Celso Furtado: um olhar econômico sobre a história

Economista paraibano completaria 100 anos em 2020. O ‘Nexo’ conversou com o professor Mauricio Coutinho sobre a obra e legado do pensador

Celso Furtado, um dos mais importantes economistas brasileiros, nasceu na cidade de Pombal, no sertão da Paraíba. Ele completaria 100 anos em 26 de julho de 2020.

A extensa obra de Furtado é marcada pelo período em que trabalhou na Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), uma comissão regional ligada à ONU (Organização das Nações Unidas).

Entre 1949 e 1957, ele atuou ao lado do economista argentino Raúl Prebisch, um dos formuladores da teoria da dependência, segundo a qual os países da periferia (como os da América Latina), com menor renda e produtividade, estariam subordinados aos países do centro, de maior renda e produtividade.

Junto a outros economistas da Cepal, Furtado ajudou a desenvolver o pensamento chamado de “estruturalista”, buscando compreender os motivos por trás do subdesenvolvimento no Brasil e outros países da América Latina.

Além dos trabalhos na Cepal, a carreira de Furtado ficou marcada por diversas passagens pela administração pública. Foi diretor do BNDE (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico) entre 1958 e 1959, período em que publicou seu livro mais conhecido, “Formação econômica do Brasil” (1959); foi diretor da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) entre 1959 e 1964; foi ministro do Planejamento do então presidente João Goulart (1961 a 1964) entre 1962 e 1963; e, por fim, chefiou o Ministério da Cultura sob José Sarney (1985 a 1990) entre 1986 e 1988. Celso Furtado morreu em 20 de novembro de 2004, aos 84 anos, após uma parada cardíaca.

O Nexo conversou com Mauricio Coutinho, professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador especialista na obra de Celso Furtado, sobre o legado do pensador.

Como podemos resumir o pensamento de Celso Furtado?

Mauricio Coutinho É difícil resumir o pensamento dele, porque se estende em várias direções. Mas eu diria que o que ficou muito marcante na contribuição dele é a aplicação de modelos econômicos à interpretação da história brasileira. Isso é fundamental e se revela em vários livros dele. E depois à história latino-americana também. Mas a obra magna é a “Formação Econômica do Brasil”, publicada em 1959, que é exatamente isso: uma revisão da história brasileira a partir da aplicação de modelos econômicos à realidade histórica. Essa é a grande característica do Celso Furtado como pensador e como economista.

A nota característica do Furtado é essa, sendo ele um economista de formação plena, com muito conhecimento de economia. Ele tinha uma formação muito forte em história, em ciências sociais de modo geral e em economia também. E particularmente, adquire a formação de economista prático com os oito ou nove anos de trabalho intenso que teve na Cepal.

Quais os diagnósticos feitos por Celso Furtado nesse debruçamento sobre a história econômica brasileira?

Mauricio Coutinho Ele realiza os sumários da história brasileira. No caso da história brasileira, havia já uma linha de interpretação estabelecida pelos historiadores que o antecederam, de vincular naturalmente o Brasil ao estado de colônia, fornecedor de produtos para Portugal.

Ele reativa isso em termos de uma modelagem econômica em que os elementos principais são, a meu ver, primeiro, a existência ou não de economia monetária interna nos países. Ou ainda, no caso brasileiro e de outros países, o tipo de mão de obra empregado nas diversas regiões. Por exemplo, se for trabalho escravo, temos uma consequência econômica. Se for outra forma de servidão ou trabalho assalariado, outra conclusão econômica. Terceiro, há a questão da formação de um mercado de trabalho livre, que para ele é essencial. Quarto, a existência ou a possibilidade de passagem de um modelo primário exportador para um modelo em que a indústria fosse implantando e expandindo nos diversos países. É esse tipo de olhar que Furtado traz à discussão.

Posteriormente, já nos anos 1960, ele passa a integrar outras dimensões que são a presença ou não de empresas multinacionais. Durante a década de 1960, havia uma discussão muito forte sobre a multinacionalização. Então Furtado retoma esse ponto para sua argumentação: a importância das empresas multinacionais, o que significa o controle multinacional, quais os impactos sobre as nações que assumem essas empresas multinacionais, e assim vai. De tal modo que sua visão sobre o antigo tema da relação centro-periferia vai sofrendo transformações.

Quais críticas podem ser feitas aos diagnósticos de Celso Furtado sobre a formação da economia brasileira?

Mauricio Coutinho A história econômica brasileira, dos anos 1980 para cá, sofreu uma transformação, pela multiplicação de centros de excelência em pós-graduação. Então hoje temos informações que não tínhamos [na época de Furtado]. A história hoje é muito mais detalhada, nós temos abundância de material. E no momento em que se detalha a história, percebemos que alguns esquemas muito gerais às vezes são desmentidos por circunstâncias às quais os historiadores chegam.

Se você pegar algumas áreas, como por exemplo, estudos sobre trabalho escravo. Hoje o Brasil é um líder de pesquisa sobre trabalho escravo, nossos historiadores têm destaque nisso. E o que se sabia disso antigamente era muito pouco. Havendo muitas mudanças no conhecimento, é claro que é fácil acharmos certas omissões em autores que escreveram sobre isso no passado — e não só Furtado.

Um exemplo é o tema da transição do ciclo minerador da economia brasileira no século 18 para a perda de importância da mineração, o que acontece nos diversos territórios, seja onde se localizam as minas, seja nos outros. Furtado é criticado por historiadores que têm hoje uma interpretação diferente. Mas é totalmente natural.

Dentro da visão de Furtado, como aparece a questão do subdesenvolvimento e da desigualdade?

Mauricio Coutinho Furtado se caracterizou, junto com outros economistas da Cepal, pela elaboração de um modelo que depois foi celebrizado por outros economistas, que é a ideia das características de uma economia que se expande com um contingente ilimitado de mão de obra. Esse é o caso típico de diversas economias latino americanas: muita mão de obra que, por diversas razões, vai sendo marginalizada.

E quando a indústria se integra e se moderniza, essa mão de obra continua redundante, por diversas razões. Essa redundância de mão de obra significa baixos salários, por excedente de mão de obra. Por esse lado, não há qualquer aperto sobre os lucros e, simultaneamente, como a tecnologia é uma tecnologia já multinacionalizada, a mão de obra continua redundante. São características de um modelo de expansão com oferta ilimitada de mão de obra que foi traduzido por diversos autores e aplicado em situações concretas.

Furtado sempre foi muito atento a isso, e isso em consequências políticas. Ele não vê qualquer possibilidade de desenvolvimento sem absorção dessa população e elevação dos ganhos reais dessa população. Então tem que haver uma absorção da população, crescimento de produtividade do trabalho, e esse crescimento de produtividade do trabalho deve em parte redundar em aumento de padrão de vida, como um processo civilizatório. Essa era a visão dele. E a perspectiva que ele tinha de desenvolvimento econômico era exatamente essa.

[A desigualdade] aparece na raiz, e com esse impacto econômico. Forma-se um mercado consumidor insuficiente para as dimensões da economia e para a potencialidade da indústria já instalada. Não se alimenta o que ele chamava de um círculo criativo, porque a população [o contingente] sempre abaixa os salários. E a distribuição de renda é muito concentrada, totalmente destoante do padrão das economias centrais. Sendo a renda concentrada, o impacto disso sobre a estrutura econômica — para não falar da estrutura política — é brutal. Era isso que Furtado tinha em mente. Modernização para ele significa a possibilidade de nós integrarmos todos a uma economia que se desenvolve e que cresce. Essa era a visão dele sobre o drama do Brasil e o drama típico da América Latina, por assim dizer.

Como definiria o estruturalismo, termo ao qual Celso Furtado é associado?

Mauricio Coutinho O estruturalismo para Furtado procura levar em vista todas as variáveis: a organização social, a estrutura social, a distribuição de renda, etc. Portanto, uma análise estruturalista, teria em vista isso tudo. [O termo] não aparece só na obra dele. Era uma característica do debate em torno dos economistas da Cepal; se dizia que a visão deles era estruturalista. Parece que essa palavra se tornou forte nos debates que foram recorrentes na América Laina e no Brasil sobre inflação. Então se criou essa contraposição entre abordagens monetaristas e estruturalistas da inflação. A popularização desse termo se deveu a isso.

Furtado, Loyola e alguns outros autores em torno da Cepal diziam que a inflação tinha características estruturais. E, portanto, não haveria de ser uma política monetária austera — como a praticada em certos momentos, como no final do governo Dutra [Eurico Gaspar Dutra — não levaria em conta todas as dimensões do processo inflacionário brasileiro. Acho que o termo estruturalismo está associado — pelo menos sofreu uma divulgação imensa nesse contexto — a opiniões sobre a inflação.

Nos anos 1950 e início dos anos 1960, sobre processo inflacionário, tínhamos no Brasil, de vez em quando, uma erupção inflacionária. Furtado ficava muito atento para a temática cambial como sendo um fator de impulsão do processo inflacionário. A desvalorização cambial tinha certos efeitos sobre os preços internos, e esses efeitos propulsionavam a inflação. Por sua vez, a classe empresarial pressionava por crédito, e muitas vezes o crédito era concedido em condições que realimentavam a inflação. São essas características de uma economia com sistema de preços mal organizado, não muita competição, com relações internacionais complicadas que impunham oscilações cambiais bruscas, com interferências do governo na dinâmica cambial e interferências do governo na política de crédito. Então todos esses elementos fazem parte desse ambiente estrutural, mas repito: muito aplicado ao debate inflacionário.

O senhor mencionou o debate inflacionário nos anos 1950 e 1960. Hoje, no Brasil, o debate econômico é marcado pela discussão sobre o papel do governo na economia. Qual era a visão de Furtado sobre esse tema?

Mauricio Coutinho Não há, na obra de Furtado, uma discussão imensa sobre isso. Esse é um fenômeno recente, do pós-guerra. E é um fenômeno que tem um sentido estrito, que é a construção de algumas empresas [públicas] para a produção industrial, ou um aumento da infraestrutura pública para a provisão de bens básicos ou indispensáveis como energia elétrica. A discussão fica por aí.

Eu diria que se nós tivermos os olhos dos anos 1970, essa discussão era muito pouco frequente. Porque a participação do governo na economia brasileira não era tão grande e porque não era essa a discussão mundial. Começa a haver um debate nacional em torno disso, mais por influência internacional, no governo Geisel [Ernesto Geisel, presidente de 1974 a 1979]. O outro lado da moeda é que, ao fim do governo Geisel e tudo subsequente, aí já estamos em outra circunstância no Brasil, que é a volta da inflação recorrente. A temática nacional dominante era a inflação e o combate à inflação. E assim vamos até o Plano Real. O tema estatal foi levantado na surdina durante o governo Geisel, mas perde força pela emergência da inflação.

O senhor falou sobre o modelo de centro-periferia. Dentro dessa ótica, o pensamento de Celso Furtado ajuda a entender o momento de contestação da globalização por alguns líderes mundiais?

Mauricio Coutinho Raúl Prebisch, que era o mestre de Furtado na Cepal, foi quem cristalizou esse modelo de centro-periferia. Furtado desenvolveu isso de algum modo. O que nós temos nos últimos 10, 15 anos, é uma espécie de contestação branda ao internacionalismo, uma espécie de novo nacionalismo. E esse novo nacionalismo, em algumas regiões, tem uma característica muito conservadora.

O debate mundial hoje está ligado à mudança no balanço político e econômico mundial, a emergência da China e dos satélites chineses. Então o que será um modelo centro-periferia daqui 15 anos, se o mundo for imantado pela China? Não sabemos o que será esse mundo. Acredito que isso trará uma nova relação centro-periferia, sobre a qual não se podia pensar no passado, claro. É a grande novidade que teremos. Quem falar em centro-periferia vai ter que mudar um pouco sua visão não sobre o que é periferia, mas talvez sobre o que seja centro.

Furtado foi um dos primeiros economistas brasileiros a ficar muito atento para a questão da expansão das economias orientais no pós-guerra. Primeiro o Japão, depois esse novo fenômeno de emergência da China e outras nações, que naquela época não era tão saliente.

Qual a importância da obra de Celso Furtado para pensar um momento de crise, como este que vivemos na pandemia?

Mauricio Coutinho Acho fundamental. A obra dele analisou diversas crises. Furtado gostava de fazer uma reconstituição histórica, que ia mudando conforme a perspectiva dele mudava. Para Furtado, o pensamento sobre o presente o obrigava a fazer uma revisão da história. E a história serve de fonte de inspiração para se pensar o presente. Acho que essa é a característica mais expressiva do pensamento de Furtado.

As pessoas que querem pensar as realidades sociais — que são, por definição, muito variadas — deveriam prestar atenção em história e em crises históricas, grandes momentos de virada histórica. Há de se ficar atento a isso, a partir das lições da história.

Mas não só no sentido amplo de dizermos que o Brasil é assim porque saímos de uma economia com escravidão. Não é só a herança da escravidão. São vários fatos econômicos que vão se sobrepondo, se somando e sendo modificados. E que resultam no mundo em que nós vivemos. A característica do Furtado seria um olhar na história não para explicar a crise presente, de hoje, mas para explicar as características dos momentos sucessivos. Acho que essa é a contribuição do Furtado.

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