‘As redes sociais subvertem etapas do processo democrático’

Após invasão do Congresso incitada por Donald Trump, plataformas bloqueiam perfil de presidente americano. Para Maria Alexandra Cunha, da FGV, interesse das empresas é a autopreservação

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A invasão do Congresso americano por apoiadores do presidente Donald Trump na quarta-feira (6) foi amplamente considerada um atentado inédito à integridade das instituições da autointitulada “maior democracia do mundo”. As cenas de janelas quebradas, bens depredados e parlamentares sitiados estamparam jornais globalmente e dominaram as conversas nas redes sociais.

Foi também nas plataformas que a ação dos extremistas ganhou corpo até culminar na violência em Washington – da incitação e pedidos de protesto feitos pelo presidente Donald Trump em seu perfil no Twitter à preparação dos atos em si.

No calor do momento, as empresas donas das redes tentaram agir para minimizar os riscos dos acontecimentos de quarta-feira (6). Trump, que seguia contestando o resultado do pleito que elegeu Joe Biden para ser o próximo presidente dos Estados Unidos, teve seus perfis bloqueados no Twitter, Facebook e Instagram.

A princípio, o bloqueio seria temporário, mas o Twitter disse que se Trump insistisse em violar as políticas da plataforma, o banimento se transformaria em permanente – o que aconteceu na sexta-feira (8), por "risco de mais incitação à violência", segundo a empresa.

Na quinta-feira (7), Facebook e Instagram haviam anunciado que o presidente terá suas contas bloqueadas pelo menos até o fim do mandato, em 20 de janeiro. “Acreditamos que o risco de permitir que o presidente continue a usar nossos serviços é grande demais”, escreveu Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, em comunicado oficial.

Para entender melhor o papel das redes e das empresas de tecnologia nessa situação, o Nexo conversou na quinta-feira (7) com Maria Alexandra Cunha, coordenadora da área de Tecnologia e Governos do Centro de Estudos de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas de São Paulo.

Qual foi o papel das redes na mobilização dos apoiadores de Trump que invadiram o Capitólio?

Maria Alexandra Cunha Houve uma mobilização nas redes, e na deep web também, com grupos como o QAnon [grupo online de extrema direita fundamentado em teorias conspiratórias]. Mas eu acho que o papel das mídias foi além disso.

O sistema democrático americano foi pensado no século 18, e é algo muito forte para os americanos. E ele é muito lento, até por isso é chamado de processo democrático, são várias etapas. As mídias sociais subvertem essas etapas, porque elas ultrapassam esses passos muito rapidamente.

Os chamados Pais Fundadores [os líderes políticos que assinaram a Declaração de Independência dos EUA em 1776] pensaram em um sistema que não desse oportunidade para essas facções políticas radicais. Se você pensar na democracia americana, ela é cheia de etapas, dando oportunidade para o povo debater.

O que acontece com as redes sociais é uma subversão dessas etapas, dando voz e agregando pessoas de pensamento igual, ultrapassando espaços planejados para que esse tipo de levante não aconteça.

No calor do momento, tanto Twitter, quanto Facebook e Instagram impuseram bloqueios aos perfis de Trump. Como a sra. avalia essas decisões?

Maria Alexandra Cunha Estão culpando as mídias sociais por um problema que, em última instância, não é delas. A polarização americana já vinha acontecendo, com ambos os lados cada vez mais violentos e agressivos. Ao meu ver, as mídias sociais foram o último rastro de pólvora nesse processo que já vinha acontecendo, potencializaram uma polarização que já existia.

Mas as redes sociais não querem o ônus disso. As cenas da invasão do Capitólio são muito fortes, então Twitter, Facebook, Google e outras empresas não querem levar a culpa sobre isso, não querem ser os maiores influenciadores de uma tentativa de golpe. Eu acho que o Zuckerberg está pensando mais no Facebook do que na democracia americana. Se fosse diferente, todos os outros perfis de extrema direita teriam que ter sido bloqueados também.

Se todos os jornalistas sabem quais são os grupos que estão incitando esse tipo de ato, os diretores do Facebook também sabem. Então por que não bloquearam também esses outros perfis como uma medida preventiva?

Eles precisam do ato público, de alguma decisão pública para dizerem que eles não compactuam com essas manifestações contra a democracia. Essas decisões são anúncios que dão mídia para que eles se isentem do que está acontecendo.

Banido ou sob fortes restrições nas redes sociais, qual seria o apelo da comunicação de Trump?

Maria Alexandra Cunha Acredito que Trump vai continuar falando por meio dos perfis dos apoiadores, continuar influenciando as mensagens. Hoje mesmo [quinta-feira, 7] ele falou pelo perfil de um dos seus assessores. Apesar disso, acho que ele vai ser mais low profile. Mas Donald Trump é totalmente imprevisível. Quem poderia imaginar que tudo isso que vimos aconteceria?

Com essa hipótese de ele se comunicar por meio de terceiros, o apelo seria o mesmo?

Maria Alexandra Cunha Vai ter o mesmo apelo se as pessoas tiverem convicção de que é ele que está falando. Porém acredito que parte das 74 milhões de pessoas que votaram nele murcharam depois de ver essas cenas no Capitólio. Como eu disse, a democracia é um valor muito grande para os americanos.

A minha suposição é que esses 74 milhões derreteram depois das imagens de quarta-feira, mas ainda sim, os apoiadores mais ferrenhos, que de fato acreditam nessa maluquice que as eleições foram fraudadas, se acreditarem que é o Trump que está falando, as mensagens dele vão ter apoio. Ao mesmo tempo, acho que a mídia não vai dar espaço para ele. Vai ser um espaço bem restrito. Se ele fizer um pronunciamento e insistir nas mesmas bobagens, ele será cortado instantaneamente.

O dia 6 de janeiro de 2021 pode ser um ponto de virada para como essas plataformas lidam com o discurso de seus usuários?

Maria Alexandra Cunha Creio que sim, mas a minha expectativa vai para além disso. Não só as plataformas vão agir, acredito que isso vai provocar alguma tentativa de regulação das redes sociais.

Isso já estava sendo pensado e discutido desde o escândalo envolvendo a Cambridge Analytica e as eleições de 2016. Mas agora acho que não veremos só uma auto-regulação das empresas. Acredito que Estados Unidos, Europa e outros lugares do mundo vão começar um processo de regulação. Não consigo apontar para qual direção exata tudo isso vai caminhar, mas realmente é um dia de virada, de grande significado simbólico.

A sra. acredita que vai haver pressão da sociedade para essa regulação?

Maria Alexandra Cunha As pessoas, num primeiro momento, embarcaram nas fake news, mas hoje elas se sentem um pouco envergonhadas por ter acreditado em certas coisas que, quando são expostas como falsas, deixam-as constrangidas socialmente.

De alguma maneira, as pessoas também querem ser protegidas dessas situações. Elas não veem isso só como responsabilidade individual, acham que deveria haver uma forma de protegê-las para não perpetuar esse tipo de conteúdo. Talvez essa pressão aconteça nos Estados Unidos, mas certamente não no Brasil. A invasão do Capitólio não tem o mesmo significado no Brasil do que tem nos Estados Unidos.

Quais aprendizados é possível extrair para eleições futuras e preservação da democracia?

Maria Alexandra Cunha A gente tem que começar a entender melhor o efeito das mídias sociais na democracia. É um fenômeno muito recente. O [presidente Jair] Bolsonaro e o Trump são da primeira geração de gente que chegou ao poder apoiado por campanhas massivas de fake news e de desinformação.

É algo que conhecemos pouco. No marketing, na publicidade e no entretenimento, os mecanismos de mudança de comportamento já são conhecidos e seguem sendo muito estudados, enquanto as implicações democráticas das redes sociais ainda são pouco conhecidas, porque são fenômenos muito complexos.

É preciso entender como as redes sociais batem no indivíduo, depois como elas vão influenciar o resultado de uma votação e, sistemicamente, como elas estão influenciando a política. É muito complexo, mas não conseguimos regular e traçar políticas públicas sem entender o fenômeno.

Até porque havia toda uma expectativa positiva sobre a influência das mídias sociais na democracia, na transparência, no compartilhamento do conhecimento, e na verdade estamos vivendo o reverso dessa mentalidade.

A gente percebe que há uma conexão entre as duas coisas, que há um nexo causal – que uma coisa acontece por causa da outra –, mas ainda não conseguimos interpretar as nuances desse fenômeno de forma a conseguir agir de fato.

Os eventos de 6 de janeiro podem aparecer nos processos judiciais que correm contra empresas de tecnologia nos EUA?

Maria Alexandra Cunha Talvez não diretamente, mas certamente vai influenciar esses processos. Não tenho a menor dúvida. O poder simbólico das imagens da invasão do Capitólio é muito grande e foi isso que moveu o Facebook para fechar as contas do Trump. Acredito que essas cenas vão influenciar internamente as empresas, nos Estados Unidos, na Europa e um pouco por todo o mundo.

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