O documentário que retrata a cidade mais conservadora dos EUA

Diretora Fernanda Pessoa fala ao ‘Nexo’ sobre ‘Zona árida’, filmado quando Trump foi eleito e lançado quando o presidente americano tenta a reeleição

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    Quando a documentarista brasileira Fernanda Pessoa esteve na cidade de Mesa, no deserto do Arizona, pela última vez, em setembro de 2016, ela saiu com a certeza de que Donald Trump seria eleito presidente dos EUA. A previsão soava estranha na época — pois contrariava todas as pesquisas e prognósticos disponíveis até então —, mas se mostrou acertada dois meses depois.

    A certeza de Pessoa vinha do fato de ela conhecer o perfil do eleitor do meio-oeste americano, que se mostrou decisivo naquela disputa. Ainda adolescente, a brasileira tinha feito intercâmbio em Mesa, e retornava ao local 15 anos depois para gravar um documentário chamado “Zona árida”, no qual conta sua experiência na “cidade mais conservadora dos EUA”, de acordo com um estudo conjunto do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em português) e da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles, em português) publicado em 2014.

    O documentário gravado em 2016 sobre a experiência dela como estudante brasileira em Mesa em 2001 foi lançado no dia 8 de outubro, pouco menos de um mês antes de Trump tentar nas urnas, a conquista de um novo mandato, contra o rival democrata Joe Biden.

    É nesse momento — de confirmação ou retificação do caminho americano em direção à extrema direita — que Pessoa falou ao Nexo sobre seu documentário, premiado no festival de Leipzig, na Alemanha, e disponível nas plataformas NET, Vivo e Oi no Brasil.

    A eleição de Donald Trump, em 2016, marcou um ponto alto do conservadorismo americano. Nesse trabalho, você esteve imersa em Mesa, a cidade que foi considerada a mais conservadora dos EUA. De que maneira os sinais dessa ascensão conservadora eram perceptíveis nesse microcosmo?

    Fernanda Pessoa Morei em Mesa em 2001 e depois estive lá durante um mês filmando em setembro de 2016, dois meses antes da eleição de Trump. O clima nessa segunda estadia era de clara vitória do Trump — eu e a equipe saímos de lá convencidos de que ele seria eleito, apesar de todas as pesquisas indicarem o contrário.

    Naquele momento, havia na cidade um sentimento anti-Obama muito forte, e o movimento da maioria dos moradores de Mesa que aparecem no filme era de aceitar que Ted Cruz não seria o candidato republicano (ele era considerado o verdadeiro candidato conservador) e se convencer de que Trump era republicano o suficiente. Hoje, o que vejo nas redes sociais deles é que estão satisfeitos com o governo Trump. Por isso, sou um pouco pessimista em relação à eleição que se aproxima. Realizei as filmagens logo antes da eleição e agora lanço o filme logo antes de uma possível reeleição.

    No dia a dia de Mesa, o conservadorismo é evidente em diversas esferas, das mais banais às mais concretas. Um aspecto importante no que é considerado conservadorismo nos EUA é a questão fiscal. A maioria da população é contra impostos sobre receita e propriedade, e grande parte da renda da cidade vem do imposto sobre consumo, uma das bandeiras do conservadorismo fiscal.

    Há também um aspecto moral muito forte. O sonho de construir a “família tradicional”, com filhos e uma esposa dona de casa, o apego ao direito de possuir armas, a tentativa de conservar valores e tradições. Além disso, 15% da população de Mesa faz parte da religião mórmon, sendo a quinta maior população mórmon dos EUA, e as igrejas (de diversas religiões) permeiam a cidade.

    Outra questão importante é a relação com o “outro”, o que vem de fora. Mesa era uma pequena cidade fundada por mórmons em 1878, em um lugar isolado no meio do deserto, justamente para estar longe das influências exteriores. Desde que eu morei lá, em 2001, a população de Mesa de [então] 150 mil habitantes triplicou de tamanho. Acredito que o conservadorismo e o populismo de direita está muito ligado a uma tentativa de proteger a “comunidade local”, mesmo que a noção dessa comunidade local muitas vezes exclua as populações originárias daquela região.

    Um dos maiores projetos de Trump foi a construção de um muro com o México. A cidade de Mesa está muito perto dessa fronteira. De que maneira esse assunto era percebido no ambiente?

    Fernanda Pessoa O Arizona foi o último estado com fronteira terrestre a ser incorporado pelos EUA e era território mexicano até o fim de guerra Mexicano-Americana em 1848. A influência e a presença mexicana é muito forte no estado inteiro, mas principalmente na região mais ao sul, onde fica Mesa.

    Ao redor de 30% da população oficial de Mesa é hispânica e ainda assim há uma xenofobia grande em relação a mexicanos e seus descendentes. Além disso, a fronteira do Arizona com o México é uma das mais utilizadas para a travessia ilegal, o que faz com que a região tenha muitos trabalhadores mexicanos sem documentos. Dessa forma, a mesma população que os exclui e discrimina, explora sua mão de obra barata e precarizada.

    A questão do muro foi um dos grandes apelos da campanha de Trump na região, prometendo uma solução falsa tanto para a questão da imigração quanto para a guerra às drogas. No entanto, é importante ressaltar que a cerca de metal entre EUA e México já existia, como mostro em “Zona árida”. Aquelas cercas — que ficam a mais ou menos 3 horas de distância de Mesa, em Nogales e Naco — foram construídas durante a Operação Safeguard a partir de 1994, na administração Bill Clinton, e foram expandidas a partir de 2010 pelo governo Obama. É surpreendente entender que existe uma Nogales do México e uma Nogales do Arizona, e que existem pessoas que vivem do lado mexicano, cruzam a fronteira para trabalhar nos EUA, e retornam ao fim do dia, não tendo acesso aos direitos de um cidadão americano. O que Trump prometia era uma maior militarização e reforço das fronteiras, além da proposta absurda de que o governo mexicano deveria pagar por isso. Um dos personagens do filme postou esses dias que está trabalhando diretamente na construção do muro e que se orgulha disso.

    No documentário, tentei expor essa questão nas próprias contradições dos personagens. Uma delas tem uma filha meio mexicana, mas se incomoda com mexicanos e palavras em espanhol na cidade. Outro é descendente de mexicanos, sabe que o Arizona era parte do México, mas reafirma o estereótipo de que as drogas vêm de lá e pensa que talvez o muro seja necessário.

    Um dos eixos do documentário é o fascínio que a cultura americana exerce nos brasileiros. O filme torna evidente o contraste entre a admiração dos brasileiros e um certo desprezo ou até temor que os americanos conservadores, como os habitantes de Mesa, têm pelos latino-americanos em geral. Como você percebe essa distância entre os dois modos de se ver, especialmente agora que temos um presidente que busca alinhamento total com os EUA?

    Fernanda Pessoa O colonialismo cultural é um tema chave do “Zona árida”. Por um lado, há no Brasil uma vontade de ser os Estados Unidos e uma crença de que aquele é o país colonizado que deu certo. Acredito que esse mito também está relacionado à influência do [escritor francês Alexis de] Tocqueville [1805-1859] na América Latina, no que muitos acreditam ser um modelo ideal de democracia, e que na realidade não passa de um modelo de democracia liberal que esconde diversas desigualdades e injustiças sociais. Esse desejo de ser EUA passa tanto pela elite econômica, que almeja uma economia mais liberal, quanto pela população em geral, que deseja viver o estilo de vida americano de acordo com uma imagem idealizada, reforçada pelos filmes hegemônicos estadunidenses que alcançam enormes bilheteria por aqui.

    Por outro lado, falta a percepção de que os EUA só são a maior potência do mundo porque subjugam política e economicamente a América Latina e outras regiões do mundo. Ao menor sinal de tentativa de soberania nacional ou desalinhamento, eles não hesitam em intervir. Nosso desejo de ser Estados Unidos e estar alinhados a eles ao mesmo tempo reforça o poder daquele país e nos mantêm dominados por eles, nunca sendo capazes de alcançar soberania ou maior unidade entre países da América Latina.

    O filme “Bacurau” mostra muito bem essa distância. Os personagens do Sudeste se sentem mais próximos dos vilões estadunidenses do que de seus concidadãos do Nordeste. O resultado disso é que são mortos com desprezo por não serem considerados brancos. Essa repulsa dos americanos conservadores ao “outro” também é muito presente no cinema hollywoodiano. A nossa dificuldade é entender que o outro somos nós, e foi essa lição que aprendi ao viver lá aos 15 anos.

    O documentário estreia num momento em que o cinema nacional passa por retração, tanto por razões políticas quanto pela pandemia. Como é fazer um trabalho documental de caráter político no atual contexto?

    Fernanda Pessoa Sempre foi difícil no Brasil ser cineasta independente, realizar filmes de baixo orçamento e sem grandes pretensões comerciais. No entanto, nos últimos anos, com os governos Lula e Dilma [2003 a 2016], houve um fortalecimento muito importante da produção nacional. Diversos editais e incentivos foram criados, possibilitando uma produção grande de filmes, com reconhecimento de importantes festivais internacionais. A partir do governo [Michel] Temer [2016 a 2019], a situação começa a piorar, e se agrava profundamente com a eleição de Bolsonaro.

    O fim do Ministério da Cultura, a escolha de personagens sem experiência e com ideias doutrinadoras para a Secretaria de Cultura, agora subordinada ao Ministério do Turismo, fez com que a situação da produção cultural no geral fosse muito prejudicada. No caso do cinema, parece haver um plano de destruição completa, não apenas da nova produção (marcado pelas paralisações e desmontes da Ancine), mas também da nossa história e memória (marcado pelo agravamento da crise da Cinemateca, a demissão de seus funcionários e a tentativa de transferir sua sede para Brasília).

    “Zona árida” foi realizado com um edital da Ancine logo antes do começo do governo Bolsonaro. Por muito tempo tivemos medo de que o dinheiro não saísse e, de fato, muitas pessoas que estavam contando com esses incentivos acabaram não recebendo. Como cinema é algo que demora para ser finalizado e lançado, ainda não vemos o resultado desse desmonte do cinema. Alguns filmes ainda estão sendo lançados em festivais ou comercialmente, porque foram realizados com incentivos antes do governo Bolsonaro. Em uns dois anos veremos o resultado do deserto cultural no qual o governo federal nos colocou.

    Da minha parte, tenho pensado em formas viáveis de continuar produzindo, com menos dinheiro e mais agilidade. Estou finalizando um curta-metragem experimental que será lançado em festivais em novembro e finalizando outro curta para o começo do ano que vem. Precisamos encontrar formas criativas e possíveis de continuar produzindo, ao mesmo tempo em que lutamos contra o desmonte da cultura e o governo Bolsonaro.

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