensa numa montanha russa que está descendo. Essa velocidade de queda pode ser medida. A gente consegue dizer quanto está caindo por dia. Se essa velocidade começa a frear, e você está caindo mais devagar, isso indica que está acontecendo alguma coisa. Se essa velocidade continuar a frear, daqui a pouco vai parar de cair e vai estabilizar. Se continuar assim, vai virar a curva e começar a subir. Se deixar rolar, essa subida vai ficar cada vez mais íngreme até que vira exponencial. A gente consegue notar quando está caindo a velocidade da queda, lá no começo, é só calcular a taxa de crescimento. É ali que a gente começa a alertar: olha, está caindo cada vez mais devagar, daqui a pouco, se continuar assim, vai dar problema.

Já se fala do risco de não ter Carnaval em 2022. Até que ponto é possível saber o que vai acontecer?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT Tudo depende das políticas públicas. Todos os locais que conseguiram fazer um controle melhor fizeram política pública forte, restringiram a circulação, testaram, deram suporte. Nos Estados Unidos, a política vigente agora é vacinar o máximo possível. Eles foram lá, fizeram um esforço de guerra e estão conseguindo começar a dar uma reduzida na mortalidade. Como eles vacinam os vulneráveis primeiro, esses vulneráveis começam a parar de morrer. A mesma coisa em Israel. Fechou tudo, até os aeroportos, e estão vacinando tudo o que dá. É uma política pública de controle. No Brasil não percebo nenhum movimento.

É possível saber qual será a força desse novo aumento de casos em fevereiro?

ISAAC SCHRARSTZHAUPT A gente ainda não tem uma noção plena do que essas variantes podem causar. Será que elas estão pegando os mais suscetíveis do que a variante anterior? Será que mais pessoas podem pegar uma reinfecção? Esses dados não estão na palma da mão. A gente precisa disso para responder a essa pergunta. Na Inglaterra, estavam em lockdown, estavam começando a ter a queda pelo fechamento, e aí estourou o surto dessa nova variante e tiveram um aumento de casos fortíssimo. Tiveram que fechar mais ainda. No Brasil, a gente não tem essa informação toda.

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