Quando o otimismo na pandemia é negação e conformismo

Para a psicanalista Vera Iaconelli, avaliação crescente por parte da população de que a situação da covid-19 está melhorando no Brasil é reflexo do nosso individualismo

Uma pesquisa Datafolha publicada na terça-feira (18) mostrou um aumento no nível de otimismo entre os brasileiros com relação à pandemia do novo coronavírus. Cerca de 46% dos entrevistados afirmou que a situação da doença está melhorando no Brasil, em comparação com 43% que responderam que ela está piorando.

A pesquisa foi realizada entre 11 e 12 de agosto, poucos dias depois de o país ter superado a marca dos 100 mil mortos pela covid-19, com uma média diária de óbitos em torno de 1.000. Quando a mesma pergunta foi feita pelo Datafolha em 23 e 24 de junho, logo após a marca de 50 mil mortes ter sido atingida, o pessimismo ganhou com folga: 65% escolheram a opção “está piorando” contra 28% que apostaram em uma melhora. De acordo com o levantamento divulgado na terça-feira, o otimismo é maior entre homens e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Nos Estados Unidos, país com maior número de casos e mortes do mundo, uma tendência parecida foi verificada, embora ali a população ainda seja mais pessimista do que otimista com relação à pandemia. Entrevistas realizadas entre 3 e 9 de agosto de 2020 mostraram que 60% dos americanos acreditam que a situação da covid-19 está piorando. Em meados de julho, esse índice era de 73%. Na outra ponta, os que acreditam em uma melhora aumentaram de 15% para 22% no mesmo período.

No Brasil, o governo Bolsonaro busca propagar mensagens otimistas com relação à covid-19, preferindo falar em exagero e “histeria” em vez de enfatizar a gravidade da situação. Em diversas ocasiões, o presidente reagiu com indiferença às mortes causadas pela doença.

No fim de maio, a Secretaria de Comunicação do governo passou a focar em “dados positivos”, como estatísticas sobre pessoas que haviam se recuperado da covid-19, em vez de contagens de mortos. Uma pesquisa realizada pelo Insper, em abril, mostrou que as pessoas tendiam a se expor mais à infecção depois de ouvir uma mensagem positiva sobre a pandemia.

Otimismo e negação

O Nexo conversou com Vera Iaconelli, psicanalista, mestra e doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, para entender o que pode motivar o otimismo em meio à adversidade e se há relação entre esse sentimento e a empatia.

Como a psicologia explica o sentimento de otimismo?

VERA IACONELLI A psicologia não conceitua exatamente o otimismo, mas sim a forma como os sujeitos lidam com o imponderável, que pode ser uma reação da mais pessimista à mais otimista. Nenhuma das duas está coberta de razão. Então são apostas que o sujeito faz a partir de experiências anteriores dele, não só do que aconteceu recentemente, mas ao longo de toda a vida e, principalmente, na infância. Mesmo que a gente saiba que os indícios disponíveis não são muito bons, é preciso um pouco de abstração para enfrentar a vida.

O que explica o aumento do otimismo sobre a pandemia mesmo diante do crescimento do número de mortes?

VERA IACONELLI O que dá para perceber é que as pessoas não estão mais aguentando ficar no isolamento, mesmo porque o propósito do isolamento implicava uma tarefa social, grupal, uma espécie de ciranda, que só funciona se todo mundo der a mão. Na medida em que alguns vão saindo e você vai ficando sozinho, não tem mais ciranda. Então, talvez o que tenha faltado é uma crença na possibilidade de contar com o outro e aí volta para o “cada um por si”.

A ideia de otimismo implica no fato de que a curva alcançou seu ápice, mas parece ignorar que a descida implica em milhares de mortes. Há uma negação desse fato e uma dificuldade de pagar o preço por se abster da vida pública em nome das mortes que virão. Pode ser pensado como conformismo: já que muitos morrerão mesmo, não vou fazer nada. As pessoas não se implicam no que está por vir.

Quando o otimismo deixa de ser saudável para se tornar tóxico?

VERA IACONELLI Quando é otimismo sem nenhuma base, sem nenhuma referência. Podemos ser otimistas com relação a coisas que podemos fazer de modo diferente, das quais temos algum indício. Quando esse otimismo se torna uma experiência totalmente irreal, estamos na ordem do delírio, da negação, da impossibilidade de ler os sinais dos acontecimentos, da falta de crítica. Isso é muito preocupante, pessoalmente e socialmente.

Se tantos acreditam que a situação da pandemia está melhorando enquanto milhares continuam morrendo, isso pode denotar uma crise de empatia na sociedade?

VERA IACONELLI Não passamos no teste do pensamento pelo bem comum, da ideia de se privar em nome do outro. Porque embora nós tenhamos começado o isolamento com certo sentido cívico, ele não foi suficientemente bem feito por razões que dizem respeito também ao governo, que foi totalmente na contramão do que era esperado cientificamente. Ele foi minando as forças de quem tinha que abrir mão de algo. Mas, como sociedade, demonstramos mais uma vez uma certa dificuldade em pensar no outro, em se pensar como um país, como um coletivo. Continuamos sendo um país no qual o individualismo é uma marca central, com a questão do levar vantagem.

A empatia pode ser estimulada nas pessoas? De que modo?

VERA IACONELLI Empatia se aprende, ela é fruto da relação empática que temos com uma criança e que cobramos dela a cada gesto, a ponto dela poder se sensibilizar com o outro, de abrir mão de alguma coisa em nome do outro. Nesse processo ela descobre que vive uma experiência onde o inverso também é verdadeiro. A empatia não vem de fábrica, ela é uma construção, faz parte do processo educativo, das relações afetivas fundamentais.

Se perdemos a janela de oportunidade para desenvolver a empatia no começo da vida, a pessoa vai ter um trabalho mais longo para adquiri-la. A gente até pode se reconhecer no sofrimento do outro, mas a empatia implica uma certa sofisticação na qual se é realmente capaz de se pôr no lugar do outro e lamentar por ele, ter compaixão. Então é uma competência sofisticada, que começa desde a mais tenra infância. Sua ausência pode desenvolver quadros psíquicos bem graves.

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