Qual é o papel dos brancos na luta contra o racismo

Ao ‘Nexo’ pesquisadora de relações raciais e professora da UFSC falou sobre vantagem estrutural experimentada pelos brancos na sociedade brasileira e o que é preciso fazer para passar do discurso à prática de combate ao racismo

    A população negra, pobre e periférica do Brasil sente de maneira mais profunda os efeitos sociais e econômicos da pandemia de covid-19. Além da crise sanitária, a violência policial cotidiana das comunidades aumentou, com mais mortes ocorridas em operações da polícia em comparação com 2019.

    Influenciados pelo contexto dos EUA, protestos com pauta antifascista, antirracista e pró-democracia emergiram em cidades brasileiras em junho. Manifestos pró-democracia também têm surgido para fazer frente a ações e declarações do presidente Jair Bolsonaro e seus ministros.

    Para ativistas e intelectuais negros, essas articulações da sociedade civil não contemplam a questão racial. Eles chamam atenção para o fato de que contemplar a questão racial é central para a democracia.

    Em um manifesto divulgado no domingo (14), a Coalizão Negra por Direitos defendeu que “qualquer projeto ou articulação por democracia no país exige o firme e real compromisso de enfrentamento ao racismo”, diz o texto.

    “Convocamos os setores democráticos da sociedade brasileira, as instituições e pessoas que hoje demonstram comoção com as mazelas do racismo e se afirmam antirracistas: sejam coerentes. Pratiquem o que discursam”, afirma o manifesto.

    Segundo a psicóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina, Lia Vainer Schucman, a passagem do discurso à prática antirracista por parte de pessoas brancas deve começar por uma reflexão sobre seu lugar na sociedade. Quanto mais poder se tem, mais se pode fazer.

    Nesta entrevista ao Nexo Schucman falou sobre o lugar de vantagem estrutural dos brancos na sociedade brasileira, sua falta de percepção sobre seu próprio pertencimento a um grupo social que possui privilégios e de que maneira pessoas brancas podem (e devem) participar da luta antirracista.

    O que é a branquitude? O que é ser branco em um país como Brasil?

    Lia Vainer Schucman Poderíamos ficar horas definindo o que é branquitude, mas, a priori, é um lugar de vantagem estrutural na sociedade racista. Não tem muito a ver com a posição política, filosófica do sujeito, com o que [a pessoa branca] pensa. Independente de concordar ou não com o racismo, ela tem vantagem estrutural, simbólica, que também pode ser chamada de privilégio.

    Todas as pessoas brancas adquirem privilégios na sociedade brasileira

    Se uma pessoa nasce branca, ela já nasce numa cultura que tem significados positivos – de confiabilidade, de competência, de inteligência, de beleza – compartilhados para aquilo que é ser branco, enquanto uma pessoa negra já nasce numa cultura que tem significados negativos [para ser negro].

    Então todas as pessoas brancas no Brasil adquirem privilégios dentro dessa sociedade, querendo ou não. Isso não é muito da escolha do sujeito. Há também um privilégio material que é muito forte e histórico, porque os brancos receberam terras logo que vieram para cá, os portugueses enriqueceram em cima de 400 anos de trabalho escravo. A branquitude é esse lugar de privilégio histórico, simbólico e material.

    O que liga a mim, Lia, que tenho uma história de ascendência judaica, com uma descendente de um português escravocrata? O que a gente tem de parecido? Nada. A única coisa que a gente tem de semelhante é que a gente tem vantagem estrutural. Se você tirar o racismo da branquitude, ela acaba. A única coisa que unifica todos os brancos é a vantagem estrutural. Não tem algo cultural parecido entre todos nós, a não ser um lugar de poder.

    Historicamente, qual tem sido de forma geral o comportamento da população branca brasileira diante da questão racial?

    Lia Vainer Schucman Negar o racismo. Dizer que racista é o outro, nunca você mesmo. Acreditar na democracia racial, ou seja, na ideia de mérito, de que, se esforçando, brancos e negros teriam as mesmas chances. E silenciar e deslegitimar a denúncia da população negra.

    [A consequência disso] é uma desresponsabilização. Brancos – até os brancos progressistas – têm se desresponsabilizado da questão racial como centro da desigualdade brasileira. É como se o racismo fosse um problema para os negros resolverem.

    Se a desigualdade racial fosse apenas um legado histórico que não fosse legitimado todos os dias, ela já teria sido resolvida

    Além da desresponsabilização e do silenciamento, há o que a professora Cida Bento chama de pactos narcísicos. Mais do que não se comprometer, os brancos também legitimam o racismo ao escolher sempre seus pares brancos – têm preferência por brancos quando há uma seleção de trabalho, nas relações afetivas. A escolha do branco é sempre pelo branco.

    Há um impedimento dos negros nos lugares de decisões econômicas e políticas e isso vai causando mais desigualdade. Porque se a desigualdade fosse apenas um legado histórico, que a gente não legitimasse todos os dias, em algumas gerações isso teria sido resolvido. Mas não, se vem aumentando, é porque há uma legitimação diária disso – no presente, não no passado.

    Você vê alguma mudança nisso no momento atual?

    Lia Vainer Schucman Minha leitura de conjuntura é que não vai dar mais para negar o racismo. Por exemplo, a Globo, que há alguns anos atrás colocava na novela uma pessoa com o livro do Ali Kamel [diretor de jornalismo da emissora] "Nós não somos racistas", não pode mais tomar essa posição publicamente.

    Publicamente, pode ser que as pessoas assumam que há racismo no Brasil. Isso já tem acontecido, vemos que as pessoas mais progressistas têm falado de raça. Agora, essa é uma mudança bastante discursiva. Eu não vejo mudanças em práticas diárias.

    Tem uma mudança no discurso, mas não há uma mudança, por exemplo, de maior inclusão de negros em posições de decisões políticas e econômicas no país, não tem uma diminuição no assassinato da população negra.

    O antirracismo não é uma posição teórica. Vem com uma série de proposições

    A gente tem um discurso que mudou. Agora, não sabemos se esse discurso irá se transformar em prática. Acho muito legal a frase com que termina o manifesto da Coalizão Negra por Direitos, que “a prática é o critério da verdade”.

    Acho que a parte mais importante que precisa se pensar sobre a posição dos brancos é que não existe uma luta antirracista teórica, discursiva. Não há como dizer 'eu não sou racista' e apoiar a menoridade penal. Quem é que vai ser preso? Quem é que vai morrer? Crianças negras. 'Eu não sou racista, mas estou apoiando a mudança das leis trabalhistas'. Quem é que vai ficar trabalhando de entregador sem nenhum direito? É o negro. Ou dizer 'Eu não sou racista mas apoio a privatização do sistema de saúde', sendo que quase 100% da população negra é dependente do SUS.

    O antirracismo não é uma posição teórica. Ele vem junto com um monte de outras proposições. Quando se entra na frente da luta antirracista, entra-se em várias outras frentes.

    Em discussões sobre racismo, é comum ver pessoas brancas adotarem uma posição defensiva e negarem ser racistas. Por que isso acontece?

    Lia Vainer Schucman Uma das características da branquitude é falar que quem tem raça é o negro, o indígena enquanto o branco é indivíduo, cada um responde por si mesmo.

    Por exemplo, eu, como branca, não respondo pelo Bolsonaro, o que ele faz não recai sobre a minha pessoa por eu também ser branca. Ninguém vira para uma pessoa branca e fala 'você, como branco, o que acha do Bolsonaro?'. Mas as pessoas falam 'você, como negro, o que acha do Pelé? O que acha do Obama?', como se todos os negros tivessem que responder pela raça como um todo.

    Branco responde por si mesmo sempre, então, quando ouvem “os brancos”, já começam a tremer. [Pensam] como assim, os brancos? Eu sou um indivíduo. São as mesmas pessoas que estão há 500 anos chamando os outros de negros e indígenas. É um lugar de muito conforto em que se olha o outro com uma lente com que não se olha a si mesmo, que é a da raça. Quem tem raça é o outro.

    Esse é um lugar muito característico da branquitude, a reação de não se entender como pertença racial. Brancos entendem que os negros estão em desvantagem por serem negros e não conseguem dar o passo seguinte, de enxergarem que estão em vantagem estrutural por serem brancos.

    Assumir a branquitude e o privilégio vem junto com perceber que você não é tão bom assim

    As pessoas brancas acreditam que todas as suas conquistas são conquistas individuais. Ao mesmo tempo que ser negro impede o acesso a muitos lugares, ser branco é uma porta aberta. Os brancos têm que começar a entender que os lugares em que eles estão na sociedade não são conquistas individuais.

    Não é mérito – o que não quer dizer que essa pessoa não tenha estudado, se esforçado. Mas a condição a priori para ter conseguido fazer tudo isso é ser branco nessa sociedade. Assumir a branquitude e o privilégio vem junto com perceber que você não é tão bom assim, você não é tão a mais que os outros. Então acho que se dar conta desse lugar retira do sujeito individual a sensação de conquista, de que conseguiu chegar por conta própria, de mérito, de autoestima.

    Outra questão é que as pessoas realmente acreditam que ser racista está no âmbito moral – se eu sou racista, eu sou uma pessoa ruim. Não que não seja, mas o que eu estou querendo dizer é que, no Brasil, todos nós aprendemos a ser racistas. É uma "ruindade" social, construída socialmente.

    Ser branco não é uma posição individual, é uma posição de grupo na estrutura social. A gente aprende a ser branco, tem um aprendizado de uma vida inteira de performar como branco. Não é que haja uma essência branca de sentimento de superioridade, mas a gente cresce numa sociedade que vai colocando aos brancos esse sentimento.

    As pessoas aprenderam isso, desde pequenas, porque está na cultura e as pessoas se constituem na cultura. A minha tese é que é impossível nascer no Brasil e não ser racista. Não é do âmbito moral – aprendemos a ser racistas. Isso não quer dizer que a gente não tenha a responsabilidade de construir um outro modo de aprender a estar na sociedade.

    Como fazer isso?

    Lia Vainer Schucman As pessoas sempre me perguntam o que é uma prática antirracista. Obviamente, não há prática antirracista se não houver, primeiro, uma conscientização do que é e como funciona o racismo na sociedade brasileira. Então, ela passa por um processo de consciência, mas a consciência por si só não é a prática.

    A partir disso, não existe receita antirracista que diga 'faça isso'. Primeiro porque os negros são heterogêneos. Uma pessoa pode se ofender com uma coisa, outra pode não se ofender, ou seja, não tem receita. Se você percebe que todos são diferentes e que são sujeitos como você, deixa, nesse momento, de precisar de uma técnica de como tratar uma pessoa negra. É uma técnica de como tratar pessoas.

    Mas há aquilo que se pode fazer do lugar em que se está na sociedade. O lugar de um branco na luta antirracista é diferente se ele for dono de uma empresa, se estiver no legislativo ou se for dono de um banco. Um dono de banco pode ser uma das pessoas que lutam por taxar fortunas, e isso tem a ver com o combate ao racismo porque as pessoas negras são as que pagam mais imposto em proporção, porque são as mais pobres.

    As pessoas querem ser antirracistas sem perder privilégios. Não existe essa possibilidade. Eu estava fazendo uma piada com uma amiga, de que vou dar um curso agora chamado ‘como parecer antirracista sem perder privilégios’, que é a demanda deste momento. ‘Quero ser antirracista mas quero ter minha empregada negra trabalhando durante a [pandemia de] covid-19’. Aí não dá.

    Por isso eu estou muito desconfiada deste momento histórico. Branco falando que não é racista é a história do Brasil. Não tem como fazer um manifesto de brancos antirracistas a não ser que se traga junto 500 mil comprometimentos a partir do lugar onde cada um está.

    Por exemplo, eu sou uma professora universitária, qual é o meu lugar na luta antirracista? Tenho bolsistas negros, luto pela ação afirmativa para a pós-graduação. O lugar de uma pessoa que trabalha no RH de uma grande empresa é a contratação e planos de carreira [de pessoas negras]. Quem está ligado a políticos tem que pressionar para a aprovação de leis ligadas à segurança pública, ao porte de drogas. Se você é um jornalista, seu lugar na luta antirracista é, quando for entrevistar pessoas – sobre todos os assuntos, não só sobre racismo – procurar pessoas negras que falam sobre aquele assunto de que só aparece a cara de branco falando.

    Quanto mais poder um branco tem, mais ele tem que fazer pela luta antirracista

    Por isso não tem uma receita, é preciso se perguntar 'em que lugar da sociedade eu estou?' para pensar em como contribuir. Uma vez uma mulher disse pra mim ‘Lia, sou dona de casa, o que eu posso fazer na luta antirracista?’ Falei, olha, quais são os desenhos que seu filho vê? Se só tem princesa loira de olho azul, você pode começar escolhendo os desenhos, porque ele já está construindo um padrão estético de beleza [centrado em pessoas brancas].

    Personagens negros não servem para os negros se sentirem representados apenas – embora isso seja muito importante –, mas para os brancos deixaram de se sentir o centro do mundo, o padrão de humanidade.Então, o que um branco pode fazer na luta antirracista? Se você é da equipe de marketing de uma empresa, você tem o que fazer. Se é uma dona de casa, educadora você tem o que fazer.

    Quanto mais poder um branco tiver, mais ele tem que fazer. Brancos ricos são os que mais podem fazer na luta antirracista, e são os que menos querem fazer.

    Qual a principal dificuldade de pessoas brancas em incorporar práticas antirracistas em seu cotidiano?

    Lia Vainer Schucman Mesmo que sejam bem intencionadas, muitas pessoas brancas que estão em lugares chave têm medo de incorporar práticas antirracistas em suas empresas, por exemplo, porque temem a resposta do movimento negro. [Se perguntam] ‘será que eu vou estar roubando o protagonismo do negro, será que estou fazendo a coisa certa’. Isso é algo que eu vejo muito porque dou consultorias para empresas.

    Eu acredito que esse medo também é racismo. As pessoas incorporam leis ambientais e ninguém tem medo dos ambientalistas, incorporam benefícios para os pobres e ninguém fica pensando ‘será que os pobres vão gostar, será que a gente não vai errar?’.

    Se errar, tenta de novo. Por que há esse medo gritante de errar na prática antirracista? O movimento negro não é uma pessoa – uma pessoa vai achar legal o que você faz, outra não e tudo bem.

    Há uma fragilidade muito grande de receber uma crítica neste lugar de brancos que faz parte dessa estrutura. Muita gente fala ‘bom então a gente só vai incorporar [práticas antirracistas] depois que a gente pensar muito’. Não é assim. Você começa a incorporar e vai ter erro e você vai levar porrada, vai ter pessoas negras falando que está errado. Ouve, reflete, e vai pra frente.

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