Como lidar com a ideia de estar sendo trapaceado na quarentena

O ‘Nexo’ conversou com a psicóloga Martha Hübner para entender o que fazer com a percepção de estar respeitando o isolamento enquanto os outros socializam

    Desde março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou a pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, o isolamento social se impôs em boa parte do mundo.

    A quarentena é uma forma cientificamente comprovada de frear o avanço da doença, já que, com menos pessoas circulando, menor a transmissão do vírus.

    Porém, com o passar dos meses, o isolamento começou a cansar a população. Nos EUA e em países da Europa, atingidos pela pandemia antes do Brasil, o termo “quarantine fatigue(fadiga da quarentena) já faz parte do vocabulário.

    Com o cansaço e com planos de reabertura, muitas pessoas – não só no Brasil – passaram a afrouxar as próprias quarentenas, retomando a vida como ela era (na medida do possível).

    Junto do fenômeno, tornaram-se comuns publicações de usuários se martirizando nas redes sociais por respeitarem a quarentena enquanto outras pessoas socializam fora de suas casas.

    Outro personagem da pandemia é o fiscal da quarentena, termo usado para designar as pessoas que online e offline repreendem aqueles que relaxaram nas medidas de isolamento social.

    Para entender melhor esses dois fenômenos que surgiram à medida que a pandemia se estende indefinidamente e as quarentenas se relaxam, o Nexo entrevistou Martha Hübner, psicóloga especializada em comportamento, professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia e da Associação Internacional de Análise Comportamental.

    É comum ver, nas redes sociais, pessoas que estão cumprindo o isolamento social dizendo que estão se sentindo “idiotas” por seguirem a quarentena rigorosamente. Por que isso acontece?

    Martha Hübner Nós estamos diante de um vírus invisível em conjunto com uma falta de liderança, com discursos incompatíveis. Um presidente desobedecendo o isolamento e o uso de máscara enquanto outros líderes seguiam e apoiavam as recomendações.

    Na psicologia comportamental, dizemos que quando as contingências não são muito claras, você precisa de um conjunto de regras muito bem definido. E isso não aconteceu.

    Num primeiro momento, isso não aconteceu por uma falta de liderança consistente e coerente, com dois grupos falando coisas diferentes. Depois, pela flexibilização, que surgiu de fadiga econômica, e não por uma questão de segurança sanitária.

    Os critérios ficaram absolutamente confusos, e o resultado disso só poderia ser ações incompatíveis entre si. É como pais que não sabem ser coerentes e que dizem sim para um filho e não para o outro. E é claro, esses filhos vão começar a brigar, porque é uma situação injusta.

    As pessoas demoraram tempos diferentes para seguir os protocolos, e até hoje você tem pessoas com diferentes níveis de sensibilidade sobre isso.

    É um sentimento compreensível, provocado por essa situação caótica que estamos vivendo. A pandemia no Brasil está se estendendo muito, por vários fatores. As pessoas comuns, leigas, não aguentam isso.

    Como lidar com esse sentimento?

    Martha Hübner O sentimento que é preciso ter agora é de sobrevivência. Em vez de se incomodar com o outro, é melhor você zelar pela sua segurança e proteger aquilo que está ao seu alcance.

    Não adianta muito você ficar em briguinhas emocionais com essas pessoas, embora seja difícil de evitar.

    Nesse momento é preciso ser mais racional e saber que esses sentimentos são plausíveis, mas deixá-los em um canto pequeno, sem tomar nenhuma ação individual que rompa laços. Não tome nenhuma decisão estrutural durante a pandemia, não tome decisões radicais.

    Acolha o sentimento e saiba que ele existe por uma razão válida. Volte-se para si dizendo “estou vivo e me protegendo”, e continue com essa máxima.

    Quando tiver que intervir, intervenha racionalmente, separando o afeto das medidas sanitárias. Tenha um pouco de compaixão com esses que não estão conseguindo se proteger – pessoas que serão as mais prejudicadas e que vão prejudicar outros – e saiba que isso é produto de uma política pública e de uma liderança muito mal conduzida.

    Junto dessa sensação de estar sendo passado para trás, surgiram os chamados “fiscais de quarentena”, pessoas que vigiam o cumprimento das recomendações e que repreendem quem está circulando normalmente. Como mediar esse conflito?

    Martha Hübner Na minha família, há um casal que se conheceu na pandemia. Imagina um casal vivendo uma paixão no meio disso tudo?

    Eles se encontraram, viajaram, porque tinham um sentimento maior. Eu olhava e falava “eles estão vivendo o melhor da vida”. Eu não vou deixar de me proteger. Não vou brigar com eles, porque eles estão se arriscando. O máximo que eu posso fazer é alertar, dar o meu modelo, orientar.

    A raiva, o ciúme ou a inveja da vida que eles estão levando podem ser racionalizadas. É possível entender que eles estão levando uma vida mais agradável, mas ao mesmo tempo estão correndo mais riscos. Brigar com eles não é uma forma de resolver esses sentimentos.

    Brigar não vai fazer ninguém se sentir melhor. As pessoas vão se sentir melhor ao se protegerem, ao analisarem os dados e ao entenderem que tudo isso é fruto de uma grande bagunça. Fazer isso é mediar o conflito da forma mais racional possível.

    As brigas não são algo adaptativo, não vão resolver. O que você pode fazer? Não entrar em estabelecimentos onde as pessoas estão sem máscara, deixar de comprar em lugares nos quais os donos não defendam as medidas contra a covid-19.

    Você tem a possibilidade de denunciar coletivamente. Foi o que fizeram com a [influenciadora digital] Gabriela Pugliesi quando ela deu uma festa. É um bom exemplo de uma ação coletiva, as pessoas se revoltaram, vieram a público e houve uma consequência para essa pessoa, que foi cancelada.

    A pessoa também pode agir e orientar para que o outro entre em contato com o perigo iminente. São vários os fatores para uma pessoa furar o isolamento social: essa pessoa pode ser suicida, ou estar por fora, ou não estar aguentando mais. São vários os fatores.

    A Globo fez isso. Quando o presidente Jair Bolsonaro chamou a covid-19 de gripezinha, a emissora começou a colocar imagens de caixões, a transmitir relatos daqueles que perderam entes queridos, etc. Isso tem a função de colocar as pessoas em contato com esse perigo invisível.

    Os sentimentos que podem mediar esse conflito são sentimentos de racionalidade, de compreensão. A revolta é compreensível, mas não vai resolver nada.

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