‘O vírus vai continuar mudando se as pessoas seguirem em contato’

Pesquisador Joaquín Carvajal, da Fiocruz Amazônia, fala ao Nexo sobre os riscos da nova variante do coronavírus e alerta para a presença da versão mais transmissível em cidades com populações indígenas

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Cenário de uma tragédia em que corpos foram enterrados em valas coletivas no início da pandemia no Brasil, Manaus tornou-se novamente em 2021 o retrato da incapacidade do país em controlar a transmissão do novo coronavírus. A segunda onda de covid-19 na cidade, em janeiro, tem sido marcada pelo caos hospitalar, desespero de profissionais de saúde e mortes de pacientes por falta de oxigênio.

A situação na capital do Amazonas é ainda mais preocupante devido à identificação por pesquisadores de uma variante local do vírus, chamada de P.1. Há indício de que seja mais transmissível.

Mutações em vírus são comuns e esperadas. Mas a detectada em Manaus alterou a proteína de espinhos que reveste o novo coronavírus, dando a ele maior poder de interação com os receptores das células humanas que são invadidas. Alterações semelhantes foram observadas nas variantes do Reino Unido e da África do Sul, também com maior potencial de contágio.

O surgimento da P.1 possivelmente contribuiu para a crise sanitária que voltou a se instalar na cidade. Existe a chance de que pessoas que tiveram covid-19 possam se infectar uma segunda vez com a nova variante.

Mas essa não é a única explicação para a situação vivida no Amazonas, segundo pesquisadores. Quanto mais interações acontecem entre as pessoas, mais as chances de mutações trazerem vantagens evolutivas ao vírus. As medidas de distanciamento e isolamento social não foram amplamente adotadas em Manaus. Em dezembro, por exemplo, um protesto de lojistas fez o governo do estado recuar na decisão de fechar o comércio.

“Se a população continuar a ter mais contatos, o vírus vai seguir mudando”, disse ao Nexo o doutor em medicina tropical Joaquín Carvajal, que é pesquisador do Instituto Leônidas & Maria Deane, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia. O temor é que a versão mais transmissível, já identificada em pacientes em São Paulo, se espalhe pelo restante do país, levando mais sistemas de saúde ao colapso. Países como Colômbia, Portugal, Alemanha e Turquia suspenderam voos do Brasil.

Nesta entrevista, o pesquisador alerta para a presença da nova variante em municípios da Amazônia com forte presença de populações indígenas e cobra rapidez na vacinação de grupos mais vulneráveis.

Como surgem as variantes e por que elas estão ocorrendo com mais frequência?

JOAQUÍN CARVAJAL Todo vírus sofre mutações quando passa por uma pessoa. A cada contato, o vírus muda mais. A quantidade de linhagens que tem aparecido se deve a isso: a quantidade de contatos que estão acontecendo. Cada vírus vai sofrendo mutações e se adaptando. Nesse processo evolutivo, são selecionados os que conseguem se adaptar mais e que se espalham melhor entre a população. As mutações do novo coronavírus ainda acontecem de forma mais lenta do que outros vírus, mas esse processo depende das pessoas. Se elas continuam saindo ou não aderindo às medidas de contenção, essa taxa de mutação acelera.

Por que a variante de Manaus inspira mais preocupação?

JOAQUÍN CARVAJAL O que se sabe até agora, conforme a última nota técnica que se publicou pela Fiocruz em colaboração com a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, foi que, das amostras analisadas em dezembro, 51% tinham a nova variante. Nos 13 dias de janeiro, quando foram analisadas mais amostras, já estava em 91%. Quase que duplicou de um mês para outro. A nova variante já está presente em 11 municípios do interior do estado. Isso é alarmante. Ela tem um potencial de transmissibilidade maior que as outras variantes que estão circulando no país. Ela compartilha algumas mutações com as variantes do Reino Unido e da África do Sul. O potencial de transmissão está sendo analisado em estudos clínicos, assim como o de letalidade. A do Reino Unido já comprovaram que tem uma letalidade 30% maior. Ainda é muito cedo para dizer como é a nossa. Mas se [a britânica] é mais letal, a do Amazonas, por compartilhar mutações, pode ser igualmente letal.

Ela pode infectar de novo quem já teve a doença? O que muda para grupos menos vulneráveis, como crianças, e para as vacinas que estão sendo usadas?

JOAQUÍN CARVAJAL A gente publicou uma nota mostrando um caso de reinfecção pela nova variante, num intervalo de nove meses [entre uma infecção e outra]. A pessoa tinha anticorpos ainda [da primeira infecção]. Não se sabe se é raro ou não. Há estudos que falam que as pessoas têm capacidade de produção de anticorpos e de manter esse nível por um tempo maior [do que nove meses]. Mas essa pessoa tinha anticorpos e foi reinfectada. Não se sabe se os anticorpos já produzidos podem combater a nova variante. Isso está sendo analisado para sabermos se é tão frequente e quais as implicações epidemiológicas disso. É muito cedo para sabermos se muda algo em relação às crianças ou sobre as vacinas, que foram testadas com outras variantes.

As mutações devem continuar ocorrendo?

JOAQUÍN CARVAJAL Se a população continuar a ter mais contatos, o vírus vai seguir mudando. O que está acontecendo agora são mutações convergentes, com três variantes muito parecidas em locais totalmente diferentes. Possivelmente, a estratégia evolutiva desses vírus fez com que eles fossem mais transmissíveis por essas mutações. Por que acontece isso? Porque tem muitas pessoas em contato umas com as outras, e o vírus consegue mudar muitas vezes. A cada pessoa que passa, vai haver uma mutação diferente. E são selecionadas as melhores – isso acontece com qualquer doença. Ela se adapta ao hospedeiro.

Alguns cientistas cogitaram que Manaus havia atingido a imunidade de rebanho. O que a segunda onda diz sobre isso?

JOAQUÍN CARVAJAL Acreditamos que não tenha sido atingida [a imunidade coletiva] pelo que está acontecendo agora e por ter um número ainda de pessoas suscetíveis. Tem estudos que falam que sim, outros, que não. A gente sabe que pessoas que tinham maior capacidade aquisitiva permaneceram mais tempo em casa [durante a primeira onda], evitando contato. Em novembro e dezembro, a maioria dessas pessoas saiu. Em Manaus, a maioria dos casos foi notificada em novembro e dezembro nos bairros nobres. São as pessoas que viajam mais, que poderiam aumentar os contatos e que estavam suscetíveis ao vírus.

A nova variante pode se tornar preponderante no país? Há risco de levar o vírus a outros estados ao transferir pacientes?

JOAQUÍN CARVAJAL A variante já foi encontrada em São Paulo e possivelmente está disseminada em outros estados, o que preocupa. Acredito que o sistema tenha medidas de biossegurança nos locais para onde o paciente vai ser transferido. O problema é que, se aumentar o número de casos na maioria dos estados, teremos um colapso, porque não vai ter para onde transferir mais as pessoas. Por ser mais transmissível, poderemos ter em um curto espaço de tempo um número grande de casos novos e maior hospitalização e o sistema pode colapsar. Em um dado momento se satura todo o sistema.

Fechar as fronteiras ajudaria?

JOAQUÍN CARVAJAL O município de Tabatinga, que faz fronteira com a Colômbia, por causa da variante, teve que fechar. Já não tem voos de Bogotá para Letícia [cidade colombiana na fronteira, grudada a Tabatinga, que fica do lado brasileiro]. É uma medida. Mas a melhor, no momento, é a vacina. O plano de imunização tem que ser em curto prazo diante de um iminente colapso do sistema. A vacina é nossa única arma.

A variante pode se espalhar para os países que fazem fronteira com o Brasil? Existe o risco de outras variantes entrarem?

JOAQUÍN CARVAJAL O que acontece é que a gente não tem um sistema de vigilância genômica que possa monitorar constantemente isso. A gente aqui em Manaus tem um laboratório, que é um investimento da Fiocruz, para poder fazer esse tipo de monitoramento. Até o momento já temos registrado desde o início da pandemia 18 linhagens circulando no estado, mas isso só se faz com pesquisa. O monitoramento ainda é muito fraco, e o país não consegue captar isso. A gente consegue comparar com as outras linhagens do restante do mundo e ver de onde possivelmente vem essa variante. De novembro a janeiro, são 250 amostras sequenciadas. No Reino Unido, isso se faz num dia. É uma diferença abismal. Mas a gente, com o que tem, pode ter uma visão do cenário.

O Amazonas teve um surto de H1N1 em 2019 e agora enfrenta ondas do novo coronavírus. Existem fatores locais que contribuem para isso?

JOAQUÍN CARVAJAL A gente está no inverno amazônico. Aqui o período de maior pluviosidade é agora. Isso aumenta a circulação de vírus respiratórios. Mas é mais do que isso, a gente tem que ver a precariedade do sistema de saúde aqui na região Norte. Tem o problema das grandes distâncias. Para a pessoa que se complica, o único centro de maior complexidade é Manaus. O tempo de deslocamento e as distâncias são fatores-chave para a complicação da crise.

A gente está preocupado com a interiorização dos casos. O número no interior do estado está aumentando. A partir de análise com modelos matemáticos, a gente conseguiu ver tendência de crescimento expressivo na maioria das regiões de saúde, especialmente na macrorregião oeste que tem limite com Colômbia e Peru e que é onde está a maior população indígena do estado. Vai ser muito mais difícil e complicado se esse número de casos e contatos se ampliar. Vai ter um aumento de internações. Imagine toda essa população tendo que vir a Manaus. Vai ser um colapso maior, por isso os alertas para criação de miniusinas nos diferentes municípios para o abastecimento de oxigênio hospitalar.

Se essa variante for mais letal, pode complicar ainda mais a situação. Mas a gente enfatiza que esse não é o único fator. A falta de adesão da população às medidas também complica esses cenários. A segunda onda pode ser reflexo de outros fatores. A gente sabe que teve eleições em novembro, com todo mundo fazendo campanha no interior do estado, foram as festas de fim de ano, as pessoas viajando para visitar familiares.

A variante já atingiu a população indígena?

JOAQUÍN CARVAJAL A gente não sabe se chegou, porque não se tem analisado a população indígena. O que a gente sabe é que já está em lugares como Tabatinga, que é o alto Solimões, onde tem bastante população indígena. E em São Gabriel da Cachoeira, que é o município com a maior população indígena do Brasil. Isso é preocupante porque eles têm diferentes situações de vulnerabilidade. A gente cria alertas para que os gestores consigam tomar as decisões num tempo oportuno. O intuito das notas técnicas e do trabalho que se faz em colaboração com os gestores é para poder estar um passo à frente, mas às vezes é muito difícil. O que está acontecendo aqui é uma coisa que não esperávamos, é mais do que a gente estimava. A quantidade de oxigênio necessária é fora do padrão da pandemia — e até da primeira onda.

Como proteger a população indígena dessa variante?

JOAQUÍN CARVAJAL As mesmas medidas de não circulação, de transporte fluvial. As comunidades indígenas têm seus próprios mecanismos e estratégias. Eles já passaram pela gripe e por outros tipos de doenças. O importante agora é o investimento na vacina, e vacinar essa população, não somente a que está nas terras indígenas, mas também os isolados. A gente tem que fazer um investimento nisso. Não pode demorar tanto, especialmente nessas comunidades. O prioritário é focar na vacinação das populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas, que são as populações mais vulneráveis aqui no estado.

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