O papel da Semana de 22 na criação do mito dos bandeirantes

Ao 'Nexo', jornalista e escritor Marcos Augusto Gonçalves fala sobre a relação dos modernistas com o culto às figuras hoje condenadas por terem sido racistas e escravagistas

O jornalista Marcos Augusto Gonçalves lançou em 2012 um livro que conta a história da chamada Semana de 1922 – marco do movimento modernista brasileiro que influencia até hoje a arte produzida no Brasil.

No livro, chamado “1922 - A semana que não terminou”, Gonçalves, que atualmente é editor do caderno Ilustríssima do jornal Folha de S.Paulo, conta a história do movimento protagonizado por escritores como Mário de Andrade, pintoras como Tarsila do Amaral e escultores como Victor Brecheret.

Ele explica também como a Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Theatro Municipal de São Paulo, em fevereiro daquele ano, ajudou na “elaboração intelectual, histórica e ideológica para embasar um projeto [paulista] de liderança nacional que estaria inscrito, quase que como uma vocação natural, nas condições supostamente excepcionais da formação” do estado.

Essa elaboração identitária paulista teria na figura do bandeirante um personagem importante. Sem a aura de capital federal – como tinha sido o caso de Salvador e como era o caso do Rio de Janeiro de então –, São Paulo buscou emplacar sua própria versão da história, fazendo dos bandeirantes um mito fundador.

Respaldados pelo poder econômico da indústria cafeeira de então, os modernistas brasileiros ajudaram no “esforço de religar geografia e história e dar a São Paulo uma grandiosidade que se confundisse com a própria formação do país”.

Um dos marcos desse momento é o Monumento às Bandeiras, de Brecheret, instalado no Ibirapuera em 1953, e mais de uma vez atacado por ativistas que veem na homenagem aos bandeirantes uma ode à escravidão e ao racismo.

Nesta entrevista ao Nexo, feita por escrito em 9 de julho, Gonçalves fala sobre o papel dos modernistas na criação do mito bandeirante, e analisa os movimentos contemporâneos que pregam a derrubada de monumentos como o de Brecheret no Ibirapuera ou a estátua do bandeirante Borba Gato, na zona sul de São Paulo.

Qual o papel da Semana de 22 na criação do mito dos bandeirantes?

Marcos Augusto Gonçalves A Semana foi um evento que se organizou em meio ao processo de ascensão de São Paulo como um polo de modernização e liderança no cenário nacional. Aproximava-se o ano do centenário da Independência e havia uma mobilização no sentido de estender para o campo cultural a influência que os paulistas já exerciam no terreno da política e da economia, com a riqueza cafeeira e seus primeiros desdobramentos industriais.

Entre setores pensantes da elite desenvolvia-se toda uma elaboração intelectual, histórica e ideológica para embasar um projeto de liderança nacional que estaria inscrito, quase que como uma vocação natural, nas condições supostamente excepcionais da formação paulista.

Uma das plataformas dessas elucubrações foi a “Revista do Brasil”, que em sua segunda fase pertenceu a Monteiro Lobato. Tinha-se à época uma percepção de um grande descompasso entre a exuberância geográfica e natural do Brasil e seu acanhamento histórico. Para compensar essa defasagem, articulistas da revista convidavam historiadores a um esforço para produzir representações mais altivas que despertassem orgulho nos mais jovens e propiciassem uma narrativa histórica com mais ordem, vigor e positividade.

A releitura do papel dos bandeirantes como heróis nacionais, homens idealistas e empreendedores que nos deram uma extensão territorial invejável, fazia parte desse esforço de religar geografia e história e dar a São Paulo uma grandiosidade que se confundisse com a própria formação do país.

O grupo modernista de São Paulo de certa forma se engajava nesse movimento. Menotti del Pichia, que não era grande coisa como poeta, mas atuava na imprensa como espécie de propagandista-mor do grupo (era ligado ao Partido Republicano e ao jornal Correio Paulistano) era um ufanista paulista de marca maior. Quando o grupo modernista foi visitar poetas no Rio, antes da Semana, ele dizia que uma “bandeira modernista” estava partindo para a capital federal.

E todos defenderam com entusiasmo o projeto do Monumento às Bandeiras que o escultor Victor Brecheret começara a desenvolver ainda antes de 1922, bem diferente, aliás, da versão que acabou sendo instalada no Ibirapuera, em 1953.

Qual o papel das elites econômicas de então na criação desse mito?

Marcos Augusto Gonçalves Paulo Prado, o mecenas da Semana (ou seu “fautor”, como disse Mário de Andrade), foi um dos representantes ilustrados da oligarquia do café empenhados em revigorar e embelezar o passado de São Paulo, com o intuito de fixar a vocação dos paulistas para exercer uma liderança quase que “natural” no país.

No esquema de Paulo Prado, sobrinho de Eduardo Prado, de família riquíssima, que atuava em amplo leque da economia, São Paulo, por sua própria condição geográfica, teria se mantido por longo tempo isolado das mazelas do litoral. Ali teria se desenvolvido um tipo peculiar com características étnicas próprias, marcadas pelo “sangue português quinhentista”, pelos índios e também pela influência judaica. Esse tipo, que tinha em sua base os bandeirantes, era descrito por Paulo Prado, de maneira hiperbólica e um tanto delirante, como “um admirável exemplar humano, belo como um animal castiço” que se comparava aos “homens da Renascença italiana”.

Essa São Paulo original, tenaz e apolínea, teria experimentado anos de decadência até que se regenerou no ciclo do café, sob o comando de famílias tradicionais, como, aliás, a dele, Paulo Prado.

Diga-se que ele era, apesar dessas visões, um homem cosmopolita, culto, viajado e aberto às novidades artísticas.

Outros nomes ligados à elite de São Paulo também contribuíram para a elaboração disso que chamamos de o mito dos bandeirantes, como Alcântara Machado, Alfredo Ellis Jr. e Affonso de Taunay, para quem a história paulista “era a própria história do Brasil”.

Questões tão presentes hoje – como o racismo e a escravidão – não faziam parte do dilema dos modernistas de então?

Marcos Augusto Gonçalves O imaginário e as referências científicas e culturais naqueles tempos eram outras. As teorias raciais que se elaboraram na Europa no século 19 aqui chegaram e foram absorvidas, muitas vezes de maneira tortuosa e ambígua. Questões como a inferioridade do tipo mestiço ou do chamado caboclo estavam muito presentes nos debates. O fim da escravidão era sim uma questão, mas dizia mais respeito ao modo de produção do que a um sentimento de igualdade racial. A família Silva Prado, como se sabe, foi uma das grandes promotoras da imigração de mão de obra europeia para São Paulo.

Entre os modernistas, que tinham, muitos deles, ligações familiares ou de amizade com a oligarquia cafeeira, havia de um modo geral uma forte empatia com as raízes brasileiras, com tipos populares, com a cultura indígena, negra, caipira. Isso era parte do programa modernista, a valorização do que seriam as manifestações culturais brasileiras, nossa cor local. Muitas obras, na música, na pintura ou na literatura atestam essa característica, bem como a noção de antropofagia, elaborada por Oswald de Andrade.

Qual sua opinião sobre a proposta de retirar estátuas como a de Borba Gato ou o Monumento às Bandeiras, de Brecheret?

Marcos Augusto Gonçalves A derrubada de monumentos faz parte dos conflitos, das guerras e das revoluções da história da humanidade. Da iconoclastia à destruição de símbolos da opressão monárquica ou burguesa ou socialista, nada disso é novidade. Eu acho que a eliminação de monumentos pode ser perfeitamente defensável em algumas situações. O que me incomoda é quando esse impulso associa-se à intolerância e ao autoritarismo, ao desejo de trocar um deus por outro, de impor uma verdade a todos.

Essa discussão tem sido levantada nos EUA hoje. É curioso, aliás, como setores da esquerda e dos movimentos identitários brasileiros são agora fortemente influenciados pelos americanos. Tudo bem, faz parte. Eu sou um entusiasta do Black Lives Matter. Mas acharia uma lástima a remoção da obra de Brecheret do Ibirapuera por uma série de razões, que passam, também, por nossa história cultural. Já a eventual retirada da horrenda estátua do Borba Gato não me incomodaria, acho que haveria sobretudo justificativas estéticas para deixarmos de vê-la. Mas seria saudável que isso tudo fosse fruto de um processo orgânico, verdadeiro, de dentro pra fora, de baixo para cima e não resultado de um ativismo normativo que faz pose e segue modismos radicais.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: