A saúde mental na literatura de Linda Bostrom Knausgard

Escritora sueca estreia no Brasil com ‘A pequena outubrista’, baseado em memórias e experiências em uma clínica psiquiátrica

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    Logo nas primeiras páginas de “A pequena outubrista”, romance da escritora sueca Linda Bostrom Knausgard, o leitor é lançado para dentro do ambiente de uma clínica psiquiátrica, em que pacientes recebem eletrochoques e profissionais conduzem suas tarefas com frieza.

    É a “fábrica” na definição que a protagonista dá ao local. Conforme as páginas avançam, vamos conhecendo a história de uma mulher que luta para não perder suas memórias e sua conexão com o mundo.

    A história de “A pequena outubrista” é baseada ostensivamente na vida pessoal da autora, que ficou internada entre 2013 e 2017 para tratar de seu transtorno bipolar. Durante esse período, Linda foi submetida a inúmeras sessões de eletroconvulsoterapia.

    O livro é a primeira edição brasileira para obras da autora, que foi casada com o escritor norueguês Karl Ove Knausgard até 2016. O título faz referência a organização de crianças que era apresentada como modelo no regime comunista da União Soviética.

    A obra de Linda se encaixa na chamada autoficção, mistura de memórias pessoas e invenção que ganhou espaço na literatura nos anos 2010.

    Carreira interrompida

    Linda Bostrom Knausgard estreou na literatura em 1998 com um livro de poemas chamado “Gör mig behaglig för såret: dikter” (Me deixe agradável para a ferida, em tradução livre). Seu segundo livro só sairia 13 anos depois.

    Entre um lançamento e outro, muita coisa aconteceu. Em 1999, aos 26 anos, a autora foi diagnosticada com transtorno bipolar. Nos anos seguintes, ela se casou e teve três filhos, praticamente em anos consecutivos.

    Enquanto isso, seu marido, Karl Ove Knausgard, tornou-se um fenômeno literário com a série de livros autobiográficos chamada “Minha luta”. Ao longo dos seis volumes da obra (que, juntos, totalizam mais de 3.600 páginas), a intimidade do autor é oferecida ao leitor em detalhes minuciosos, das situações mais banais a pensamentos sombrios que poucos teriam coragem de contar a um amigo, quanto mais publicar em um livro.

    Linda aparece bastante nas páginas de “Minha luta” e, muitas vezes, de maneira desfavorável. “Ela sempre queria outra coisa, nunca fazia nada para melhorar as coisas, apenas resmungava, resmungava, resmungava”, escreveu o autor. Em 2011, Linda teve um colapso nervoso, evento registrado pelo marido no último volume de sua série.

    A autora retomou a própria carreira com “Grand Mal”, uma coletânea de contos. Seus livros seguintes, “The Helios Disaster” e “Welcome to America” (que deve sair no Brasil em 2021), ganharam edições em inglês. Com boa repercussão entre a crítica anglo-americana, as obras começaram a projetar a autora internacionalmente. Em 2016, dois anos depois de ter um quarto filho, Linda e Karl Ove se separaram.

    Linda evita atualmente falar sobre sua vida pessoal. Como já afirmou à imprensa, busca ser reconhecida pelo que escreve, distanciando-se da associação com o ex-marido.

    Em entrevistas anteriores, a escritora chegou a conceder impressões sobre a maneira como foi retratada por Karl Ove. “Só penso se ele talvez não seja um desses escritores masculinos que realmente não conseguem escrever sobre mulheres”, declarou a autora ao jornal britânico The Guardian em maio de 2020. A seguir, leia a entrevista concedida ao Nexo.

    O quanto ‘A pequena outubrista’ foi baseado em suas experiências pessoais?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD De certa forma, muito. O apartamento, por exemplo, e minha mãe, que também era atriz, a irmãzinha, a preocupação da protagonistas com sua mãe, ela querendo estar perto dela, o teatro. Mas isso dá para falar sobre quase todos os meus livros.

    Você tinha desde o início uma ideia clara da forma que ‘A pequena outubrista’ tomaria?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Não, de jeito nenhum, mas eu sabia que o romance se aproximaria de algumas coisas, como o tratamento eletroconvulsivo, o que ele realmente é, como funciona e a que pode levar. Alguns diálogos eu também já tinha na minha cabeça. Claro, eu conhecia as instalações, a enfermaria. Foi a pesquisa que fiz quando comecei a escrever.

    A história de ‘A pequena outubrista’ se passa na Suécia e retrata muitos aspectos específicos da vida local. O que você vê como elementos universais na sua história?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Eu diria que a situação de “autoridades versus ser humano”. Também inventei uma protagonista que está enlouquecida no começo e na enfermaria ela começa a observar e pensar.

    Sua prosa é muito simples e precisa. Como foi o seu desenvolvimento?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Eu entendi que é assim que escrevo. Eu diria que este livro evoluiu de maneira um pouco mais desregrada. Prefiro escrever esse tipo de linguagem, em que deixo o leitor descobrir as coisas. Estou interessada, porém, em um realismo mais enxuto. Vamos ver o que acontece.

    Como o processo criativo para este trabalho se compara ao de seus outros romances?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Novamente, este é um livro um pouco mais sem amarras. Talvez eu diria que uso essa linguagem um pouco mais desregrada quando sinto que é necessário. Diria que meus outros livros são muito diferentes. Em minha coleção de contos “Grand Mal”, usei muitos modos de escrita diferentes, mas quando você lê talvez consiga dizer que é a mesma voz em todos os contos diferentes. Escrevi meu primeiro romance, “The Helios Disaster”, como uma espécie de realismo em associação com o conto da deusa Atena. Ela começa a viver sua vida nesse local no norte da Suécia, com neve e uma nova família que cuida dela. No entanto, ela só consegue pensar no pai que desapareceu. O romance “Welcome to America” tem outro toque. A protagonista tenta cuidar de sua família sem falar. Todos foram escritos em prosa esparsa, mas também muito diferentes entre si.

    A saúde mental costuma ser uma questão delicada e complexa de abordar. Quais foram suas preocupações ao tratar do assunto?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Não tive preocupações no início. Você tem que se sentir livre quando está escrevendo. Eu tinha muito conhecimento sobre doenças mentais em minha própria vida e também na dos meus pais. No final, quando você fecha o material, pode contar mais.

    Você concorda que a história é também sobre a busca pela identidade, com a protagonista tentando não perder memórias importantes? O que esse processo significa para o personagem principal?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Ele é crucial. Mas ela tem, do outro lado, esses médicos, tão dispostos a fazê-la passar pela máquina [de eletroconvulsoterapia]. É uma situação infernal quando pessoas que não sabem muito dizem que isso é bom para você. Apesar da perda de memória que é um efeito colateral certo.

    O tratamento com eletrochoque parece ser bastante comum na Suécia, apesar de ser muito controverso entre os especialistas. Em ‘A pequena outubrista’ você oferece o ponto de vista do paciente. Você acha que deveria haver um debate mais amplo sobre esse tipo de procedimento?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD A Suécia é o país do mundo que mais usa esse tratamento, se você considerar a quantidade de pessoas que já o fez per capita. Por quê? Esse é o meu questionamento. É estranho isso não ser tema de debate, estranho, mas ninguém quer falar sobre isso na área psiquiátrica.

    Nos últimos anos, tem havido uma demanda por maior reconhecimento e representação de histórias de mulheres na literatura. Como você vê esse movimento?

    LINDA BOSTRÖM KNAUSGÅRD Há muitas mulheres escrevendo hoje e escrevendo muito bem. Há uma certa alegria nisso. Experiências femininas e linguagem feminina.

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