Qual o papel político das torcidas organizadas no Brasil

Atos pró-democracia liderados por torcedores marcaram a volta da oposição a Bolsonaro às ruas. O ‘Nexo’ conversou com o sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda sobre o espaço ocupado por esses grupos

    Torcidas organizadas de diferentes times foram às ruas em diversas cidades brasileiras no domingo (31). Em São Paulo, torcedores palmeirenses, são-paulinos e santistas se juntaram a membros da Gaviões da Fiel, maior torcida corinthiana, em ato a favor da democracia, organizado pelos alvinegros da capital. No Rio de Janeiro, a manifestação com a mesma pauta foi liderada por um grupo de torcedores do Flamengo. E em Belo Horizonte, grupos antifascistas de torcedores de Atlético, Cruzeiro e América também ocuparam a rua.

    As bandeiras democráticas levantadas pelas torcidas organizadas fizeram contraponto a grupos bolsonaristas que manifestavam apoio ao governo e oposição ao Supremo Tribunal Federal e o Congresso. No lado favorável ao presidente Jair Bolsonaro apareciam símbolos da extrema direita, como bandeiras de movimentos neonazistas ucranianos.

    As torcidas antifascistas – ou 'antifa' – vêm se multiplicando no Brasil em anos recentes, e fazem oposição a ideias antidemocráticas e movimentos de extrema direita.

    Os atos em São Paulo e Rio de Janeiro terminaram em confrontos com a polícia. As cenas incluíram correria, bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e barricadas nas ruas. Na capital paulista, relatos de jornalistas presentes dão conta de que os conflitos foram iniciados após provocações dos grupos bolsonaristas. À CNN Brasil, o coronel Álvaro Batista Camilo, secretário-executivo da Polícia Militar de São Paulo, disse que a confusão teve início quando um manifestante contrário a Bolsonaro tentou pegar uma das bandeiras ucranianas que estava com um manifestante favorável ao presidente.

    Desde o agravamento da pandemia do novo coronavírus no Brasil, em que aglomerações vão contra as recomendações de autoridades sanitárias, atos de rua têm sido organizados principalmente por apoiadores do presidente, que em grande parte se posicionam contra as medidas de isolamento social decretadas por governadores para conter a doença. Entre os torcedores à frente dos protestos pró-democracia, havia a ideia de assumir um protagonismo e tomar as rédeas das manifestações de oposição ao governo. Chico Malfitani, fundador da Gaviões da Fiel que estava presente no ato da Avenida Paulista, disse ao portal de notícias UOL que a intenção era “riscar o primeiro fósforo”.

    Para entender o papel político ocupado pelas torcidas organizadas no Brasil, o Nexo conversou com Bernardo Buarque de Hollanda, professor da Escola de Ciências Sociais da FGV e pesquisador do FGV-CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil).

    Em qual contexto vemos as torcidas organizadas assumindo o protagonismo nos protestos pró-democracia?

    Bernardo Buarque de Hollanda Acho importante primeiro enquadrar em um contexto histórico mais amplo que é, inclusive, internacional. Vem desde a chamada Primavera Árabe, quando tivemos o protagonismo de torcidas em participações políticas, manifestações e protestos. No contexto sul-americano mais recente, podemos mencionar o caso do Chile, onde, no ano passado, tivemos protestos contra o governo [de Sebastián] Piñera e também houve grande adesão de torcidas chilenas – também muito rivais entre si. Isso é uma tradição que vem da Europa, de grupos chamados “ultras” que se posicionam.

    Para tratar do caso brasileiro, você tem o crescimento das torcidas antifascistas, que é algo mais recente dos últimos anos, e que vêm crescendo do ponto de vista de participação em redes sociais e também nas arquibancadas. E se junta a isso as chamadas torcidas organizadas tradicionais, que têm um contexto histórico do final dos anos 1960, que coincidiu com o período da ditadura militar – isso é parte da retórica, dos mitos de origem, mas está ancorado na memória das torcidas. Ou seja, são torcidas que surgiram no período da ditadura militar e que, em parte, lutaram contra os processos autoritários que havia dentro da política dos próprios clubes. Elas surgem com essa posição de fiscalização, insurgência e questionamento das estruturas clubísticas que, de alguma maneira, reproduziam estruturas sociais maiores.

    No contexto atual, essas torcidas têm sido criminalizadas, judicializadas, excluídas dos estádios. São grupos com uma capacidade de mobilização grande e que evidentemente tiveram suas divisões internas – grupos que aderiram a Bolsonaro e grupos que se posicionaram contra; até alguns conflitos entre as bases das torcidas e as cúpulas. Então tudo isso é parte desse caldeamento que originou as manifestações.

    Por que as torcidas organizadas encabeçaram o protesto pró-democracia ontem em São Paulo e outras cidades?

    Bernardo Buarque de Hollanda Ontem marcou uma certa inflexão naquilo que vinha sendo uma aparente hegemonia bolsonarista nas ruas. Até então – por conta inclusive das recomendações para as pessoas não saírem às ruas – isso estava sempre muito colado a essa vanguarda bolsonarista que estava mais propensa a não seguir as normas e recomendações.

    O protagonismo das torcidas ontem mostrou uma certa capacidade de resistência e enfrentamento que até então não se acreditava no sentido dos grupos ligados a Jair Bolsonaro. Isso colocou um divisor de águas.

    É interessante que as torcidas tenham assumido esse protagonismo. E é interessante que, de alguma maneira, elas entram num certo vácuo nas esquerdas tradicionais – seja partidos políticos, seja sindicatos ou outros movimentos –, com um tipo de mobilização social que é diferente, que até desarma a retórica antipetista que é muito forte nos grupos bolsonaristas. Porque você via que não eram pessoas com perfil político tradicional, aliado a grupos da esquerda tradicional. E isso foi um fator surpresa.

    Há uma sinalização de um progressivo tensionamento das ruas, que já não estão dominadas ou hegemonizadas pelos grupos bolsonaristas. Claro que isso vai depender dos próximos passos da conjuntura política, que está mudando muito rapidamente, a cada dia. Mas existe aí um sinal de que a tendência é de maior volume de pessoas na rua e também de um maior enfrentamento. Ontem foi ainda uma coisa mais ou menos espontânea, mas que tende, de ambos os lados, a se orquestrar, se organizar, com potenciais danos que não podemos prever.

    A política é um tema central nas torcidas organizadas hoje? Que papel ela assumiu em outros momentos?

    Bernardo Buarque de Hollanda Isso coincide com determinados períodos históricos, em que isso aflora mais ou menos. Por exemplo, eles têm também essa questão inicial da ditadura militar, tem o processo de redemocratização, onde houve participação nas Diretas Já. Então, há alguns marcos em que a visibilidade das torcidas foi além da esfera esportiva. E sabemos, evidentemente, que isso depende de determinadas lideranças, ou seja, da vinculação social das lideranças, que vai estimular ou não essa adesão a algumas bandeiras mais gerais.

    A gente tem também hoje uma Associação Nacional das Torcidas Organizadas que, inclusive, se vê como um movimento social. Temos esses grupos antifa que também têm um perfil associado a um novo público que está frequentando os estádios. Então temos novos grupos de torcidas que são diferentes das torcidas tradicionais e hegemônicas que a gente conhece, as grandes torcidas, e que têm a ver também com uma mudança no perfil de frequentadores de estádios. É um perfil às vezes até mais estudantil, com até alguma formação e esclarecimento do ponto de vista de consciência política, que estimula esses grupos mais à esquerda a atuar.

    Qual o espaço ocupado pelo antifascismo dentro das organizadas?

    Bernardo Buarque de Hollanda Podemos ver que, em muitos casos, são grupos autônomos. Eles têm a ver com uma série de movimentos que foram criados nos anos 2000 e sobretudo 2010, que começaram com uma renovação da ideia de torcida organizada. Houve uma certa insatisfação desses grupos com organizadas tradicionais, que se multiplicou nos chamados coletivos, nas torcidas de alento, em grupos que atuam com novas pautas, como a questão do machismo, do racismo e da homofobia, que não são temas originais da pauta das torcidas organizadas tradicionais.

    Elas [as torcidas antifascistas] vão crescendo também num certo vácuo, em alguns estados do Brasil, de torcidas organizadas tradicionais que estão, neste momento, proibidas judicialmente de entrar nos estádios. Então, temos essa combinação de grupos autônomos com algumas torcidas organizadas que têm esse discurso originário contra a ditadura, no caso da Gaviões – mas mesmo a diretoria da Mancha Verde foi muito enfática em reprimir grupos fascistas e nazistas entre seus componentes.

    Nesse sentido, podemos dizer que há mais uma coexistência, uma espécie de miríade de grupos e subgrupos que estão atuando hoje em dia. E esse é um fenômeno interessante, porque passa pela questão da identidade clubística: como, nesta atual conjuntura, o futebol – que originalmente é visto como um meio de alienação – está sendo um vetor de aglutinação de identidades coletivas para fazer frente a um contexto e uma conjuntura política maior.

    O senhor mencionou as pautas identitárias (feminismo, racismo e LGBTI). Como elas são vistas e tratadas dentro das organizadas hoje em dia?

    Bernardo Buarque de Hollanda É um espaço em disputa, que não é consensual. Tradicionalmente, as torcidas são compostas majoritariamente por homens – 80%, 90% das bases são uma base juvenil masculina. Então sempre o ethos da virilidade e da masculinidade foi muito acentuado. Havia pressões físicas e toda sorte de agressões verbais em relação a isso.

    É um momento em que esses próprios grupos estão se redefinindo e lidando com essa questão. Alguns grupos têm maior facilidade em aceitar, outros menos. É um ponto que está em questão, e a existência desses outros grupos antifascitas e torcidas gays que estão surgindo nas redes sociais faz com que tenham de rever isso. Essa é uma discussão que também passa pelo politicamente correto, uma série de discussões interessantes que me parece que tem a ver com a mudança do perfil social de quem frequenta os estádios.

    Por que as torcidas organizadas são comumente associadas ao crime e à violência? Essa visão é correta?

    Bernardo Buarque de Hollanda É um processo que vem do crescimento desses grupos de maneira quantitativa muito grande, que remonta aos anos 1990. E que tem a ver também com a vida social nas periferias e nas comunidades onde esses grupos cresceram muito. Seria uma ingenuidade dizer que não há relação, até porque vemos como o tráfico cresce, se impõe em muitas dessas comunidades. Ainda mais se você pensar que é um meio juvenil, voltado para o lazer – pensar que não há consumo de drogas em um grupo de torcedores organizados seria uma hipocrisia. Porque essa é uma realidade que está disseminada no tecido social como um todo.

    Em parte isso é reflexo, em parte isso foi canalizado. E há também variações conforme os grupos. Isso tem que ser considerado, mas é uma questão de ordem social mais ampla, e não efetivamente ligada ao princípio da torcida, que é sua vinculação com o futebol, com o apoio a seus clubes. É algo que acontece porque os indivíduos pertencentes a essa realidade estão situados socialmente nessas áreas mais vulneráveis em que o tráfico de drogas opera, em que a linguagem da violência é uma linguagem ainda muito forte.

    Esse é um ponto que está no centro das grandes torcidas organizadas: como lidar com o crescimento desses grupos e com a dificuldade de controlar o comportamento desses grupos nas suas comunidades de origem. Se rivalizam não só entre torcidas de diferentes clubes, mas do mesmo clube e da mesma torcida. Esse é um fenômeno bastante complexo, seja a questão da violência, seja a questão do tráfico.

    A relação histórica entre a polícia e as organizadas explica a repressão aos atos de ontem?

    Bernardo Buarque de Hollanda Sim, acredito que existe já um modus operandi de lidar com esses grupos, que é a maneira da estigmatização. Tanto no caso de São Paulo como do Rio, [a repressão] foi uma coisa residual, mais para o final das manifestações. Mas claramente havia uma ideia de que um grupo devia ser protegido e outro grupo devia ser atacado. Isso talvez é parte de algo que esteja internalizado na corporação da Polícia Militar, no sentido de quem é o seu potencial inimigo.

    Acho que de alguma maneira isso foi transposto de uma lógica de vigilância que existe dentro dos estádios. Lembrando que esse tem sido o modus operandi contra manifestações populares que acontecem e que são rapidamente finalizadas com bombas que são soltadas a esmo, sem muita razão evidente para que haja uma certa desproporcionalidade no modo como a polícia lida com grandes manifestações.

    Isso também se catalisou porque já havia essa predisposição para lidar com as torcidas dessa forma. E você tem um espaço público de manifestação como também um espaço de atuação das polícias que, em geral, se baseia numa certa desproporcionalidade de forças. Estamos vendo também todo esse caldeirão de protestos nos EUA; sabemos que essas coisas também têm influências conscientes e inconscientes sobre o modo como as corporações, que são forças do aparelho repressivo do estado, costumam atuar nesse cenário.

    Qual o significado da união das organizadas neste momento? Por que isso ocorreu justamente em um momento de polarização e radicalização?

    Bernardo Buarque de Hollanda Num certo sentido, esse acontecimento foi um sucesso, um êxito. É realmente um processo interno muito difícil você abstrair essas rivalidades históricas que incluem confrontos, perdas fatais.

    Mas a gente viu que havia um pacto ali, um entendimento de que aquele era um momento de abstração daquelas rivalidades. Podemos pensar, por exemplo, que tínhamos em peso ali a Gaviões da Fiel e não tínhamos a Mancha Verde. Se eventualmente tivéssemos, seria um pouco mais complicado contornar aquela tensão. Mas, num certo sentido, pode-se dizer que foi exitosa a presença não só das grandes organizadas, mas também desses coletivos e movimentos de torcida que têm outros princípios. Foi simbólico que não tivesse nenhum tipo de estranhamento e enfrentamento entre esses grupos que são rivais.

    A mais recente união nesse sentido foi quando aconteceu a tragédia da Chapecoense, em 2016, e houve uma ação conjunta das torcidas, que foi também histórica no sentido de reunir todos esses grupos maiores e mais antagonistas. Isso foi um segundo momento, porque esses grupos percebem que eles estão sendo cada vez mais empurrados pelo poder público para a marginalidade. E isso faz com que suas lideranças se articulem, no sentido de que precisam somar forças para continuarem existindo e vivendo em função do futebol profissional. Então teve também esse significado de existência jurídica de grupos que estão sendo asfixiados economicamente – pelos ingressos caros –, e juridicamente, por cada vez mais o Ministério Público impedir sua presença dentro dos estádios.

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