‘Mortes silenciosas aumentam a sensação de vulnerabilidade’

Pesquisadora na Fiocruz especializada em saúde mental em desastres e emergências, Débora Noal fala ao ‘Nexo’ sobre o impacto coletivo dos 100 mil óbitos pela covid-19 no país

    A pandemia do novo coronavírus atingiu a trágica marca de 100 mil mortes no Brasil no sábado (8). Por dois meses seguidos, o país vem contando uma média de mil novos óbitos pela infecção todos os dias.

    Atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil é hoje o segundo país que mais tem mortes pela covid-19, assim como é o segundo com mais pessoas infectadas. A situação pode ser ainda mais grave devido ao índice baixo de testagens.

    A sensação é de luto e sofrimento para quem perdeu amigos e familiares, sem sequer conseguir se despedir ou preparar um ritual propício — como o funeral ou cerimônias religiosas — por causa das restrições ao contato social.

    Mas o impacto das mortes da covid-19 vai além, naquilo que a psicologia chama de perdas em massa. A pandemia tem levado pessoas a criar reações tão diferentes quanto pânico, negação e paralisia.

    A covid-19 cria um tipo muito específico de luto pessoal e coletivo, segundo a psicóloga sanitarista Débora Noal. “É o luto pela perda de pessoas que amamos, misturado com o distanciamento de outras pessoas que também amamos, a perda dos empregos, dos espaços de lazer, de parte dos nossos planos de vida.”

    Pesquisadora na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Noal é especialista em saúde mental e desastres. Fez doutorado em psicologia na UnB (Universidade de Brasília) e trabalhou ao lado de organizações como Médicos sem Fronteiras e as Nações Unidas em conflitos armados no Sudão do Sul, na epidemia de ebola no Congo e no terremoto no Haiti.

    Nesta entrevista ao Nexo, feita por escrito na sexta-feira (7), Noal divide as impressões que vem obtendo em seu atual trabalho: estudar o impacto da pandemia para a saúde mental da população brasileira, que se vê diante de um evento com alto índice de letalidade.

    Mesmo no Brasil, um país que convive historicamente com números altos de violência e homicídios, a covid-19 tem impacto psíquico mais intenso. “É diferente quando temos mil mortes por dia”, diz Noal. “É a diferença entre andar numa estrada esburacada [como antes] e cair num abismo [como estamos agora]. É tão extremo que as pessoas paralisam.”

    Se, em outros momentos, a população brasileira banalizava a morte e a violência, por não se identificar com suas vítimas, o amplo alcance da pandemia trouxe o medo para perto de todos. Noal afirma que é possível superar esse estado quando se transforma sofrimento em ação.

    O que diferencia a pandemia de outros eventos que causam mortes em massa?

    Débora Noal Primeiro, a pandemia é um evento em curso, sem previsão para acabar, infelizmente. Como é um evento em curso, não existe uma clareza de quando a fase de resposta poderia terminar e quando iniciaremos a fase de elaboração [psíquica] do evento vivenciado.

    Nesse sentido, fica difícil planejar os próximos passos, uma vez que o processo de intervenção é sempre pensado de acordo com o tempo, a vigência, intensidade e a magnitude do evento em si. Estar na vivência em curso dificulta o aparecimento da estabilidade emocional e psíquica, porque não existe a sensação de que o pior já passou. Ainda estamos na fase da incerteza e da sensação de falta de controle, desconfiança e medo — três reações imprescindíveis para a manutenção da saúde mental de qualquer ser humano.

    Em segundo lugar, na pandemia as mortes são silenciosas e sem um agente visível. O “inimigo” pode estar morando dentro de você mesmo. Você ou as pessoas que você ama podem ser agentes promotores de morte ou vida de acordo com os cuidados ou não com a biossegurança [as medidas de prevenção]. Essa característica potencializa a sensação de vulnerabilidade, insegurança, incerteza e desconfiança em nós mesmos e naqueles que nos rodeiam.

    Ficamos com medo das pessoas que amamos e temos medo de sermos nós mesmos o vetor que desencadeará a morte. Esses fatores acabam tensionando as sensações e rotinas do cotidiano, nos deixando em estado de alerta e, por consequência, nos tornando mais vulneráveis e suscetíveis a brigas, violência, ruptura de relações e confrontos. Isso traz outros elementos que podem dificultar uma quarentena, até resultar, por exemplo, no aumento da violência doméstica, ou no próprio suicídio, quando não há políticas públicas e ações sociais que promovam discussão sobre o assunto e propostas de cuidado iminente.

    Qual o impacto de acompanhar essas mortes, do ponto de vista individual e coletivo?

    Débora Noal Ainda não é possível afirmar sobre o impacto específico da pandemia de covid-19. As evidências ainda estão sendo produzidas, pois a pandemia ainda está em curso. Isso pode ser bom, porque ainda há tempo para alterarmos seus impactos, sendo possível ressignificar e reenquadrar sentimentos, significados e planos e evitar a cronificação a médio e longo prazo de psicopatologias causadas pela pandemia.

    Se conseguirmos produzir a sensação de pertença, acolhimento e solidariedade neste momento, certamente teremos uma mitigação do impacto negativo da covid-19. O luto é uma experiência natural, que faz parte do cotidiano da vida, desencadeado quando temos vínculos rompidos, mas, quando somos capazes de formar redes sociais e afetivas que promovem sensações de que estamos juntos e dispostos a nos cuidar, esse luto pandêmico, considerado um luto complexo, pode tomar formas mais brandas e ser ressignificado.

    É importante lembrar que as características desse tipo de morte [na pandemia] e os eventos associados a ela compõem um tipo muito específico de luto, uma vez que ele agrega várias condições díspares de lutos em um mesmo momento. É uma soma de muitos lutos juntos. É o luto pela perda de pessoas que amamos, misturada com o distanciamento de outras pessoas que também amamos, a perda dos empregos, a perda dos espaços de lazer, a perda de parte de nossos planos de vida.

    Superar os impactos negativos da pandemia depende muito de como estamos e do que vamos fazer enquanto família, comunidade, sociedade e formuladores de políticas públicas neste momento e nos meses que estão por vir. Por isso este é o momento de reenquadrar os planos e os significados de forma coletiva, reinventando nossa forma de viver e produzir significados.

    O que as pessoas fazem para conseguir conviver com esse cenário?

    Débora Noal Em um mundo com mais de 7 bilhões de pessoas, existe de tudo um pouco. Vou dar ênfase apenas a reações que temos observado com mais frequência no Brasil. A fim de se proteger, uma parte da população nega a gravidade da situação, assim como nega as orientações sanitárias, forçando a todo custo manter o status quo anterior à pandemia e acabando por banalizar as mortes.

    Para aqueles que são capazes de fazer face às vivências concretas e que não negam a condição atual, me parece que há uma busca por sublimação. Seja por meio das artes, seja buscando outras formas de produzir, ou pelos atos de solidariedade, dos quais é fundamental lembrarmos.

    Por fim, penso que, para aqueles que precisam estar na linha de frente durante a pandemia, um recurso importante tem sido contar com a rede de “iguais”, ou seja, com outras pessoas que compartilham das mesmas dificuldades, das mesmas condições. Falar com quem vivencia o mesmo que você, proporcionar reconhecimento e legitimidade dos afetos pode mitigar parte do sofrimento, facilitando muito a elaboração dos eventos e sensações e a produção de novos significados.

    É importante lembrar que muitas pessoas têm conseguido realizar suas obrigações (trabalho, estudo, convívio familiar) de maneira suficiente, apesar da existência do sofrimento. Aqueles que são capazes de se manter funcionais mesmo com as demandas legítimas de biossegurança, sem negar o vírus, tendem a ser mais capazes de manter a estabilidade emocional.

    Há a possibilidade de estarmos normalizando as mortes na pandemia?

    Débora Noal Sim, de maneira semelhante ao que acontece com as vítimas de violência. Estatísticas geram pouca empatia. Costumamos “desumanizar” os fatos, atos e notícias, como forma de nos proteger. Acabamos por produzir menos empatia, na medida em que transformamos as mortes humanas em estatísticas, e é difícil ter empatia por números.

    Lembrando que essas ações são passíveis de serem revertidas em emoção e ação. Na medida em que transformamos a indignação ou o sofrimento em ações concretas que auxiliam a mitigar os impactos da pandemia, tendemos a nos sentir mais capazes e com uma sensação de controle maior. Assim, sentimos maior sensação de pertença e solidariedade e aumentamos as chances de seguirmos com uma melhor estabilidade psíquica.

    Como o distanciamento social afeta nossa experiência com a morte neste período?

    Débora Noal O distanciamento social acaba diminuindo nossa capacidade de nos sentirmos pertencentes e de termos a sensação de acolhimento coletivo, grupal ou familiar. Acabamos por nos sentir mais desprotegidos. E nós, humanos, precisamos da sensação de pertença, acolhimento e afeto. Isso nos fortalece e facilita a elaboração dos processos de luto, por exemplo.

    Lembrando que as medidas de biossegurança que nos impossibilitam, por exemplo, de manter os ritos de passagem, como funeral e velório, acabam por dificultar o processo de vivenciar o luto complexo que existe durante uma pandemia. Apesar disso, enquanto humanos, somos capazes de reinventar esses rituais e adicionarmos criatividade em consonância com a tecnologia, o que nos permite ressignificarmos nosso cotidiano, criando novas formas de aproximação afetiva, mesmo com a garantia do afastamento corporal.

    Como essa presença comum da morte no cotidiano afeta a visão dos brasileiros na pandemia?

    Débora Noal Diante do desvelamento da morte de forma abrupta, frequente a intensa, existem duas tendências principais: uma, a de negar a morte e tentar continuar vivendo como antes. E a outra, um pavor diante da constatação da incerteza da vida e da sensação de falta de controle. Claro que esses grupos não são únicos e isso é uma tentativa simples de generalizar. Observamos que estas tendências tendem a se sobressair, dentre outras.

    É imprescindível não sucumbirmos a essa tentação da fuga da realidade. É preciso pensar junto, enquanto coletivo organizado, para causar um impacto positivo. Aqueles que “adormecem” ou congelam acabam por prejudicar [a situação] e de alguma forma aceleram o processo das perdas de vidas. A saída é “pra dentro”, no sentido de que precisamos olhar para nossos sentimentos, reações, e ferramentas que nos possibilitem dar algo para impactar o lugar onde estamos.

    Ao mesmo tempo, a saída é “pra fora”, no sentido de que precisamos unir esforços do maior número de pessoas possível para que nossas ações tenham um impacto maior. É preciso pensar no que eu sei fazer, o que eu gosto e sinto prazer e a partir disso me conectar com outros humanos que compartilham dessa sensação, para juntos produzirmos grandes mudanças no mundo pandêmico. É hora de agir juntos.

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