Pabllo Vittar: ‘Faço meu trabalho com amor e consciência’

A estrela drag falou com o ‘Nexo’ sobre a mistura de sons de seu terceiro álbum, ‘111’, e o papel questionador da arte 

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    Uma das maiores estrelas da música pop brasileira atual, Pabllo Vittar fez sua primeira live solo durante a pandemia do novo coronavírus em 22 de maio. Transmitindo por mais de duas horas e meia de sua casa, com tema de festa do pijama, a cantora drag superou a marca de 1,67 milhão de visualizações em menos de uma semana.

    A iniciativa arrecadou doações para a Casa 1, projeto de São Paulo que funciona como centro cultural, clínica social e local de acolhimento para pessoas LGBTI que foram expulsas de casa.

    “A música tem um papel importante, como na saúde emocional. Cada um da sua casa fazemos um show incrível a cada apresentação. Minha sala se torna um palco e a sala das pessoas, uma plateia emocionante”, afirmou Pabllo ao Nexo, em entrevista concedida por e-mail antes da live.

    A transmissão apresentou faixas de seu terceiro álbum, “111”, lançado dois meses antes. O disco procura consolidar o êxito de Pabllo no mundo pop nacional enquanto mira outros territórios, ao incluir faixas cantadas em inglês e espanhol.

    As participações de convidados também mostram abrangência. Entre as nacionais, Ivete Sangalo e a banda de pagode Psirico. De fora do Brasil, a badalada popstar inglesa Charli XCX e a estrela mexicana Thalía, que Pabllo via na TV quando criança como protagonista da novela “Maria do Bairro”.

    Há um passeio por estilos que vão do arrocha à música eletrônica. O álbum fecha com “Rajadão”, que congrega sons sintéticos experimentais com o que soa como uma letra de louvor gospel. Tanto que inspirou um post da estrela gospel Priscilla Alcântara em que ela dança ao som da música. Segundo disse à revista americana Billboard, durante a gravação do álbum Pabllo estava ouvindo estilos como “house music, brega funk, techno, reggaeton, um monte de ritmos brasileiros diferentes”.

    Foto: Ryan McGinley/Calvin Klein/Reprodução
    Pabllo Vittar posa sem peruca com mão em um dos olhos. O outro está fechado
    Pabllo Vittar posa para campanha da Calvin Klein do mês do orgulho LGBTI

    O voo internacional de Pabllo contava com importantes apresentações no exterior em 2020, incluindo shows nos festivais Coachella (EUA) e Primavera Sound (Espanha). Ambos foram cancelados por causa da pandemia. Mas a cantora já foi confirmada para a edição 2021 do festival espanhol.

    Enquanto isso, seu rosto vai ficando mais conhecido fora do país. Em 14 de maio, a marca de roupas Calvin Klein anunciou Pabllo como uma das nove personalidades queer que estrelam sua campanha para o mês do orgulho LGBTI nos Estados Unidos. As fotos trazem uma Pabllo “desmontada”, sem peruca e com pouca maquiagem.

    Leia a seguir a entrevista do Nexo com Pabllo Vittar.

    Você disse que seu novo álbum traz mais experimentações artísticas. Pode contar um pouco sobre o que tentou trazer de novo nesse trabalho?

    PABLLO VITTAR Cada álbum que lanço, gosto de me experimentar em diferentes aspectos. Desta vez eu trouxe músicas em diferentes idiomas, o que ainda não tinha feito. Canto em inglês e espanhol, além do português. Também fiz mistura de batidas e ritmos, por exemplo, como podem ver em “Amor de quê”, que tem um ritmo brega romântico, em “Rajadão” com a batida eletrônica e em “Tímida”, com sonoridade latina. “111” traz muito daquilo que eu sou, do que acredito e das minhas referências artísticas.​

    As pessoas dizem que a Pabllo é um símbolo. O que você acha que simboliza? Para quem?

    PABLLO VITTAR Eu faço o meu trabalho com verdade, alegria, amor e consciência. Acredito que as pessoas sintam isso através da minha música e das minhas apresentações e se identificam de alguma maneira com a mensagem que transmito. Me sinto honrada em poder ter esse lugar de fala e por tantas pessoas se verem representadas por mim.​

    Vejo muitos comentários em vídeos seus do tipo “sou heterossexual, mas confesso que adoro Pabllo Vittar”. Como você vê esse tipo de reação?

    PABLLO VITTAR Que cada um pode escutar o som que quiser independente de sua sexualidade. Criar barreiras ou diferenciações em pleno 2020 é um pensamento ultrapassado. A música é plural e devemos respeitar uns aos outros muito além da música ou das redes sociais.​

    Você sente isso como uma grande responsabilidade? Existe uma cobrança maior, você tem menos espaço para errar?

    PABLLO VITTAR Todo artista carrega responsabilidade junto a si, mas somos todos seres humanos e estamos suscetíveis a erros e aprendizados, faz parte da música. Tento trazer sempre um trabalho feito com amor para as pessoas, transmitindo aquilo que eu acredito e espero que todo mundo goste do resultado.​

    Você ficou famosa durante uma época muito conservadora no Brasil. Como você vê esse Brasil conservador, religioso, moralista, reagindo ao seu sucesso?

    PABLLO VITTAR O mundo tem enfrentado diferentes ciclos nos últimos anos. Precisamos procurar ter entendimento sobre o que está acontecendo para poder construir o futuro que sonhamos.​

    Muitos artistas vêm se colocando politicamente, alguns acham até que é um dever você se posicionar no contexto atual. Qual o lugar da política, do ativismo, na sua vida e trabalho?

    PABLLO VITTAR Eu acho incrível que cada artista seja livre para se expressar da maneira que quiser. Ser artista já é um ato político, sinto isso com o meu trabalho. O artista questiona e apresenta visões de mundo que não estão sempre em acordo com todos. Acho válido boa parte dos posicionamentos que vem acontecendo.​

    Uma boa parte de suas músicas fala sobre amor e relacionamentos. Você acha que assim alcança um público maior?

    PABLLO VITTAR Na verdade eu falo sobre muitos assuntos, e também sobre amor e suas diferentes formas de se sentir e expressar quanto a isso. Não faço música pensando em aumentar meu público, mas sim para mostrar para as pessoas quem é Pabllo Vittar, o que eu sinto, o que eu penso e quais as minhas referências. Sou muito grata por tantas pessoas se identificarem com o meu som.​

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