‘A contribuição negra é o pilar principal da cultura do país’

Estrela do longa ‘Casa de antiguidades’, Antonio Pitanga fala ao ‘Nexo’ sobre a importância de a arte ser incômoda e a gestão da área cultural sob Bolsonaro

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Com uma carreira que começou em 1960 e conta com mais de 120 participações em filmes e novelas, Antonio Pitanga protagoniza em 2020 o longa “Casa de antiguidades”. Selecionado para Festival de Cannes — que não ocorreu esse ano devido a pandemia de coronavírus —, o filme estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra.

Na trama, Cristovam, interpretado por Pitanga, é um vaqueiro nordestino que se muda para o sul do país em busca de trabalho. A vila foi colonizada por imigrantes austríacos e sua população predominantemente branca carrega valores racistas, que despontam em atos de violência contra o protagonista e outros negros.

Segundo João Paulo Miranda Maria, diretor estreante de “Casa de antiguidades”, o filme não fala somente de racismo, mas aborda preconceitos e conservadorismos de forma mais ampla. As tensões raciais, no entanto, são frontais no filme, com personagens que discriminam e maltratam o protagonista pela cor de pele.

Os cargos de poder também ficam restritos a coadjuvantes brancos, a qual os negros se submetem. A atuação de Pitanga dá vida a um protagonista silencioso, que embarca numa reclusão ainda mais profunda conforme se encontra sozinho na nova cidade.

Ao Nexo, Pitanga fala que encarna “tantas e tantos outros Cristovam que precisam de um lugar ao sol”. Segundo ele, seu personagem “traz no seu rosto tantas lutas, no seu corpo tantas dores e na sua voz tantos gritos” — muitos dos quais continuam não sendo ouvidos por grande parte da população.

Nascido em 1939 como Antônio Luiz Sampaio, o ator cresceu em uma família pobre em Salvador, onde considera que recebeu um “passaporte cidadão” no papel da cultura. Ele estudou arte dramática na Escola de Teatro da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

O sobrenome Pitanga veio de seu primeiro trabalho nos cinemas, no filme “Bahia de todos os santos” (1960), em que interpretou um personagem chamado Pitanga. Durante o Cinema Novo, movimento cinematográfico dos anos 1960 e 1970, o ator firmou seu nome trabalhando com cineastas como Glauber Rocha, em “Barravento”, 1962. Também contracenou em “O pagador de promessas” (1962), único filme brasileiro a levar o prêmio máximo do Festival de Cannes.

Durante a ditadura (1964 a 1985), Pitanga foi vocal contra a violência sofrida pela classe artística e trabalhadores do país. Quando se exilou, por dois anos, percorreu a África numa viagem de um resgate de sua negritude.

Pai dos também atores Camila Pitanga e Rocco Pitanga, Antonio é casado com Benedita da Silva, deputada federal desde 2011 e candidata derrotada à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020 pelo PT. Não fosse a pandemia, o ator estaria rodando “Malês”, que assina como diretor. O filme conta a história do levante de negros muçulmanos escravizados em Salvador, em 1835, contido pelas forças do Brasil Regência. Pitanga conversou com o Nexo na quarta-feira (18).

O sr. participou de alguns dos principais movimentos cinematográficos do país, como Cinema Novo e o Cinema Marginal. Quais são as semelhanças políticas e raciais entre o que se fazia naquela época e o que se faz hoje?

ANTONIO PITANGA A beleza do cinema é você poder registrar décadas. O que eu vivi na década de 1950, 1960, 1970, com filmes incríveis trazem as mesmas lutas [de hoje], só mudam os personagens. Naquela época, também reivindicávamos direitos melhores para o trabalhador, contra o racismo, o preconceito, a invisibilidade, o feminicídio, a exploração do homem pelo homem.

Todo o processo de resistência à ditadura estava lá. E hoje ela aparece subliminarmente para outros personagens, outra juventude, outra maneira de traduzir e ir para o campo de luta, com outras ferramentas do mundo digital. O personagem que fiz em “Barravento”, de Glauber Rocha, ou em “A grande feira”, de Roberto Pires, é irmão de Cristovam de “Casa de antiguidades” nos problemas raciais.

A negra Anastácia [que foi amordaçada por resistir aos apelos sexuais de seu senhor] é o Cristovam do filme do João Paulo Miranda Maria. Ele grita e as pessoas não ouvem o seu grito. Ele é chicoteado há décadas em sua caminhada, e as pessoas não sentem a dor que ele sente. Hoje, não tem mais o chicote, mas tem a caneta, que é a mesma coisa. E as pessoas também não sentem a dor da caneta.

Quando olho para esse personagem, ele é centenas de trabalhadores e nordestinos desse país afora, que estão desempregados e não são percebidos. Sou baiano, 85% da população baiana é negra, e quantos estão no poder? Quantos vereadores, deputados, prefeitos? Nunca teve prefeito negro em Salvador. Todos lá somos Cristovam.

Alguns de seus principais parceiros no cinema foram cineastas brancos, como Cacá Diegues e Glauber Rocha; João Paulo Miranda Maria, de ‘Casa de antiguidades’, também. Qual o papel de pessoas brancas na representação de corpos negros na arte?

ANTONIO PITANGA Esses brancos têm uma leitura daquela luta, de um componente que faz parte da minha luta. Não posso falar que a luta que eu travo tem que ter necessariamente a pele negra. O entendimento, para mim, passa pelo momento em que você se alinha a essa perplexidade dos acontecimentos, e passa a fazer a parte desse corpo, desse exército, desse movimento.

Então, se você for ver os primeiros filmes do Cacá Diegues: “Cinco vezes favela” e “Ganga Zumba”, que é a primeira vez que se fala de um herói de Palmares. Ele não nos via como ator que está protagonizando um filme deles, como um personagem que estava ali como biombo. Não, ali sou eu. Não é a brancura do Cacá Diegues que está impregnada em mim. E, sim, a negritude de meu povo que sou eu.

Quando ele [João Paulo Miranda Maria] me dá Cristovam, ele procura um personagem que possa gritar, mesmo que não seja ouvido e seja um grito surdo. Nenhum branco jamais gritaria como eu gritei no filme. Só um negro.

Parte da crítica viu em ‘Casa de antiguidades' um filme que denuncia o racismo, mas reforça estereótipos de negros animalizados e imagens de violência contra o corpo negro. O que o sr. acha disso?

ANTONIO PITANGA Não vi o filme ainda. Mas o que eu vivi, sei e entendo do filme, ele veio para incomodar. Não é um negro maquiado, a beleza do negro. Ele vai na barriga e nas vísceras desse povo brasileiro. Poderia dizer que foi um filme que eu fiz que mostra a nudez da raça negra, como ela está, como ela ainda se encontra em 2020. Ninguém quer ver as vísceras, só se fala do coração. O que incomoda é o lado perverso e desigual desse país. É o que você quer botar para debaixo do tapete.

É claro, o cinema não é o dono da verdade. O cinema é a janela para que cada um possa traduzir, entender, e gostar ou não gostar. O próprio [escritor e jornalista] Nelson Rodrigues já dizia: toda unanimidade é burra. A democracia é isso. Você tem o direito de aceitar, e não aceitar. E eu quero fazer parte dessa grita do João Paulo Miranda Maria. E isso já me faz alguns anos, de tantos filmes, peças de teatro e novelas.

Durante a ditadura militar (1964 a 1985), o cinema passou por censura; na era Collor (1990 a 1992), sofreu um apagão. Há algo de diferente nos entraves atuais?

ANTONIO PITANGA Não, eles estão juntos. Ele [Bolsonaro] tem um projeto racista e elitista. O projeto dele é igual ao de Costa e Silva, de Geisel, de Médici [três dos militares que governaram durante a ditadura]. Ao de Collor, que atira na testa da cultura. A beleza da resistência dessa geração que surge a cada momento é um olhar desbravador.

Quando Collor fez o que fez, [anunciou-se] “a morte da cultura”. Não, descentralizou de tal forma, que o movimento [surgiu] tão forte, no Maranhão, no Pernambuco, em Alagoas, na Bahia, no Ceará, no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais. Você criou várias cabeças, seja na literatura, na poesia, nas artes plásticas, no cinema. Deu no que deu, e estamos fazendo o melhor cinema do mundo, com todas as dificuldades, já que a cultura não faz parte do projeto do [atual] governo. É um paradoxo.

Por que esse país não está aleijado e arqueado? É a cultura. E o pilar principal é essa cultura negra, afro-brasileira. Seja na dança, na culinária, na música, na alegria, na festa. Ela é negra. O branco racista, hoje, come a comida negra, ele dança a dança negra, ele canta o canto negro. É isso que mantém de pé esse país: a contribuição negra.

Como enxerga as ações da Fundação Palmares sob a gestão de Sérgio Camargo?

ANTONIO PITANGA É o cara que representa tantas e tantos negros que foram içados para ser um capataz. Nós fomos chicoteados por negros, mulatos, como o Luiz Gama falava, que aceitavam e entendiam ser convocados pelo senhor da Casa Grande — como esse cara [Sérgio Camargo, que] foi elevado e conduzido para lá. Esse cara acha que é loiro de olhos azuis e tem o poder.

Como tantas e tantos outros capatazes de centenas de anos da era da escravidão. Ele é o capataz do século 21. Ele não entendeu, ou não quer entender, ou pelo contrário, quer fazer parte de uma coisa da qual jamais será: branco. Ele é negro e, no caso dele, negro retinto. Então, a pobreza da alma pelo poder leva um cara desse a chicotear a sua própria raça.

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