‘Profissionais da saúde se sentem esgotados e com medo’

Em entrevista ao ‘Nexo’, a pesquisadora Maria Helena Machado, da Fiocruz, diz que estresse tem levado trabalhadores a abandonar empregos e que quadro deve se agravar com novo avanço da pandemia

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O recrudescimento da pandemia do novo coronavírus no Brasil voltou a pressionar os sistemas de saúde. Hospitais como os do Rio de Janeiro estão funcionando no limite devido à alta no número de casos e mortes pela covid-19, que retornou a patamares de outubro. O quadro tende a agravar ainda mais as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde, categoria mais exposta aos riscos de contágio.

Uma pesquisa do Núcleo de Estudos da Burocracia da Escola de Administração de Empresa de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, divulgada ainda no início da crise sanitária, em maio, mostrava que a maioria dos profissionais de saúde que atuavam no combate ao novo coronavírus se sentia despreparada, abandonada pelos governos e com medo da doença. Foram ouvidos 1.456 trabalhadores da área na época.

Em outra pesquisa da Associação Paulista de Medicina, de julho, com quase 2.000 médicos, 63% dos profissionais descreveram como “apreensivo” o clima no trabalho. Os problemas mais comuns citados pela categoria foram ansiedade (69,2%), estresse (63,5%), sensação de sobrecarga (50,2%) e exaustão física ou emocional (49%).

Por isso, especialistas acreditam que uma segunda onda da doença — que chegou ao Brasil antes mesmo da primeira ter ido embora — irá complicar ainda mais as condições de trabalho desses profissionais.

Na quarta-feira (9), quase 500 pessoas estavam na fila por um leito de internação no estado do Rio de Janeiro. Na capital fluminense, a taxa de ocupação das UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) era de 91%. Dados oficiais também mostravam leitos do SUS (Sistema Único de Saúde) bloqueados por, entre outros motivos, falta de médicos.

O quadro no Rio é ainda mais dramático pelo atraso nos salários. Até a quarta-feira (9), cerca de 16 mil profissionais de saúde da rede municipal não haviam recebido o pagamento de novembro. Segundo a equipe do prefeito eleito Eduardo Paes, o município não tem recursos para pagar o 13º e o salário de dezembro. A prefeitura disse que trabalha para fazer os pagamentos, mas não citou datas para isso.

O Brasil conta com cerca de 3,5 milhões de trabalhadores na saúde, a maioria deles atuando na linha de frente do enfrentamento à pandemia. Até 1º de dezembro, o sistema e-SUS Notifica, do Ministério da Saúde, havia registrado 1,7 milhão de casos suspeitos de covid-19 entre profissionais de saúde. Desse total, 406.803 foram confirmados.

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profissionais de saúde morreram por covid-19 até o final de novembro, segundo boletim do Ministério da Saúde

O impacto da pandemia

Proporção de casos e mortes entre profissionais da saúde

Para discutir o impacto da nova onda de covid-19 no trabalho dos profissionais de saúde e no combate à pandemia, o Nexo conversou com a pesquisadora Maria Helena Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Ela coordena o estudo “Condições de trabalho dos profissionais de saúde no contexto da covid-19 no Brasil”, que ainda está em andamento. Foram entrevistados na pesquisa mais de 25 mil profissionais em todo o país.

Qual o impacto de uma segunda onda de covid-19 para os profissionais de saúde?

MARIA HELENA MACHADO A situação dos trabalhadores da saúde tende a piorar muito. A partir da pesquisa das condições de trabalho dos profissionais de saúde no contexto da covid no Brasil, consideramos que existem três fases em relação aos trabalhadores: a fase pré-pandemia, a fase durante a pandemia e a pós-pandemia. Quando falo dos trabalhadores, incluo não só os profissionais da saúde com formação específica, como médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, mas também aqueles de nível auxiliar e técnico. Todos aqueles que estão envolvidos direta ou indiretamente. Esses profissionais já entraram na pandemia numa situação muito delicada. Na pré-pandemia, muitos deles tinham vínculos precários, com condições de trabalho não adequadas, salários baixos. Na pandemia, esses profissionais passam a assumir uma responsabilidade extraordinariamente grande, acarretando uma sobrecarga de trabalho imposta pela crise sanitária. Isso de fato aconteceu.

Então, trabalha-se mais e mais intensamente, com um nível de estresse e de cansaço e, muitas vezes, com piores condições de trabalho — principalmente no início da pandemia, quando houve situações de improviso, inclusive de equipamento de proteção individual. O mais grave de tudo não é só o volume de contaminação nesse ambiente, mas o tipo de pandemia [causada por um vírus novo] que não deixa saber exatamente o prognóstico e todo o procedimento que se deve adotar. O mundo todo está estarrecido com isso, com o enorme número de óbitos, buscando saídas. O caldo disso tudo, do ponto de vista psico-emocional e físico, para os trabalhadores, foi extremamente brutal na primeira onda.

Nós estamos vendo uma segunda onda que se encontra com a primeira, como um tsunami que vem por aí e que vai acarretar uma sobrecarga ainda maior para esses profissionais já cansados, já estressados. Alguns, inclusive, estão abandonando o posto de trabalho, pedindo demissão, porque não estão dando conta. E o número de profissionais adoecendo e de óbitos entre eles é elevadíssimo.

Nós temos em torno de 2 milhões de trabalhadores diretamente ligados à assistência de doentes com covid. A força de trabalho [da saúde] no Brasil é de mais de 3,5 milhões de pessoas. Se a gente ampliar para aqueles que gravitam em torno da saúde, que auxiliam e prestam atividades vinculadas à pandemia, o número chega a 5 milhões.

Entre esses 2 milhões, o índice de contaminação é elevado. Ainda é obscuro para as autoridades federais, estaduais e municipais saber qual o volume preciso de contaminados e, mais ainda, o número preciso de óbitos. Nos números que a gente está estudando, entre médicos e equipe de enfermagem, os óbitos chegam a quase 1.000. É um dado pesquisado entre os conselhos de medicina, de enfermagem, nas secretarias municipais e estaduais, no próprio Ministério da Saúde.

O sistema de saúde pode entrar em colapso pela exaustão dos profissionais? Que impacto isso teria para o público?

MARIA HELENA MACHADO Com certeza. Isso atinge mais fortemente os médicos e as equipes de enfermagem. Esses profissionais se sentem esgotados, com medo e estressados e tendem a se afastar do trabalho — ou porque estão contaminados ou porque percebem que a situação está num nível insustentável. Isso é gravíssimo. Esses profissionais afastados poderiam até ser substituídos por uma outra força de trabalho da mesma categoria, mas não é bem assim. Os que estão na linha de frente adquiriram experiência, conhecimento. São especializados no atendimento a doenças graves como essa, na emergência, na urgência das UTIs. São os intensivistas, os infectologistas, os clínicos, a equipe de enfermagem. E isso não se forma no mesmo dia.

É preciso ter medidas que possam amenizar o sofrimento desses profissionais. Uma delas, que a gente não está vendo acontecer, infelizmente, vem da própria população, que desrespeitosamente afronta a pandemia, ao não ter os cuidados de distanciamento, de isolamento, as coisas básicas que a civilidade exige das pessoas. Isso tudo dá uma sensação de muita insegurança para o futuro, para o que está previsto para daqui a um ou dois meses.

Qual a percepção entre esses profissionais sobre as políticas adotadas para o controle da pandemia?

MARIA HELENA MACHADO A gente não abordou isso diretamente na pesquisa, mas a gente tem muitos depoimentos e eles recaem muito no sentimento de que poderíamos estar em outro patamar se tivéssemos mais planejamento, mais direção das instâncias de gestão do SUS, nos níveis municipal, estadual e federal. Esse diálogo mais bem trabalhado para que o profissional que está na linha de frente se sinta mais protegido e orientado do que de fato está.

Há um sentimento de que esses profissionais não estão sendo levados em consideração na formulação das políticas e no próprio comportamento da população. Isso é muito forte na pesquisa. O sentimento de individualismo é muito forte na população brasileira, e isso gera o sentimento de descaso, de descuido, de falta de respeito para aqueles que estão arriscando a própria saúde e dando a vida para nos proteger e nos socorrer quando a gente adoece.

Como as desigualdades regionais afetam esses profissionais?

MARIA HELENA MACHADO No Rio de Janeiro, a situação de descaso e de falta de condução do governo estadual e municipal é bem visível. As medidas de isolamento não estão sendo respeitadas, e as instâncias de governo não estão tomando medidas mais severas em relação a isso. Mais grave ainda é que esses profissionais trabalham por plantão, por horas de trabalho. Eles ganham pelo o que fazem e sequer têm proteção trabalhista. Se adoecem ou faltam ao trabalho, deixam de receber salários. E ainda pior é imaginar que é possível ter uma gestão que, durante uma pandemia, ousa não pagar salários em dia.

No Brasil, tem vários lugares em que a situação é bastante preocupante. No Nordeste e no Norte, a própria realidade sanitária já mostrava isso. Tem escassez de leitos, de mão de obra, vazios de profissionais nos interiores. A má distribuição da força de trabalho de saúde no país está agora se refletindo na pandemia. Nos lugares onde tem escassez de hospitais, de UTIs, a tendência é que tenha mais problemas. Todos os estados do Norte padecem de infraestrutura e têm populações muitas vezes desoladas por conta da geografia da região.

O Nordeste, que é a segunda maior população do país e que aglutina nove estados, não tem um volume proporcional de estabelecimentos, de força de trabalho e de leitos disponíveis. O Centro-Oeste também tem problemas pela geografia dos estados. Com exceção do Distrito Federal, diria que Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás têm uma infraestrutura incompatível com a população. Precisam de mais infraestrutura, mais recursos. O Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm áreas extensas que exigem deslocamento dos profissionais e atendimento a distância por causa das populações indígena e ribeirinhas.

Como se dá essa precarização do trabalho na saúde?

MARIA HELENA MACHADO É um esquema que está sendo denominado tristemente de uberização ou pejotização. O estado não tem responsabilidade sobre o profissional. Ele é um PJ, uma pessoa jurídica. E de pessoa jurídica ele não tem nada. É uma força de trabalho que deveria estar incorporada ao SUS, ao sistema de saúde público ou privado. Essa uberização ou pejotização infelizmente está no setor público e privado. Os profissionais acabam ganhando pelo que trabalham. Temos relatos desses profissionais adoecidos. Eles vão pra casa e ficam lá, estressados, doentes, com medo de piorar e ao mesmo tempo rezando para melhorar logo para voltar ao trabalho. Eles não têm nenhuma proteção social, afinal de contas é uma estrutura uberizada. Esse profissional tem que voltar ao trabalho porque, enquanto estiver em casa, doente, não está recebendo.

E não é uma coisa isolada de uma região. É claro que na região Sudeste, pelo tamanho, pelo volume de profissionais que aglutina, com quase metade da força de trabalho, essa força da terceirização e precarização é grande. Mas está presente em todas as regiões e em algumas em que não poderiam nunca estar pela grande extensão territorial de matas e florestas. O Norte do Brasil está cheio de profissionais que estão na situação mais precária.

Qual será o legado dessa pandemia para esses profissionais?

MARIA HELENA MACHADO O que eu posso dizer é que alguns aprendizados os profissionais vão tirar. Por exemplo, de que o trabalho da saúde não pode ser precário e sem proteção social. A pandemia deixa isso bastante claro. A pandemia no Brasil só não é pior porque temos o SUS, mas é preciso que esse sistema tenha a responsabilidade de manter esses profissionais com vínculo. Esse é o primeiro legado. É preciso rever a forma como esses profissionais precisam estar vinculados organicamente ao sistema de saúde.

A outra é esse sentimento de equipe que a pandemia mostra com clareza. Não é um profissional A ou B que salva vidas, mas todos da equipe. Essa ideia se tornou extremamente forte.

Outra coisa é que, apesar da população brasileira e da gestão pública não estarem demonstrando a devida importância dos profissionais de saúde, eles hoje se sentem mais valorizados, mais ciosos da responsabilidade e do papel social que têm no processo civilizatório brasileiro.

Por fim, a humanidade terá que se comunicar globalmente de forma virtual também. O acesso aos profissionais de saúde, à assistência e principalmente à informação não será só presencialmente. Muita coisa vai se dar de forma online. O que nós precisamos agora é adequar e trabalhar isso de forma eticamente correta, para que os trabalhadores de saúde e a população não sejam prejudicados.

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