‘Os municípios estão prontos. Falta a vacina chegar’

Presidente da Frente Nacional de Prefeitos diz que cidades vão cumprir seu papel no plano de imunizações e critica falta de coordenação do Ministério da Saúde

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A autorização dada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no domingo (17) para o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19 no Brasil é o ponto de partida para o país começar a imunizar a população na pandemia do novo coronavírus. Na ponta final da vacinação nacional, prevista pelo Ministério da Saúde para começar na quarta-feira (20), estarão as prefeituras dos mais de 5.500 municípios brasileiros.

A aprovação da agência federal vale para seis milhões de doses da Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo paulista, que estão prontas para aplicação, e duas milhões de doses da vacina da Universidade de Oxford e da farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que ainda precisam ser importadas da Índia.

As doses da Coronavac foram enviadas ao Ministério da Saúde no domingo (17) pelo governo paulista, que manteve em seu estoque parcela equivalente à população do estado. O ministro Eduardo Pazuello afirmou no domingo que as primeiras vacinas serão distribuídas para os demais estados já na segunda (18), de forma proporcional, para que sejam enviadas aos municípios a tempo do início da vacinação na quarta (20). Segundo o plano nacional, profissionais da saúde, idosos com mais de 75 anos e indígenas são as prioridades. A quantidade disponível até agora, no entanto, é pouco até mesmo para essa primeira fase.

No domingo (17), minutos após a aprovação da Anvisa, o governo de São Paulo promoveu uma cerimônia na capital paulista em que profissionais de saúde da rede pública se tornaram os primeiros vacinados fora de ensaios clínicos no Brasil. O governador João Doria (PSDB) prometeu começar a vacinação no estado na segunda (18), com a imunização de trabalhadores de saúde em hospitais na capital e outras cinco cidades.

Na medida em que as doses forem distribuídas pelo país, caberá às prefeituras organizarem a vacinação localmente. Presidente da FNP (Frente Nacional de Prefeitos), que reúne cidades com mais de 80 mil habitantes, Jonas Donizette afirma que os os municípios estão prontos para começar a vacinar contra a covid-19. Ele critica a falta de coordenação do Ministério da Saúde na preparação da imunização pelo país e diz que a vacinação é essencial para conter os efeitos da nova onda de contágio enfrentada pelo Brasil. Donizette, que foi prefeito de Campinas (SP) por dois mandatos consecutivos, entre 2012 e 2020, concedeu entrevista ao Nexo na quinta-feira (14).

Qual será o papel dos municípios na vacinação contra a covid?

Jonas Donizette Fundamental. Os prefeitos vão executar aquilo que o Ministério da Saúde planejar. O ministro Pazuello ficou surpreendido durante a reunião que tivemos [na quinta-feira, dia 14], porque todos os representantes das cidades que participaram do encontro, que são as maiores do país, mostraram que o planejamento para a vacinação está pronto. Falta o imunizante chegar aos municípios. Os municípios estão na linha frente e fazem o papel mais efetivo da vacinação, que é aplicar a vacina.

Como os municípios se prepararam para a vacinação?

Jonas Donizette Os municípios são os responsáveis por toda a vacinação já existente hoje no Plano Nacional de Imunização. Isso significa que nós já temos uma estrutura básica de saúde, geladeiras e equipamentos para realizar a vacinação. Nós temos cinco mil Unidades Básicas de Saúde e isso deve ser aproveitado nesse momento pelo Ministério da Saúde para coordenar a vacinação.

O que os prefeitos tiveram que se preocupar foi a compra de seringas. Durante a reunião que nós tivemos com Pazuello, nenhum prefeito manifestou preocupação sobre a falta de materiais. Ainda assim, eu solicitei ao Ministério da Saúde para que estivesse atento à uma eventual demanda solicitada pelos municípios. O ministério diz ter comprado 30 milhões de seringas para a vacinação contra a covid-19 e também para outras doenças.

Uma das nossas preocupações é que os municípios utilizem todas as seringas para a imunização contra o novo coronavírus e depois tenham problemas para cumprir o calendário de vacinação normal. Então, essa quantia de 30 milhões anunciada pelo ministério funcionaria como um estoque também em caso de necessidade.

Como avalia a condução da vacinação pelo Ministério da Saúde?

Jonas Donizette Veja, o ministério cogitou adiar a reunião que nós tivemos [na quinta-feira, dia 14] para a próxima segunda-feira (18). Diante dessa possibilidade, eu disse o seguinte ao ministro: “na luta do rochedo contra o mar, quem sofre é o marisco”. Fica de um lado o ministro e do outro os governadores, e quem vai vacinar a população, que são as prefeituras, não têm informação. O encontro que nós tivemos serviu para mostrar que os prefeitos estão trabalhando e que o ministério precisava dar algumas respostas. Tanto que a definição do dia de início da vacinação partiu voluntariamente dele, porque nós não cobramos uma data.

Quando Pazuello assumiu o Ministério [em maio de 2020], eu disse que ele estava trabalhando próximo dos municípios. Depois, ele se afastou. No final de 2020 e no começo de 2021, nós tivemos muita dificuldade para articular uma ação conjunta com o Ministério da Saúde. Faltou coordenação, não tenha dúvida. Quem tem que exercer esse papel é o ministério, e isso não tem acontecido.

Eu sempre disse que prefeituras e estados não podem sair comprando vacina e aplicando unilateralmente. Isso gera uma desigualdade. São Paulo, que é rico, tem condições. Mas os estados mais pobres terão dificuldades. Alguns prefeitos questionam se não poderiam comprar a vacina e eu fui voz contrária, como presidente da FNP, para dizer que essa é uma responsabilidade do governo federal, segundo a Constituição. O Plano Nacional de Imunização diz que o governo federal compra vacina e distribui para estados e municípios.

É claro que algumas regiões podem ter mais dificuldade, pelo tamanho do país, com maior dificuldade de acesso, mas nós cobramos que todos os municípios, sem importar o tamanho, sejam atendidos de acordo com o tamanho da população. Agora o Ministério da Saúde precisa executar isso.

Como os municípios estão lidando com a nova onda da pandemia?

Jonas Donizette O que nós acreditamos é que, mesmo com a vacinação, teremos um período complicado em relação à pandemia. A vacinação ainda não começou e nós percebemos um cansaço muito grande da população em relação às medidas restritivas. É de se esperar, pelo tempo que as coisas estão demandado, que isso fosse acontecer. Então, os prefeitos precisam ser firmes e se precaver.

O nosso grande problema neste momento é o de recursos humanos, porque os profissionais de saúde não tiveram férias no ano passado e dificilmente terão em 2021. Essas pessoas, que são fundamentais para nós agora, estão esgotadas, e com razão, porque são seres humanos, não máquinas. Em Campinas, por exemplo, há um hospital de campanha montado, que está desativado. Ele ainda não foi ativado porque a contratação de profissionais de saúde está muito complicada. Todos estão trabalhando ou estão esgotados com a jornada.

A vacina vai trazer a preservação física, mas também psicológica para os profissionais de saúde, porque eles vão trabalhar sabendo que estão imunes e resguardados, e isso gera uma tranquilidade mental importante. Por isso defendo que a vacinação seja feita primeiro nos profissionais de saúde, que ainda terão uma longa jornada pela frente.

Os prefeitos relaxaram as quarentenas? Há alguma orientação sobre a necessidade de mantê-las mesmo diante da perspectiva de ter a vacina?

Jonas Donizette A população está esgotada. Há um grupo mais consciente, que tem respeitado as regras. Tem um grupo que trabalha por conta própria, geralmente na rua, que está desesperado e acaba relaxando um pouco. E há uma parcela que não respeita mesmo. O meu ex-secretário de Saúde em Campinas [Carmino Souza] dizia que após três meses, é muito difícil seguir regras de isolamento. Nós já estamos nisso há quase um ano. É um esgotamento natural.

Os prefeitos estão usando as armas que têm para coibir o avanço da doença. Eu acredito que nós precisamos manter as medidas, mas é uma situação complicada. Os prefeitos já estão convivendo e vão conviver ainda mais com um problema de subsistência. Já saíram dados mostrando que a inflação está corroendo os salários das famílias que ganham de 1 até 5 salários mínimos, sobretudo na questão alimentar. Está todo mundo sofrendo, mas os mais pobres estão sofrendo mais. E infelizmente nós não temos alternativas sendo apresentadas pelo governo federal. O auxílio emergencial ajudou, mas ele vai acabar [o pagamento não foi continuado em 2021]. Isso vai afetar drasticamente a economia local e, por consequência, as gestões iniciadas em 2021.

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