Por que não há ‘verdes’ relevantes na política brasileira

Carolina Pimentel Corrêa, pesquisadora de pós-doutorado em ciência política na Federal da Rio Grande do Sul, fala ao ‘Nexo’ sobre o quadro nacional diante do europeu, onde partidos com causas ambientais avançam eleitoralmente

Os partidos verdes, apoiados em causas ambientais, vêm obtendo expressivas vitórias eleitorais na Europa. Eles crescem em países como Reino Unido, Alemanha e França. Jornais falam numa “onda verde”, marcada pelas expressivas votações na escolha de membros do Parlamento Europeu, em maio de 2019, e no segundo turno das disputas municipais francesas, em 28 de junho de 2020.

O Partido Verde brasileiro, fundado em 1986, é uma legenda pequena, com pouca unidade programática e baixa relevância nacional, apesar de já ter disputado eleições presidenciais com candidatos próprios. Seu melhor desempenho foi em 2010, quando Marina Silva, ex-petista que havia se filiado ao partido, ficou em terceiro lugar.

Defensora da pauta ambiental, Marina deixou o PV para disputar as eleições seguintes pelo PSB em 2014, acabando de novo em terceiro lugar. Ao fundar seu próprio partido, a Rede Sustentabilidade, voltou a disputar o Palácio do Planalto em 2018, mas na mais recente tentativa ficou apenas em oitavo lugar, com 1% dos votos válidos.

Naquela eleição, a agenda ambiental ficou eleitoralmente encurralada pela ascensão de um movimento de extrema direita defensor da exploração econômica de áreas verdes e terras indígenas, que tem no atual ministro da área, Ricardo Salles, e no presidente da República, Jair Bolsonaro, seus principais expoentes.

Nesta entrevista concedida ao Nexo na quinta-feira (2), por e-mail, Carolina Pimentel Corrêa, que é pesquisadora de pós-doutorado em ciência política na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fala sobre a agenda ambiental na política brasileira, na comparação com outros países.

Quem, no Brasil, representa melhor a agenda ambiental na política?

Carolina Pimentel Corrêa A agenda ambiental, no Brasil, sempre foi mais bem representada por personalidades políticas do que por partidos enquanto organizações coletivas. Exemplos disso são Sarney Filho, Fernando Gabeira, Marina Silva, Alessandro Molon, Leonardo Monteiro e Randolfe Rodrigues. Algumas dessas personalidades, inclusive, já passaram por diferentes partidos.

Nos últimos anos a agenda ambiental ganhou mais força no debate público brasileiro – as discussões a respeito das alterações no Código Florestal, em 2011 e 2012, representam um marco importante nesse sentido. Desde então, até mesmo os ruralistas, mais vinculados à centro-direita e à direita, e os desenvolvimentistas, mais próximos da centro-esquerda e da esquerda, perceberam a necessidade de compatibilizar as suas visões de mundo, os seus interesses e os seus projetos com alguma forma de proteção ao meio ambiente.

As queimadas na Amazônia e o uso extremado de agrotóxicos, por exemplo, estimulam boicotes e pressões do mercado consumidor internacional contra os produtos brasileiros, exigindo que o setor do agronegócio tenha maior cuidado com os recursos naturais.

Os projetos de desenvolvimento nacional, que normalmente implicam no aumento da produção industrial e da oferta de energia, podem provocar impactos ambientais negativos, estimulando fortes reações de grupos organizados, instituições e cidadãos em geral que, em princípio, formam as bases sociais de sustentação dos partidos de esquerda. Isso impõe-lhes o desafio de conceber planos de desenvolvimento que realmente sejam sustentáveis, trazendo a agenda ambiental para o primeiro plano.

Devido a esses movimentos, os partidos políticos, de todas as orientações ideológicas, começaram a assumir, de maneira mais consistente e declarada, compromissos programáticos favoráveis à proteção do meio ambiente. Por isso, no atual contexto brasileiro, não podemos vincular essas pautas a um partido específico, algo mais comum em países europeus.

Por que pauta ambiental não é forte eleitoralmente no Brasil?

Carolina Pimentel Corrêa Por que uma grande parte dos eleitores está mais preocupada com temas de ordem imediata que afetam a sua vida cotidiana, como emprego, renda, moradia e segurança pública. O fato é que as políticas ambientais tendem a se chocar com essas necessidades de curto prazo. Trata-se de um desafio de ordem estrutural, portanto.

Nos países considerados desenvolvidos, esse problema foi resolvido há mais tempo. O desenvolvimento econômico naquela região, que também foi altamente predatório e nocivo ao meio ambiente, foi obtido há décadas, resultando em maior nível de renda e de igualdade social.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), consolidada a reconstrução de alguns daqueles países, foi possível a emergência de uma nova agenda política, focada no que chamamos de valores pós-materiais, próprios de sociedades pós-industriais. Nesse contexto, era possível se voltar para a defesa do meio ambiente e de críticas ao padrão de desenvolvimento ocidental capitalista. Mas o Brasil, assim como em vários outros países, ainda está lidando com o problema do desenvolvimento, em contextos de extrema desigualdade social. Assim, gerar emprego, garantir a comida e a moradia tornam-se temas mais urgentes para uma parcela substancial dos eleitores do que a defesa da preservação ambiental.

Então, os partidos e suas lideranças políticas relegaram esse tema ao segundo plano. Afinal, converter a agenda ambiental numa bandeira de forte apelo eleitoral exige um olhar de longo prazo que está aquém da próxima eleição.

Em países como o Brasil, esse tema é difícil de ser compreendido e aceito como prioritário, sem contar todo o conflito de interesses aí envolvido. Mesmo que todos entendam que o aquecimento global é uma ameaça iminente que pode afetar a todo o planeta, esse cenário parece muito distante do cotidiano, soa alarmista, quando não irrealista. Desse modo, do ponto de vista da racionalidade eleitoral, os partidos tenderão a debater e propor políticas que possam lhes render votos. A oferta partidária segue a demanda eleitoral. Mas, como disse antes, esse cenário começou a mudar porque as pressões externas e internas estão forçando as lideranças políticas a uma adaptação evolutiva em face dessas novas demandas, tanto eleitorais como econômicas.

Penso, portanto, que os partidos, pelo menos os principais, terão que avançar na construção de políticas de desenvolvimento que também sejam bons projetos ambientais. Se isso não for realizado, continuaremos a enfrentar casos de rompimento de barragens, de queimadas na Amazônia, de enchentes em vias urbanas, de deslizamentos de terra nos morros, etc. Agora, também já sabemos que nós, humanos, somos os maiores responsáveis pela atual pandemia e, a continuar esse descaso na nossa relação com a natureza, também seremos os responsáveis pelas próximas.

O fortalecimento do movimento pelo clima que vemos desde o ano passado, que pôs Bolsonaro como um dos vilões, pode mudar isso?

Carolina Pimentel Corrêa O Brasil possui aproximadamente 500 milhões de hectares (59% do seu território) de florestas naturais e plantadas, o que representa a segunda maior área de florestas no mundo, atrás somente da Rússia, de acordo com dados do Serviço Florestal Brasileiro, de 2019. O país abriga mais de 60% da floresta Amazônica – que é internacionalmente conhecida por sua riqueza em recursos naturais. Esses dados colocam o Brasil numa posição de destaque na governança ambiental global.

A mudança climática faz parte de uma realidade que muitos não querem enxergar, mas as suas consequências já são sentidas em diferentes partes do mundo, e o Brasil não está imune a esse fenômeno, muito pelo contrário. Nesse sentido, o crescente desmatamento da Amazônia, a falta de ação para fortalecer as políticas públicas ambientais e o sucateamento dos órgãos e autarquias federais desse setor colocam o governo Bolsonaro numa situação de vulnerabilidade diante da comunidade política que atua em prol do meio ambiente, não só no âmbito nacional, mas também internacional.

A recente fala do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre “passar a boiada”, deu mais evidência ao tema e revelou com clareza aquilo que Bolsonaro já declarava desde a sua campanha eleitoral: o meio ambiente nunca foi, nem será, uma prioridade no seu modo de fazer política. É verdade que esse comportamento do governo ricocheteia nele mesmo, afinal, fica explícita a necessidade de políticas ambientais consistentes. Por sua vez, isso contribui para que essa pauta se faça ainda mais presente nos planos de ação eleitoral dos partidos políticos brasileiros. Ainda é incerto se a soma desses fatores resultará na maior valorização dessa agenda por parte dos eleitores. Penso que sim, que essa agenda veio pra ficar e deverá crescer no contexto brasileiro nos próximos anos.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que Carolina Pimentel Corrêa era doutora em ciência política pela UFRGS. Ela é doutora em sociologia pela Universidade do Porto, em Portugal, e pesquisadora de pós-doutorado em ciência política da UFRGS. A mudança foi feita às 15h20 do dia 5 de julho de 2020.

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