Como a desinformação marcou a internação de Trump por covid-19

Neil Winawer, da Faculdade de Medicina da Universidade Emory, de Atlanta, fala ao ‘Nexo’ sobre os erros e vaivéns da equipe médica que atendeu o presidente americano

    O clima de desinformação marcou a internação de Donald Trump no hospital militar Walter Reed. O presidente americano deu entrada na unidade dos arredores de Washington no sábado (3) e deixou o local na segunda-feira (5).

    Ao lidar com a imprensa durante esse período, Sean Conley, médico pessoal Trump, esquivou-se de perguntas feitas pelos repórteres, foi evasivo em várias respostas e repassou informações que se comprovaram falsas.

    Primeiro negou que Trump tivesse recebido oxigênio suplementar, para, em seguida, voltar atrás. O médico também disse que a infecção havia sido detectada muito antes do que de fato foi. Confrontado, respondeu assim:

    “Eu não queria dar nenhuma informação que pudesse mudar o curso da doença em outra direção e, ao fazer isso, parecer que estávamos tentando esconder algo, o que não era necessariamente verdade”

    Sean Conley

    médico pessoal do presidente americano, Donald Trump, em declaração à imprensa, no dia 4 de outubro de 2020

    O episódio aumentou o clima de desconfiança entre a Casa Branca e imprensa nos EUA. Mike Meadows, chefe de gabinete da presidência, também aumentou a confusão ao difundir informações sensíveis sobre o estado de saúde de Trump, contradizendo o que dizia a junta médica.

    Enquanto o doutor Conley, diante dos microfones, tentava minimizar a gravidade do caso, Meadows afirmava o contrário nos bastidores, ao dizer que as primeiras 24 horas da infeção tinham sido difíceis e as próximas 48 horas do presidente seriam cruciais.

    O assessor da Casa Branca pediu que os repórteres mantivessem sua identidade em segredo, mas ela foi revelada pelos jornalistas que cobrem o presidente. A revelação da identidade da fonte foi o último recurso encontrado pela imprensa americana para confrontar as fontes oficiais que insistiam em difundir informações contraditórias.

    A internação reproduz o clima que já vinha dominando a campanha eleitoral na qual o presidente é candidato à reeleição, na disputa contra o democrata Joe Biden, marcada para 3 de novembro. Trump aparece oito pontos percentuais atrás do rival nas principais pesquisas nacionais, e o efeito de uma internação pela covid-19 no eleitorado republicano e indeciso ainda é incerto.

    Em entrevista ao Nexo por telefone, na segunda-feira (5), o professor Neil Winawer, da Faculdade de Medicina da Universidade Emory, de Atlanta, disse que os médicos do presidente americano tiveram de se equilibrar entre a preservação dos dados do paciente e a necessidade de transparência na gestão de informações de interesse público.

    Além disso, afirmou Winawer, esses profissionais de saúde trabalham para um governo que vive em guerra com a ciência, minimizando de forma irresponsável o risco da pandemia que, até segunda-feira (5), tinha matado mais de 200 mil pessoas, só nos EUA.

    Como os médicos de Trump deveriam se equilibrar entre a proteção de dados pessoais do paciente e a necessidade de transparência que o cargo de presidente dos EUA exige?

    Neil Winawer Em 1996, os EUA adotaram a HIPAA (ato sobre a portabilidade e a prestação de dados de saúde, na sigla em inglês) que, essencialmente, estabelece os padrões do que pode e do que não pode ser divulgado sobre o estado de saúde de um paciente. Se o presidente não quer que as informações sobre sua saúde sejam publicadas, os médicos não podem divulgá-la. É ele quem decide o quanto pode ser dito. Porém, no caso do presidente, por outro lado, o público de fato precisa ter certeza de que a pessoa que está conduzindo o país está em condições de fazê-lo. Essa é uma questão de segurança nacional.

    O público tem o direito ou deveria ter o direito de acessar toda informação que venha da junta médica, de forma acurada. Mas, como eu disse, o presidente, assim como qualquer outro paciente nos EUA, tem a palavra final em relação à própria saúde.

    Do ponto de vista dos médicos, a única certeza que eles precisam ter é a de que toda informação que o paciente queira ver difundida seja difundida de forma precisa, de maneira correta, sem erros. E não foi isso que nós vimos acontecer.

    No sábado (3), quando os médicos vieram falar e responder perguntas pela primeira vez, eles deram um retrato muito, muito confuso sobre o que de fato estava acontecendo. Eles foram contraditórios – primeiro disseram que não havia administração de oxigênio, depois voltaram atrás. Foi difícil obter dali uma boa informação.

    No domingo (4), entretanto, eles voltaram e deram mais informações, de maneira mais precisa. Esclareceram a questão do oxigênio e explicaram qual foi o tratamento escolhido, mas, mesmo assim, não entraram em detalhes específicos; por exemplo, quando foram perguntados se o presidente teve um quadro de pneumonia.

    O sr. acredita que essa desinformação foi um ato deliberado dos médicos para dificultar o trabalho da imprensa?

    Neil Winawer Acho que não. Entretanto, eles tentaram controlar a mensagem difundida, isso é claro. Fizeram pronunciamentos iniciais estáticos, nos quais ocultaram informações e, em seguida, quando passaram a ser confrontados pelas perguntas, mostraram que não estavam preparados para responder com clareza. Talvez não estivessem preparados para responder de forma alguma, aliás.

    Tudo isso resultou numa dinâmica pouco clara e muito desinformativa. Era preciso tornar as coisas claras e foi por isso que repetiram a entrevista uma segunda vez. Ainda assim, depois de repetir a sessão, eles continuaram sendo criticados por outros médicos pelo seguinte: no sábado disseram que Trump não havia recebido oxigênio.

    No domingo (4), voltaram atrás nessa informação. A justificativa foi a seguinte: os médicos disseram que não queriam passar a impressão de que Trump não estava lidando bem com a doença. Todo médico sabe que seu trabalho é dar informação correta, seja essa informação boa ou má. Nesse aspecto, eles continuaram indo muito mal, mesmo depois de terem tentado se corrigir no dia seguinte.

    Entidades da classe médica podem punir essas pessoas nos EUA?

    Neil Winawer Não acho que chegue a isso porque eles repetiram a entrevista coletiva para aclarar as informações. A grande crítica da comunidade médica americana neste momento é de que a Casa Branca tenta controlar toda informação médica relevante sobre a pandemia. Eles fazem isso sem se aliar aos cientistas ou aos médicos. Eles contradizem as informações dos infectologistas, dos membros da força-tarefa da pandemia. Os cientistas querem passar informações corretas, mas o governo quer mexer nessa informação para não atrapalhar a economia e não assustar as pessoas, mesmo que isso contradiga a ciência. Sei que algo semelhante ocorre no Brasil.

    Os médicos ligados à presidência estão, então, sob grande pressão política para passar um tipo de informação que não atrapalhe os planos da Casa Branca. Eles tentam remodelar a informação para se encaixar [no que o presidente quer].

    Já no caso específico dos boletins médicos sobre o estado de saúde de Trump, não deve haver punições aos médicos, especialmente porque eles tomaram a iniciativa de corrigir os erros. Se continuassem a sustentar afirmações inverídicas, certamente enfrentariam punição impostas pelas próprias organizações de classe.

    Trump pode ser responsabilizado de alguma maneira por disseminar o vírus mesmo sabendo que estava contaminado, como quando fez um passeio de carro, com outras pessoas dentro, na porta do hospital em que estava internado?

    Neil Winawer Sequer está claro exatamente quando o presidente soube que estava contaminado. Eles falam na tarde de quinta-feira (1º) [o primeiro resultado saiu na quinta, mas o anúncio só foi feito na manhã seguinte, após novo exame para confirmar o diagnóstico].Uma de suas assessoras, Hope Hicks, estava doente no [avião presidencial] Air Force One. Ela estava em proximidade com ele [Trump]. Se ele seguisse as orientações do CDC [Centro para Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês], uma vez que ele soubesse que uma de suas assessoras testou positivo para o coronavírus, ele deveria ter entrado em quarentena. Mas, ao contrário, ele participou de um evento de arrecadação de fundos em Nova Jersey. É claro que Trump não poderia ter feito isso.

    Outra coisa: quando ele teve um teste positivo e foi hospitalizado, ele quis fazer uma demonstração de força a seu público, colocando membros do serviço secreto dentro do carro com ele, correndo risco de contaminação, mesmo usando máscaras [no domingo]. Eles estavam protegidos de alguma maneira, mas essa foi uma exposição desnecessária. Foi um teatro político. O presidente expôs os membros do serviço secreto por nenhuma outra razão que não fosse política.

    Se os médicos garantem que Trump está tão bem de saúde, porque ele toma coquetéis recomendados apenas a pacientes graves?

    Neil Winawer Ele toma três drogas. A primeira [regeneron] é um anticorpo monoclonal que sequer foi aprovado para uso geral. A segunda [remdesivir] é um antiviral dado apenas a pacientes hospitalizados, e pacientes só são hospitalizados quando têm dificuldade de respirar, quando têm pneumonia. Se Trump não fosse presidente, provavelmente não teria sequer sido hospitalizado. Se a informação dos médicos estiver correta, o oxigênio dele não baixou tanto assim, ele não precisava de oxigênio. Se ele não precisava de oxigênio, ele não precisava ser hospitalizado e, se ele não precisava ser hospitalizado, ele não precisava de remdesivir, que só é dado a pessoas com pneumonia, durante cinco dias.

    Mesmo tendo alta e voltando à Casa Branca, ele ainda vai precisar manter uma sonda no braço para receber esse medicamento por cinco dias, ao todo. É errado interromper esse tratamento. Ou você não começa a tomar remdesivir ou, se começa, precisa ir até o fim, precisa tomar durante os cinco dias.

    Mas o mais grave é a dexametasona. Esse é um esteroide que tem sido usado para salvar vidas de pacientes que estão numa situação muito difícil, na UTI. Não é para qualquer um diagnosticado com o vírus. O problema de dar esteróides a uma pessoa que não está nessas condições é que você debilita seu sistema imunológico, o que pode fazer com que o vírus se espalhe e cresça, ficando pior, em vez de melhorar.

    Isso tudo provavelmente é resultado do que chamamos de “medicina VIP” [sigla que, em português, significa pessoa muito importante]. Quando alguém famoso demais fica doente, os médicos tentam dar de tudo. São coisas que os médicos não fariam com uma pessoa normal. Eles jogam tudo para ver o que funciona. É um tratamento que pode fazer mais mal do que bem. No caso de Trump, especialmente os esteróides podem fazer muito mal.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto falava em 200 milhões de mortos pela covid-19 nos EUA. O número correto é 200 mil. A informação foi corrigida às 11h52 do dia 6 de outubro de 2020.

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: A primeira versão deste texto atribuía ao entrevistado a seguinte declaração: "Uma vez que ele [Trump] soube que estava contaminado, ele deveria ter entrado em quarentena. Em vez disso, ele participou de um evento de arrecadação de fundos em Nova Jersey. É claro que Trump não poderia ter feito isso." A transcrição completa e fidedigna do trecho, entretanto é: "Uma de suas assessoras, Hope Hicks, estava doente no [avião presidencial] Air Force One. Ela estava em proximidade com ele [Trump]. Se ele seguisse as orientações do CDC [Centro para Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês], uma vez que ele soubesse que uma de suas assessoras testou positivo para o coronavírus, ele deveria ter entrado em quarantena. Mas, ao contrário, ele participou de um evento de arrecadação de fundos em Nova Jersey. É claro que Trump não poderia ter feito isso."

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.