O que foi o Método Jacarta e qual seu impacto no Brasil

Jornalista americano fala ao ‘Nexo’ sobre operação que levou ao assassinato de 1 milhão de indonésios pela ditadura do país nos anos 1960, e de como ela inspirou regimes militares na América do Sul

O jornalista americano Vincent Bevins lançou em maio um livro que conta a história do massacre de pelo menos 1 milhão de indonésios acusados de serem comunistas, durante a ditadura do general Suharto. O militar governou o país do sudeste asiático com mão de ferro durante 31 anos, de 1967 a 1998.

Em “The Jakarta Method” (“O método Jacarta”, em tradução livre), Bevins traça paralelos entre o assassinato em massa de militantes de esquerda na Indonésia de 1965 e 1966, e a perseguição, prisão, tortura e morte de opositores das ditaduras militares brasileira e chilena nos anos seguintes.

O tema central do livro é a estratégia da CIA, a agência de inteligência do governo americano, de fomentar esse modelo de luta anticomunista no período da Guerra Fria, que vai do pós-Guerra, em 1945, até o fim da União Soviética, em 1991.

Bevins foi correspondente do jornal americano The Washington Post no sudeste asiático e trabalhou para o britânico Financial Times em São Paulo, depois de ter atuado como jornalista um ano em Caracas. A experiência na América Latina e no sudeste asiático tornou mais fácil encaixar as peças entre cenários culturalmente tão distintos, quando ele teve acesso a documentos secretos recentemente liberados sobre a matança de comunistas na Indonésia.

Excetuando China e União Soviética, o Partido Comunista da Indonésia foi o maior partido comunista do mundo em sua época. A agremiação tinha penetração transversal na sociedade, e cumpria, além do papel político, uma função social, como agremiação de classe ou clube. A repressão e a matança iniciada em 1965 foi dirigida contra filiados e simpatizantes que não portavam armas e não estavam engajados numa luta doméstica por poder, mas que foram apresentados pela ditadura local como membros de um setor ideológico que deveria ser extinto.

Nesta entrevista, concedida ao Nexo por escrito, no dia 23 de junho, Bevins mostra como o conceito do “método Jacarta” empregado na Indonésia ecoou à época em grupos de extrema direita no Chile e no Brasil.

Bevins vai além. Avançando no tempo, até os dias atuais, ele analisa o uso do termo “ameaça comunista” como figura retórica que atravessa os anos e que, hoje, alavanca discursos extremistas da extrema direita, notadamente do presidente Jair Bolsonaro e de seus apoiadores no Brasil.

Por que revisitar hoje esse episódio da matança de 1 milhão de alegados comunistas na Indonésia de 1965?

Vincent Bevins Por três razões. Primeiro, porque nós sabemos mais sobre esses eventos hoje do que sabíamos antes. A verdade permaneceu oculta por décadas, e a liberação de novos documentos até então secretos jogaram luz sobre essa tragédia. Em segundo lugar, há conexões inexploradas entre esse massacre e a política latino-americana, que eu, por sorte, pelo domínio dos idiomas e pelo tempo de trabalho que tive na América Latina, pensei estar numa posição que permitiria explorar isso pela primeira vez. Em terceiro lugar, porque a herança da violência anticomunista nunca desapareceu no mundo e, de fato, voltou com muita força em diversos países, incluindo o Brasil.

Como se dá esse processo de mobilização do ódio político até levar a um genocídio como o da Indonésia nos anos 1960 ou de Ruanda nos anos 1990?

Vincent Bevins No caso da Indonésia, a motivação para essa violência foi sobretudo política, não racial, razão pela qual existe ainda hoje um debate sobre a classificação desse evento como um genocídio. A maioria das vítimas eram do maior grupo étnico indonésio, mesmo que membros da minoria étnica chinesa também tenham sido mortos com base exclusivamente em sua raça.

No início de 1965, algo entre 25% e 30% dos indonésios eram filiados ao pacífico e moderado Partido Comunista Indonésio, que era então o maior partido comunista fora da China e da URSS, além de ser também o maior partido comunista não armado da história.

As pessoas de esquerda na Indonésia nunca tinham se considerado rebeldes ou de alguma forma ameaçadas por suas convicções políticas. Elas eram parte de organizações legais e inocentes, como os sindicatos, grupos culturais ou associações de professores. Esse é precisamente o motivo pelo qual foi tão fácil matá-las.

Até o início de 1966, aproximadamente 1 milhão de pessoas foram executadas, e outras tantas foram colocadas em campos de concentração – unicamente em razão de suas convicções políticas – à medida que a recém-instalada ditadura Suharto se transformava numa das aliadas mais importantes dos EUA durante a Guerra Fria. Foram esses assassinatos massivos que tornaram o regime de Suharto possível.

Portanto, não foi o ódio indiscriminado ou a violência gratuita que tirou essas vidas. Foi uma violência organizada de Estado, que tinha um claro propósito.

Como se deu a conexão entre os protagonistas da Operação Jacarta e os militares brasileiros nos 1960?

Vincent Bevins É preciso dizer primeiramente que os assassinatos em massa de 1965 e 1966 não foram chamados de “Operação Jacarta” dentro da Indonésia. Eles foram chamados de Operasi Penumpasan, ou Operação Aniquilação. O termo “Operação Jacarta” foi usado nos anos 1970 no Brasil, assim como, ao mesmo tempo, a direita chilena passou a falar em “Plan Yakarta" (Plano Jacarta), usando a palavra “Jacarta” como parte de uma campanha de terror nas ruas de Santiago.

Mas voltando aos anos 1960, houve conexões importantes entre os golpes de 1964, no Brasil, e de 1965, na Indonésia. De uma perspectiva histórica abrangente, eu sustento que essas foram as duas vitórias mais importantes da Guerra Fria para o lado que, no fim, saiu vencedor. Ambos os casos levaram ao estabelecimento de regimes capitalistas autoritários, estáveis e duradouros, claramente alinhados ao campo ocidental anticomunista.

Nos dois casos, militares respaldados e treinados pelos EUA ficaram responsáveis por gerir esses países, implementando a “teoria da modernização” que estava em voga em Washington à época. Oficiais brasileiros e indonésios teriam sido treinados juntos em Fort Leavenworth, no Kansas, entre os anos 1958 e 1964, e ambos os golpes tinham como pretexto o combate a conhecidas lendas do repertório anticomunista, ameaças exageradas ou inventadas para justificar a instauração de governos de direita.

A semelhança mais marcante que encontrei nesse sentido é uma história – na verdade, uma mentira intencional – contada pelo regime de Suharto segundo a qual comunistas vis tinham esfaqueado membros das Forças Armadas até a morte no meio da noite. Essa foi a mesma história – igualmente falsa – que os militares brasileiros haviam contado sobre a Intentona Comunista em 1935.

Em todo caso, o golpe no Brasil foi muito, muito menos violento que o da Indonésia. O golpe de 1964 no Brasil foi relativamente “fácil”, uma vez que tantos militares e membros das elites econômica e política do país apoiavam a queda de João Goulart. Os EUA colocaram apoio militar à disposição das Forças Armadas brasileiras, mas nem foi preciso.

Só no início dos anos 1970 é que o termo “Jacarta” começou a ser usado no Brasil e no Chile para se referir a assassinatos em massa. Agora, como essa palavra chegou ao Brasil? Eis uma boa pergunta. É importante notar que essa palavra foi empregada de maneira muito similar tanto no Chile quanto no Brasil, nos anos em que militares brasileiros estavam ajudando grupos chilenos de direita a depor o então presidente Salvador Allende [1970-1973].

Foto: Str Old/Reuters - 11.09.1973
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General Augusto Pinochet em traje de gala do Exército do Chile e com faixa presidencial. Atrás dele, dois homens aparecem de relance no quadro

Muitas vezes se esquece quão ativo o Brasil foi no Chile, pois brasileiros estavam presentes no Estádio Nacional, em Santiago, enquanto agentes do regime Pinochet torturavam e matavam seus adversários, por exemplo.

No livro, nós rastreamos o primeiro uso do termo “Jacarta” no Chile, que apareceu escrito num muro da capital chilena para aterrorizar apoiadores de Allende, e como oficiais discutiram o “Plano Jacarta”. No caso do Brasil, nós não sabemos se a “Operação Jacarta” foi de fato uma operação [formal] ou um termo usado de maneira informal por elementos de extrema direita no meio militar. É possível que a “Operação Jacarta” é que tenha tirado a vida de Vladimir Herzog.

Vários testemunhos recolhidos pela Comissão da Verdade indicam que a morte de Herzog foi parte da Operação Jacarta, ou que Jacarta era a palavra usada para se referir às operações que levaram à morte dele. A mesma afirmação é feita por Mário Sérgio Moraes [historiador brasileiro], que me disse em entrevista que ele mesmo foi ameaçado diretamente pela Operação Jacarta por Ednardo D'Ávila [então comandante do Segundo Exército], em 1975. Há muitas evidências indicando que Jacarta tirou a vida de Vlado. Apesar disso, como eu disse, nós não temos uma confirmação definitiva de dentro das Forças Armadas, de que esse tenha sido o nome formal da operação.

Após a reação massiva à morte de Vlado, a mencionada “Operação Jacarta” nunca foi levada a cabo completamente no Brasil, e a violência, no caso brasileiro, nunca se aproximou daquela registrada na Indonésia.

No fim, houve centenas de milhares de vítimas da violência anticomunista na América Latina entre 1960 e 1990 – muito mais pessoas que as executadas pela URSS e seus satélites no mesmo período.

O que explica o fato de as palavras “comunismo” e “comunista” serem tão presentes ainda hoje na boca da extrema direita brasileira?

Vincent Bevins A histeria anticomunista funciona! Uma das coisas que tento mostrar no livro é como os movimentos globais de direita, esses mesmos que tanto sucesso tiveram em moldar o mundo em que todos vivemos no século 20, aprenderam uns com os outros, e aprenderam com a história. Algumas “tecnologias” de terror e repressão foram passadas através das fronteiras, e usadas muitas e muitas vezes. O mesmo pode ser dito sobre as estratégias de propaganda ideológica.

Está provado que, se você dissemina a versão de que existe uma conspiração abrangente e malévola em curso para destruir a nação, torna-se muito mais fácil justificar o uso de qualquer meio para pôr um fim a isso. Vimos essa técnica ser empregada exaustivamente durante e depois da Guerra Fria.

Creio que há, portanto, duas coisas a serem trabalhadas. A primeira é uma espécie de resíduo cultural – o fato de que essas crenças ainda estejam por aí é parte da natureza humana. Então, acho que Bolsonaro e muitas pessoas próximas a ele realmente acreditam que o comunismo é uma ideologia malévola única e global. Afinal de contas, essa foi a ideologia da ditadura militar na qual todos eles cresceram. Talvez possamos dizer até mesmo que é parte da ideologia hegemônica associada aos EUA ao longo do último século. Mas, em seguida, você tem essa exageração cínica do medo, que é algo eficiente. Se você quer fazer uma maldade, você deve sempre acusar seus inimigos, sejam eles reais ou imaginários, de serem ainda piores que você.

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