Um retrato de despedida e imortalidade em ‘Babenco’

Documentário é o representante brasileiro que vai tentar uma vaga de Melhor Filme Internacional no Oscar 2021. Ao ‘Nexo’, a diretora Bárbara Paz fala sobre a premiação e como foi filmar os últimos anos do marido

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    Temas

    “Babenco — Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” estreou na quinta-feira (26) em cinemas pelo Brasil. As salas seguem com lotações reduzidas e protocolos de segurança na pandemia de covid-19. O documentário acompanha os últimos anos de vida de Hector Babenco, cineasta argentino naturalizado brasileiro que morreu no dia 13 de julho de 2016 aos 70 anos depois de enfrentar por mais de 30 anos um câncer linfático.

    O filme é dirigido por Bárbara Paz, cineasta, atriz e esposa de Babenco, e fez sua estreia no Festival de Veneza em 2019, no qual ganhou dois prêmios: da crítica independente e de melhor documentário sobre cinema na mostra Venice Classics.

    Em 18 de novembro de 2020, o trabalho foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2021. Para despontar na lista final, ele precisa ser indicado por comitês da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, organização americana que concede as estatuetas do Oscar.

    Em 2020, 93 países concorreram a uma vaga nesta etapa, na qual são selecionados cinco títulos. O Brasil não faz parte da lista final desde 1999, quando “Central do Brasil” foi indicado (e perdeu para o italiano “A vida é bela”). Em 2021, o anúncio dos indicados está previsto para 15 de março, e a cerimônia acontecerá em 25 de abril.

    É a primeira vez que o Brasil seleciona um documentário para tentar a vaga — no passado, documentários brasileiros como “Democracia em vertigem” (2019) e “O sal da terra” (2014) foram indicados à categoria específica do Oscar para esse tipo de produção. Na história da premiação, apenas três documentários ficaram entre os cinco indicados a Melhor Filme Internacional, mas não venceram.

    São eles: o israelense “Valsa com Bashir” (2008), o cambojano “A imagem que falta” (2013) e o macedônio “Honeyland” (2019), que compartilham a política como tema frontal. Ao Nexo, Bárbara Paz diz que a cultura em nosso país está sendo bombardeada “como se não tivesse relevância”. Por isso, ela considera que “fazer um filme sobre cinema é um ato político”.

    A diretora diz que o filme é uma carta de amor para um grande homem e cineasta. Ao longo de mais de 40 anos de carreira, Babenco dirigiu 13 títulos, entre ficções e documentários. Entre os sucessos está “O beijo da mulher-aranha” (1985), que acompanha as conversas de um homem gay e um prisioneiro político que dividem uma mesma cela na prisão.

    No Brasil, dirigiu “Carandiru” (2003) sobre o massacre na casa de 111 detentos em 1992 na penitenciária que dá nome ao título, e “Pixote, a lei do mais fraco” (1980), que retratou a vida de crianças abandonadas que viviam nas ruas de São Paulo. Os três filmes despontaram em prêmios como o Oscar, o Festival de Cannes e o Globo de Ouro, respectivamente.

    Nesta entrevista ao Nexo dada na quarta-feira (25), Bárbara Paz comenta o documentário e a carreira do cineasta e marido.

    “Babenco” é o primeiro documentário que é candidato do Brasil a uma vaga no Oscar de melhor filme internacional. Como avalia a escolha?

    BÁRBARA PAZ O streaming ajudou a trazer o [gênero] documentário para perto do público, que antes não conhecia tanto. O documentário era distante porque só se via em festiva, mesmo em cinemas se passava muito pouco. Hoje, ele está com uma janela grande. As pessoas estão querendo ver documentários. Elas estão cada vez mais voltando para o ser humano. Sou otimista: acho que de tanta guerra e ficcionalização da realidade, as pessoas estão procurando voltar para a essência. E o filme é sobre a essência de um ser humano, sobre o retrato de um homem que se despediu da vida. Porque a vida é uma só, um instante. Eu tenho a sensação de que as pessoas estão com sede de vida real.

    Hector Babenco era um argentino que vivia no Brasil, e trabalhou em filmes nos EUA. De que forma o pertencimento a um lugar, ou a falta dele, aparece nas obras dele?

    BÁRBARA PAZ O Hector era um homem que não tinha raiz. Ele pertencia ao mundo, mas era brasileiro acima de tudo. Ficou aqui 42 anos. Apesar de nascer argentino, ele se naturalizou brasileiro para poder fazer os filmes. Todos os filmes dele são filmes-denúncia, sobre uma sociedade à margem, como “Lúcio Flávio”.

    Filmes que mostram uma sociedade que talvez poucos cineastas mostraram. Como o “Pixote”, que é um filme ficcional, mas ele registrou o momento de um menino com tanta realidade que você vai falar que aquilo é ficção [Fernando Ramos da Silva, ator que interpretou o protagonista do filme, morreu assassinado pela polícia sete anos depois do filme]? Ele marcou história no mundo levando esse cinema-denúncia.

    Então, como eu vejo? Eu vejo justiça. Porque o Hector sempre quis ser considerado um brasileiro, e nunca foi considerado. Então, acho justo e emocionante isso [a escolha a uma vaga no Oscar], porque, até que enfim, foi considerado um brasileiro.

    O último filme dirigido pelo Babenco foi a ficção “Meu amigo hindu”, que era uma autobiografia não declarada de um diretor que lutava contra o câncer. Agora, em “Babenco” estamos no mesmo universo, só que pelo filtro do documentário e de olhos de outra pessoa. Como vê os dois processos?

    BÁRBARA PAZ O documentário chegou antes do “Meu amigo Hindu”. Estávamos gravando e o câncer dele voltou. Ele ficou com a urgência de fazer um último filme porque achou que não ia dar mais tempo. E ele disse: “eu preciso que você [Bárbara Paz] capte com a sua câmera para o seu documentário. Não queria que você parasse.”

    É um filme que talvez tenha mais relevância [no futuro] do que tem hoje porque o Hector partiu de verdade. Realmente foi o último filme dele, realmente aquela cena em que eu danço é a última cena de cinema dele. Tanto que ele me colocou dentro da câmera no final [da cena]. Era para eu abraçar a câmera. Agora, estou passando para o lado de lá [de diretora].

    Então, foi uma coisa só, não foi separado. O meu documentário é o meu olhar sobre esse homem. O “Meu amigo Hindu” é essa transposição de estar dirigindo a própria morte. É o olhar dele sobre essa passagem final na vida dele, que ele ficcionalizou algumas coisas. Por isso ele dizia que era uma autobiografia não autorizada, porque quando uma história passa para ficção já não é mais biográfico. Ele dizia isso: “Posso contar da forma que eu quiser”.

    Como é pensar o tema da mortalidade no contexto do cinema?

    BÁRBARA PAZ O cinema é imortal e o meu papel no filme também é de filmar para torná-lo imortal. Talvez só o cinema poderia imortalizá-lo porque ele não queria morrer jamais. Tanto que o título do filme “Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou" é uma frase dele no filme. Ele fala: “quando eu morrer, o médico vai ouvir o coração e dizer: parou”. Daí, ele continua: “mas o coração não quer parar, quer continuar”.

    Na vida de verdade, no dia em que partiu, ele teve quatro paradas cardíacas. Aconteceu exatamente isso: ele sabia como ia. Então, para mim, é um filme-vida, porque é como se eu estivesse registrado essa imortalidade dele e desse lugar. É uma mistura de vida, obra e despedida. Só que sem ser uma despedida porque o cinema, a imagem e o belo estão em todos os lugares.

    Como a sra. vê a situação atual da Cinemateca, onde Babenco foi velado e tem parte de seus filmes em acervo?

    BÁRBARA PAZ O Hector foi velado lá, a pedido dele, um dia antes, para mim. É muito triste o que está acontecendo porque é a memória do Brasil, não só do cinema. E as pessoas estão queimando, deixando pegar fogo por causa de política. Sou otimista sempre: as coisas podem mudar amanhã. Mas está todo mundo com muito medo.

    O acervo é gigante, não só de cinema como de televisão. E estamos de mãos atadas, porque os próprios funcionários foram retirados lá de dentro. Então só posso dizer que é uma tristeza, e sonhamos e rezamos para que a gente acorde outro dia com isso mudado.

    “Babenco” é um filme de amor ao cinema. E o cinema, principalmente no nosso país, está sendo bombardeado como se não tivesse significado, como se a cultura do nosso país não tivesse relevância. E a cultura de um país é o que forma o ser humano, o cidadão. Então, fazer um filme sobre cinema é um ato político.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.