‘O clima virou um tema estrutural de economia e geopolítica’

O ‘Nexo’ conversou com Ana Turi, diretora do Instituto Clima e Sociedade, sobre o papel que a agenda climática e ambiental terá nas relações entre o Brasil de Bolsonaro e os EUA de Biden

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O novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assinou uma ordem executiva na quarta-feira (20), seu primeiro dia de governo, em que reafirma o compromisso americano com o Acordo de Paris, tratado global para o clima do qual os EUA haviam saído formalmente em novembro de 2020.

O ato confirma o retorno americano ao regime climático criado em 2015, quando os países se comprometeram a adotar medidas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. O ex-presidente Donald Trump anunciou a saída dos EUA do acordo em 2017 com um discurso negacionista da mudança climática.

A agenda do clima promete ser uma das prioridades do governo de Biden, que, ao tomar posse, anunciou que usará os primeiros meses de seu mandato para reforçar a proteção ambiental dos EUA e avançar na agenda de uma recuperação econômica verde diante da crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

A chegada do democrata ao poder deve mudar o ambiente ideológico que marcou a relação dos EUA com o governo do Brasil durante o mandato de Donald Trump, que tinha uma visão da questão climática similar à do presidente Jair Bolsonaro. Com Biden, os EUA devem aumentar a pressão para o Brasil mudar sua política ambiental.

Durante a campanha eleitoral, Biden criticou recuos nas políticas públicas brasileiras para o meio ambiente e o aumento do desmatamento na Amazônia no governo Bolsonaro. “Parem de destruir a floresta”, disse em um debate em setembro de 2020. “Se vocês não pararem, vão enfrentar consequências econômicas significativas.”

A política ambiental brasileira já afeta as relações do país em outros casos. O tema é um dos entraves para a assinatura de um acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, por exemplo. Os europeus afirmam que o tratado deve ser condicionado a avanços na área de preservação ambiental na América do Sul.

Após meses de manifestações a favor da reeleição de Donald Trump, mesmo quando o americano se recusava a aceitar o resultado das urnas, Bolsonaro escreveu uma carta a Biden na quarta-feira (20) cumprimentando-o pela posse e dizendo que deseja fazer parcerias “em prol do desenvolvimento sustentável e da promoção do meio ambiente”. O presidente não citou o desmatamento no país.

O Nexo conversou com Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, sobre as expectativas para a relação entre EUA e Brasil do ponto de vista da agenda do clima. “O clima virou um tema estrutural de economia e geopolítica”, disse. “Mas o governo Bolsonaro subestimou a importância do tema. Foi um erro.”

Ela afirmou que, sem mudanças em sua política ambiental, o país corre o risco de se isolar cada vez mais da comunidade internacional, perdendo oportunidades políticas e econômicas. Ainda assim, “o Brasil é mais do que o governo Bolsonaro”, segundo ela. “Espero que o governo Biden coopere com o país fora do governo federal, olhando os governos subnacionais, a academia brasileira e o setor privado.”

O que a posse de Joe Biden representa para o combate à mudança do clima?

Ana Toni A posse de Biden representa esperança, uma luz no fim do túnel. É muito bom ter os Estados Unidos de volta ao Acordo de Paris. Eles são um país vital para a agenda climática. São o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. Eles têm grande influência política internacional, e muitas empresas de combustíveis fósseis são influenciadas pelo que acontece nos EUA.

Mas os Estados Unidos ficaram quatro anos fora do acordo. Por isso, só voltar não é suficiente. Eles precisam voltar e fazer tudo que não foi feito nos últimos quatro anos. É bastante pressão para o governo Biden, mas o papel dos EUA é muito importante para essa agenda. O governo Biden traz, então, muito ânimo, mas também essa cobrança. Precisamos assegurar que os EUA estejam presentes nessa agenda.

Quais devem ser os pontos de tensão entre EUA e Brasil, do ponto de vista da política climática?

Ana Toni O principal ponto de tensão deve ser o desmatamento no Brasil — afinal, esse já é um ponto de tensão nosso com outros países. A tensão vai estar na política ambiental — ou, melhor, na falta de política ambiental — brasileira, que afeta especialmente a região da Amazônia. O desmatamento na Amazônia vem liberando uma grande quantidade de emissões de gases de efeito estufa.

Mas imagino que teremos outros pontos de tensão, não só dentro da política climática ou de meio ambiente. Existe também o tema da democracia, da transparência — que, aliás, é vital para a agenda climática. O que está acontecendo com os dados do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, órgão que monitora o desmatamento], por exemplo, influencia muito a agenda climática no Brasil.

Como a sra. avalia a mensagem de Bolsonaro a Biden dizendo que deseja promover parcerias “em prol do desenvolvimento sustentável e da promoção do meio ambiente”?

Ana Toni É, no mínimo, cínica. Imagino que aquilo que o presidente Bolsonaro entende por política “em prol do desenvolvimento sustentável e promoção do meio ambiente” seja muito diferente do que o resto do mundo e o governo Biden entendem. Vamos precisar entender como ele pretende fazer essa sintonia.

A carta de Bolsonaro menciona um acordo do Brasil com um banco americano [chamado Eximbank] que nos deu muitos recursos para investimento em energia nuclear. Quando o governo Biden fala em promoção do meio ambiente, não acho que ele esteja pensando em energia nuclear. Vai ser preciso um ajuste de ambos os lados para entender do que se está falando.

Eu preferiria que, em vez de enviar uma carta ao Biden, o governo Bolsonaro estivesse promovendo o meio ambiente dentro do país. A política interna brasileira para o meio ambiente é desastrosa. Não vimos promoção do meio ambiente nos últimos dois anos. Pelo contrário: vimos o desmonte da política ambiental brasileira.

Como os possíveis impasses entre Biden e Bolsonaro afetam o Brasil?

Ana Toni Com a postura de hoje, o Brasil deve ficar cada vez mais isolado. Em particular, na política climática, vejo que o país perde imensas oportunidades de liderar alguns debates, como o de mercados de carbono, de bioeconomia, de combate ao desmatamento. O país poderia estar à frente dessas discussões, mas não está.

Se o Brasil tivesse continuado com o Fundo Amazônia, com a Alemanha e a Noruega [os países enviavam recursos ao Brasil para o combate ao desmatamento], tenho certeza de que, agora, o governo Biden traria recursos para o país de forma substantiva. Perdemos essa oportunidade de novo. São muitas consequências.

Como o governo Biden deve seguir com a agenda climática, empresas americanas que atuam no Brasil, principalmente na área de agricultura, terão que passar a seguir novas regras de responsabilidade ambiental — isso em supply chain [gestão da cadeia de suprimentos], rastreabilidade dos produtos comercializados, para saber de onde vêm. Imagino que agora o governo Biden será mais restritivo com esses padrões, o que deve afetar diretamente o governo brasileiro. Ele deve influenciar nossa política econômica pelo setor privado.

Vimos que isso está começando a acontecer com empresas europeias. Os EUA podem fazer alianças com elas e com empresas chinesas. A pergunta, nesse caso, é: para onde o Brasil corre? Em vez de estar liderando, o país pode ficar ainda mais isolado diante de uma possível aliança entre EUA, Europa e China. Se EUA e China têm conflitos em muitos temas, acredito que, na questão climática, terão alianças.

Mas o Brasil é mais do que o governo Bolsonaro. Espero que o governo Biden coopere com o país fora do governo federal, olhando para os governos subnacionais, a academia brasileira, os prefeitos brasileiros. Espero que ele olhe para a política ambiental brasileira para além da política do governo federal. Não temos política ambiental do ponto de vista federal, mas temos a nível local e estadual. Espero que os EUA ampliem o diálogo com outros atores, incluindo o setor privado.

Qual o lugar do debate sobre clima nas relações internacionais hoje?

Ana Toni É fundamental. É interessante ver como o tema do clima virou um tema de geopolítica, conforme os países passaram a perceber a gravidade e a urgência do tema. É um problema óbvio. As consequências da mudança climática não só são extremamente concretas — as pessoas estão vendo secas de um lado, inundações de outro, estão perdendo suas casas —, como afetam a economia. Entre os setores abalados estão a agricultura e a área de seguros, que é a primeira a ter que pagar pelas consequências dos eventos climáticos extremos.

Por outro lado, surgiram novas tecnologias, novas maneiras de vida, que nos mostram que é possível que as pessoas levem uma vida sem causar mais emissões de carbono. É possível ter uma vida tão confortável quanto a de hoje, tão economicamente pungente quanto a de hoje, com descobertas como fontes renováveis e carros elétricos. Mudar ficou viável, possível.

A questão climática não é mais só um tema ambiental. Não é um token, uma coisa a mais que se adiciona [no debate político], um tema pequeno. Tanto na Europa, e agora nos EUA, com Biden, o clima virou um tema estrutural de economia e geopolítica. Nos EUA, os quadros do Banco Central são fundamentais para a política climática que o país começa a promover, por exemplo. Eles estão buscando uma mudança estrutural na administração a partir do pilar clima.

O governo Bolsonaro subestimou a importância desse tema desde o começo. Quando o governo assumiu, o Itamaraty perdeu a Secretaria para o clima, e no Ministério do Meio Ambiente acabaram com esses experts. O governo não conhece o tema, não tem expertise sobre ele. Polarizou o tema, copiando o que Trump estava fazendo. O clima ainda é visto como uma coisa menor, ideológica — quando, na verdade, é um fato científico.

Foi um erro tratar o tema dessa forma. Agora todos nós estamos pagando por isso, seja com o que está acontecendo na Amazônia, seja com as oportunidades econômicas que estamos perdendo. O governo fala agora em cooperação na área ambiental, mas, sem conhecimento do tema, será difícil estabelecer diálogo e parcerias com esses players [EUA ou Europa] que têm mais estofo para debater o tema.

Como a política ambiental do governo Bolsonaro afetou a imagem do Brasil no exterior?

Ana Toni Os efeitos são desastrosos. O país hoje não tem política externa, e acredito que todo mundo vê isso. O meio ambiente é um dos temas que chamam a atenção para o desastre das políticas do governo Bolsonaro, mas temos problemas em outras áreas, como direitos humanos, saúde e direitos sexuais.

Acredito que a área ambiental foi uma das primeiras a despertar as pessoas para esses problemas do governo. Logo que assumiu, o presidente decidiu recusar sediar a COP [Conferência das Partes, reunião internacional sobre clima vinculada à ONU] de 2019 no Brasil, por negacionismo. Quando a COP aconteceu, em Madri, o Brasil não teve um estande, um espaço no evento, coisa que sempre teve. Os altíssimos níveis de desmatamento, depois, mancharam de novo a imagem do Brasil no exterior.

Mas é importante enfatizar, ainda mais para o governo Biden, que o Brasil é mais do que o governo federal. O país sempre teve protagonismo nas discussões sobre a mudança climática. A Convenção do Clima [grupo de países que elaboram acordos sobre o tema] nasceu no Rio de Janeiro. O Brasil sempre apoiou a agenda multilateral do clima. Acredito que a população, e outras instituições do país, continuam apoiando. A população brasileira é muito sensível às questões ambientais.

O que o governo brasileiro pode fazer para recuperar a credibilidade na área ambiental?

Ana Toni O país poderia ter uma política nacional consolidada, e acredito que essa política deve começar por combater o desmatamento. Mesmo com alguns esforços do governo, com iniciativas como o Conselho da Amazônia, o desmonte da política de combate ao desmatamento é muito claro. O país poderia começar remontando o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Poderia direcionar recursos para controle do desmatamento e pesquisas na área. Ou ainda voltar com o Fundo Amazônia.

Primeiro, o governo deve voltar aonde o país estava. Depois, poderíamos trazer coisas novas. A ênfase no meio ambiente urbano que o [ministro do Meio Ambiente] Ricardo Sales trouxe é importante. Mas não existe desmatamento versus agenda urbana. O governo destruiu o que a gente tinha, e ainda sem trazer contribuições novas para o tema das cidades.

Mas vamos construir, contando com outros setores. Temos os governos estaduais, e o setor privado brasileiro acordou para a agenda de clima. Há muitas redes entre EUA e Brasil — entre governadores, pesquisadores, a sociedade civil de lá e de cá — que estão discutindo a questão do clima. Tenho certeza de que agora, com o governo Biden, o apoio a esses grupos vai entrar na política do governo americano — talvez nem passando pelo Itamaraty.

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