Uma morte por minuto: o presente e o futuro da pandemia no Brasil

Números chegaram a 1.473 num único dia. O ‘Nexo’ conversou com o infectologista Jean Carlo Gorinchteyn para entender onde estamos e para onde podemos ir

    Um morto por minuto. Essa foi a marca atingida pelo Brasil na pandemia do novo coronavírus na quinta-feira (4). Em 24h, foram 1.473 óbitos por covid-19, a doença causada pelo vírus. No total acumulado desde o dia 25 de fevereiro, somam-se 34.072 vidas perdidas, colocando o país na terceira posição do ranking global que contabiliza as vítimas, ficando atrás somente dos EUA e do Reino Unido – e superando a Itália.

    Mesmo diante desse cenário, governadores e prefeitos já começam a adotar medidas de reabertura do comércio, afrouxando o isoalmento social, recomendado por autoridades de saúde como forma de combater a disseminação das contaminações. Estados como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul buscam retomar suas atividades econômicas, apesar dos alertas vindos de virologistas e infectologistas de que o pior ainda está por vir.

    O país também conta com um presidente da República que minimiza a gravidade do problema e prioriza a questão econômica da crise. Jair Bolsonaro já chamou a covid-19 de “gripezinha” e em repetidas vezes ignorou recomendações vindas da OMS (Organização Mundial da Saúde), posicionando-se contra o isolamento social imposto por governos locais. Desde que as restrições ao comércio começaram, em meados de março, houve dificuldade em manter as pessoas em casa.

    O Brasil já teve dois ministros da Saúde demitidos por discordarem do presidente – os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. No atual estágio da crise sanitária, o setor é comandado pelo general Eduardo Pazuello, ainda como interino no cargo. Os dados disponíveis mostram que o governo federal não está conseguindo nem atingir as metas que traçou.

    O Brasil foi atingido pelo novo coronavírus num estágio posterior à China, epicentro inicial da pandemia, da Europa e dos Estados Unidos. Ainda assim, não conseguiu traçar uma estratégia capaz de controlar o novo coronavírus.

    Para entender o cenário atual e o prospecto para o futuro, o Nexo conversou com Jean Carlo Gorinchteyn, infectologista do hospital Emílio Ribas, em São Paulo.

    Como avalia a situação? O Brasil fracassou no combate ao coronavírus?

    Jean Carlo Gorinchteyn Nós tivemos tempo para ter escrito uma nova história. Tivemos tempo para preparar melhor as instituições, os hospitais de campanha, as equipes médicas e paramédicas.​​​

    Mas nem todos os estados fizeram o dever de casa. Nós já sabíamos que tínhamos um sistema de saúde enfraquecido, com problemas, e que a última coisa que precisávamos era de uma pandemia como essa, com um grande número de internações em UTIs.

    Muitos estados, em especial nas regiões Norte e Nordeste, não se prepararam da forma que deveriam, imaginando, talvez, que por se tratar de um país tropical, com temperaturas mais altas, o impacto fosse menor, como não foi.

    Qual a perspectiva a partir de agora? Tende a piorar?

    Jean Carlo Gorinchteyn O aspecto de melhora ou piora está intimamente relacionado ao que se revela nos hospitais. Se eu tenho uma elevação do número de casos, mas ao mesmo tempo tenho um percentual de Unidades de Terapia Intensiva disponíveis, junto com a identificação precoce das confirmações, há uma tendência de melhora. ​​​

    Por que temos mais casos em São Paulo? Porque se propôs a testar mais. Não só testar, mas testar pessoas que tenham menos sintomas, e não deixar as pessoas agravando a própria condição clínica.

    E se identificou aqueles pacientes com cenários de risco, pacientes que poderiam sim evoluir de uma forma mais grave e fatal, especialmente nas comunidades. Essas pessoas foram colocadas em hospitais de campanha, houve uma internação mais precoce.

    Tanto é que o percentual de UTIs disponíveis, apesar do número de casos, acabou aumentando, justamente por isso.

    O que explica a flexibilização das quarentenas locais?

    Jean Carlo Gorinchteyn Quando falamos de flexibilização em alguns estados e municípios, isso é natural, porque, apesar dos casos, não há impacto nas UTIs, com uma reserva de leitos caso haja um aumento nos números – que vai acontecer, já que a circulação de pessoas e do vírus vai aumentar. ​​​

    Mas, é necessário uma vigilância para que a população não acredite que uma flexibilização é uma abertura plena e total, que é o que tem acontecido, infelizmente.

    As pessoas entenderam que flexibilização é liberação, então há mais pessoas nas ruas, mais carros. As pessoas foram confinadas por dois meses, e ela têm questões para quererem estar na rua, sejam financeiras, sejam relacionadas às próprias liberdades. Isso que nos preocupa, e não a flexibilização em si.

    Se você me perguntar se eu sou favorável a uma flexibilização acordada com a população, com orientação em relação a isso, eu digo que sim.

    Qual o papel do presidente Bolsonaro nesta crise?

    Jean Carlo Gorinchteyn Eu entendo que qualquer político se olhar só para a saúde, prejudica a economia. E se olhar só para a economia, prejudica a saúde. ​​​

    Por isso, qualquer político precisa fazer uma composição das duas partes, juntando saúde e economia. Os países que abriram seus comércios não voltaram com uma economia pujante. Olhar de forma extrema para um ou outro lado, quem perde é a população.

    Um acordo comum entre os políticos seria muito bom para que a população pudesse entender, compreender e aderir às tratativas necessárias.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.