Jocy de Oliveira e o espaço da música experimental no Brasil

Pioneira da música eletrônica no país, musicista fala ao ‘Nexo’ sobre a baixa representatividade feminina no cenário musical de vanguarda e as dificuldades de financiar trabalhos autorais

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    A música eletrônica foi inaugurada no Brasil por uma mulher. Nascida em Curitiba, a musicista Jocy de Oliveira produziu em 1961 um espetáculo multimídia com composições eletrônicas. Apresentado nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo, “Apague meu spotlight” foi lançado apenas dois anos depois que João Gilberto gravou seu álbum “Chega de Saudade”, marco inicial da bossa nova.

    Mais conhecida nos meios eruditos do que entre os adeptos de gêneros como house e techno, o nome de Jocy ganhou visibilidade para novos públicos em 2019 no documentário “Eletronica:mentes”, dirigido por Dácio Pinheiro, Denis Giacobelis e Paulo Beto.

    Em 2020, com 84 anos, Jocy foi homenageada no décimo aniversário do Festival Novas Frequências, focado em música de caráter mais experimental. No evento, que em 2020 é todo online, a musicista apresentou segmentos de suas óperas multimídias “Naked Diva” e “La Loba”. Jocy já escreveu e lançou dez óperas.

    Em “La Loba”, realizada com a artista visual e produtora radiofônica Lilian Zaremba, Jocy trata de mulheres que extrapolam “barreiras impostas por uma sociedade machista”. É uma situação vivida pela musicista durante toda sua carreira, construída sempre em meios dominados por homens.

    Sua amizade e trabalhos realizados com músicos consagrados dos meios eruditos e vanguardistas do século 20, como Igor Stravinsky, John Cage e Luciano Berio, foram tema do livro “Diálogos com cartas”, que venceu o Jabuti em 2015, na categoria Arquitetura, Urbanismo, Artes e Fotografia. Em 2018, ela se apresentou na abertura da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) ao lado da atriz Fernanda Montenegro, que foi do elenco de “Apague meu spotlight”.

    O Nexo conversou com Jocy de Oliveira por e-mail sobre os marcos de sua carreira e os desafios de trabalhar com música experimental no Brasil, especialmente sendo mulher.

    ‘Apague meu Spotlight’ é um trabalho de arte multimídia e música eletrônica pioneiro no país. O que a levou a querer explorar essas linguagens? Quais foram as dificuldades técnicas e logísticas de realizar isso no Brasil em 1961?

    JOCY DE OLIVEIRA Desde o final dos anos 1950, passei grande parte de minha vida morando na Europa, Estados Unidos e Brasil. As oportunidades que tive tanto na Europa como nos EUA de conhecer ou colaborar, em 1960, com [os compositores] Stravinsky, Olivier Messiaen, Luciano Berio, John Cage, Stockhausen e Lukas Foss foram determinantes na minha vida artística e no desenvolvimento de meu trabalho. Esses encontros são documentados em meu livro “Diálogo com cartas”, que foi Prêmio Jabuti em 2014. Conheci [o compositor italiano] Luciano Berio em 1960 [no Centro Musical de] Tanglewood, EUA, quando fui do Brasil para ser solista com a Orquestra Sinfônica de Boston. Na época, estava escrevendo uma peça de teatro-música e sonhava com um drama eletrônico. Berio gostou da ideia e aceitou a parceria. A peça representou o primeiro evento de música eletrônica no Brasil, realizado nos Teatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro com a importante participação da [companhia] Teatro dos 7, com Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi e outros grandes atores, dirigida por Gianni Ratto.

    O processo do trabalho foi lento e complicado. Eu transitava entre o Rio e Milão. Trabalhava na dramaturgia e na concepção geral e [Berio] cuidava comigo da parte eletroacústica. Gravamos os atores aqui na Rádio MEC. Eu enviava as fitas de rolo, ele processava e me retornava. Eu editava. Um mês antes da estreia, Berio veio ao Brasil e fizemos a masterização na Rádio MEC. Na época, no Brasil, não existia nada em matéria de música eletrônica e muito menos um estúdio. Como se sabe, em 1960, a música eletrônica não era democrática como hoje, em que cada compositor pode ter seu próprio estúdio. Naqueles anos, existiam poucos grandes estúdios na Europa onde os compositores eram convidados a trabalhar em suas obras. O Studio di Fonologia, de Milão, foi onde trabalhamos “Apague meu spotlight”, além da Rádio MEC.

    Qual era a ideia que se tinha da música eletrônica no Brasil nessa época?

    JOCY DE OLIVEIRA Sem dúvida, existia uma maior inquietação e interação das artes com o público durante aqueles períodos. Aqui estávamos engatinhando, mas o público tinha enorme curiosidade e abarrotou os teatros municipais do Rio e de São Paulo para a première de “Apague meu Spotlight”. Melhor isso do que a apatia de nossos dias. E o que é música contemporânea hoje? Certamente não significa o que é criado hoje. Não se pode analisar uma obra de forma simplista, do ponto de vista cronológico, pois a grande maioria já foi composta no passado. Logo, não deveria ser chamado de música contemporânea. Stravinsky dizia que ele não era um compositor, era um inventor. Creio que ele encontrou a resposta para esta questão. Penetrar em labirintos desconhecidos que requeiram alguma invenção.

    Esse era um tempo em que mal haviam instrumentos e equipamentos específicos para a produção de música eletrônica. Pode dar alguns exemplos do que você usava para fazer música na década de 1960?

    JOCY DE OLIVEIRA Durante o regime militar, eu passei a morar nos EUA, porém vinha anualmente ao Brasil e realizava concertos, espetáculos, eventos urbanos, instalações e aí começavam os problemas, pois a linguagem estética era provocativa, buscava uma audiência participativa, ativa e portanto incitava a reflexão e ao questionamento. Algumas vezes tive o Dops [Departamento de Ordem Política e Social, órgão do governo brasileiro usado durante o Estado Novo e na Ditadura Militar] interrompendo minhas instalações (que se baseavam em música e meio ambiente). Em outras vezes, tive que voltar aos EUA antes do previsto. Morei cinco anos em St. Louis, Missouri, e lá fiz meu mestrado enquanto trabalhava no estúdio de música eletrônica da Universidade Washington. Usávamos [os sintetizadores] Moog e Buchla, além dos infindáveis processos que implicavam trabalhar com a música analógica.

    Para muitos artistas da música eletrônica, textura e sonoridade são tão ou mais importantes que melodia ou canção. Você poderia falar um pouco sobre o processo de composição na música eletrônica a partir da sua experiência?

    JOCY DE OLIVEIRA Passei anos envolvida em um trabalho de música mista, ou seja, eletroacústica e instrumental/vocal. A eletrônica é uma matéria sonora, uma ferramenta que se integra totalmente aos meios escolhidos para complementar a obra. Em geral, para mim, o tecido sonoro pode se desenvolver de inúmeras maneiras como, por exemplo, a tradição pós-serialista europeia, por meios eletrônicos, densidades e texturas, a não periodicidade oriental, a atemporalidade da natureza, o acaso, ou nossas raízes culturais antropofágicas.

    O ambiente da música de vanguarda era bastante masculino nessa época. Como era ser uma das poucas mulheres a atuar nesse meio? Enfrentou machismo ou questionamento da sua capacidade?

    JOCY DE OLIVEIRA Não acho que hoje haja uma diferença suficientemente marcante! A diferença é que se fala mais sobre o assunto na mídia. Mas, ainda hoje, apenas 2% de mulheres compositoras figuram na programação mundial de música erudita, quanto mais de música eletroacústica. Discriminação e preconceito contra gênero existem e continuarão a existir em um mundo que parece cada dia mais distante de um compromisso com a justiça social, um mundo desigual que não respeita as diferenças.

    Quais são outras artistas brasileiras dessa fase pioneira da eletrônica no país que você destacaria?

    JOCY DE OLIVEIRA Na década de 1960 — que para mim foi tão marcante —, mesmo no exterior eu convivia muito mais com homens. Existiam figuras femininas impressionantes e que apresentaram uma nova vocalidade, como Cathy Berberian, com quem tive muito contato. Mas ela também questionava o machismo da época e teve dificuldade em ser reconhecida. Outras compositoras bem interessantes eram Pauline Oliveros e Laurie Anderson nos EUA. No Brasil, destacaria Vania Dantas Leite como sensível compositora de música eletroacústica em meados da década de 70.

    Você acompanhou a inserção da música eletrônica na esfera pop, a partir da década de 1970, de artistas como Kraftwerk e Jean-Michel Jarre? Como você vê essa incorporação das técnicas e estéticas eletrônicas na música popular?

    JOCY DE OLIVEIRA Sim, a música eletrônica pop daquela época seguiu muito os passos de compositores como Stockhausen, entre outros. A minha estética se afinou mais com a impactante música do Pink Floyd. Aliás, quando apresentei na década de 1980, no Hayden Planetarium, em Nova York, minha ópera planetária “Music in space”, que sucedeu as apresentações de Pink Floyd no mesmo lugar, eles gentilmente nos emprestaram seu equipamento de difusão de som e laser. Mas eu diria que o Kraftwerk também se afastou um tanto do convencional e trouxe algumas inovações.

    Você está há várias décadas atuando em territórios artísticos que no Brasil tem pouco reconhecimento, da eletrônica de vanguarda à ópera. Quais são os desafios para trabalhar com isso no país?

    JOCY DE OLIVEIRA Eu já me habituei e me tornei autossuficiente usando minha empresa produtora para fazer captação e produzir minhas óperas multimídias. Quando vou à Europa, principalmente à Alemanha, sou convidada ou recebo pedidos de trabalho. Aqui não espero por convite. Terminei em 2019 um filme de longa metragem, “Liquid Voices”, que recebeu 11 prêmios em diferentes países da Europa e também em Israel, Nova York e Santiago. O filme contou com os excepcionais cantores e atores Gabriela Geluda e Luciano Botelho. Ele é distribuído internacionalmente pela Naxos.

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