‘A Israel imaginária do bolsonarismo está longe da realidade’

Michel Gherman, do Núcleo de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, fala ao ‘Nexo’ sobre a relação do bolsonarismo com país do Oriente Médio e povo judeu

    A Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), responsável pela comunicação social da Presidência, publicou nas redes sociais em 10 de maio uma mensagem que dizia: “o trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”. Abaixo da mensagem, havia um vídeo com críticas à imprensa e imagens de enaltecimento de ações do governo durante a pandemia do novo coronavírus. O vídeo também terminava com a frase “o trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”.

    A frase usada pelo órgão oficial do governo se assemelha ao lema “o trabalho liberta”, conhecido por estar inscrito em alemão no portão de entrada do campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia – um dos maiores símbolos do regime da Alemanha nazista.

    Questionada a respeito do uso do lema, a secretaria rechaçou qualquer referência e disse que o Estado brasileiro é um parceiro da comunidade judaica. Em seu perfil pessoal nas redes, o chefe da Secom, Fabio Wajngarten, criticou a reportagem do portal UOL que apontou inicialmente a semelhança entre as frases, fazendo também críticas gerais à imprensa.

    “Se utilizam de analfabetismo funcional para interpretar errado um texto e associar o governo ao nazismo, sendo que eu, chefe da Secom, sou judeu!”

    Fabio Wajngarten

    chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência), em postagem nas redes sociais em 10 de maio de 2020

    O vídeo de Roberto Alvim

    A nota da Secom não é a primeira vez que o governo Bolsonaro faz alguma publicação que levanta associações com o nazismo, que promoveu um genocídio de judeus no período da Segunda Guerra Mundial. Em 16 de janeiro de 2020, a Secretaria Especial da Cultura do governo federal publicou um vídeo em que o então chefe da pasta, Roberto Alvim, copiava uma fala de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler. Além dos elementos da fala, o vídeo trazia referências à estética nazista, como a trilha sonora.

    O episódio levou à demissão de Alvim no dia seguinte, após forte pressão sobre o governo de Jair Bolsonaro. A repercussão negativa do vídeo ocorreu tanto nas redes sociais como entre aliados do presidente e políticos em Brasília.

    As referências de Alvim à Alemanha nazista suscitaram reações da comunidade judaica no Brasil. A Conib (Confederação Israelita do Brasil) publicou uma nota condenando o discurso. A Federação Israelita do Estado de São Paulo também repudiou a fala de Alvim.

    A bandeira de Israel nos atos bolsonaristas

    Uma semana antes da postagem da Secom, o presidente Jair Bolsonaro fez aparição em um ato contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, bandeiras de Israel foram usadas por apoiadores do presidente, o que repercutiu negativamente dentro de parte da comunidade judaica brasileira.

    A associação de Bolsonaro à bandeira de Israel não é nova e está ligada, de um lado, à aproximação do Brasil com Israel enquanto aliado geopolítico – algo que está na agenda do presidente desde que foi eleito em 2018. Esse movimento também está relacionado à aposta do governo brasileiro em se alinhar aos interesses diplomáticos dos EUA, aliado histórico de Israel.

    Além disso, a adoção da bandeira de Israel como símbolo bolsonarista está ligada ao cultivo da base eleitoral evangélica neopentecostal. A ligação dos evangélicos brasileiros com Israel é marcante. Além da alusão a símbolos e ritos originais do judaísmo, muitos pastores também sobrepõem a defesa do Estado de Israel – e mais particularmente a defesa das políticas levadas a cabo pelo atual premiê do país, Binyamin Netanyahu – aos aspectos bíblicos relacionados à “terra prometida”.

    A bandeira de Israel e o judaísmo

    A princípio, a bandeira de Israel se refere a um país. Mas o próprio Estado de Israel foi fundado em 1948 sob o propósito de ser o “Estado judeu”. Nesse contexto, o país adotou símbolos religiosos, como a estrela de Davi, presente na bandeira do país.

    Ao portal Yahoo! Notícias o cientista social Daniel Douek, diretor-executivo do Instituto Brasil-Israel, explicou que, por conta desse movimento, o Estado de Israel e a religião judaica acabam se misturando.

    “Essa mistura [de judeus e Israel] está presente dentro do próprio caráter do Estado”

    Daniel Douek

    cientista social e diretor-executivo do Instituto Brasil-Israel em entrevista ao portal Yahoo! Notícias

    A relação da comunidade judaica com Bolsonaro

    A comunidade judaica no Brasil é diversa e plural. Assim como no judaísmo no restante do mundo, há diferenças ligadas às origens geográficas das famílias, que dividem os judeus em diferentes grupos. Os dois principais são os ashkenazim, ligados a uma origem geográfica e histórica na Europa não-Ibérica, e os sefaradim, ligados a países árabes, Espanha e Portugal.

    A diversidade dentro das comunidades judaicas também está relacionada às diferentes correntes em que se separa o judaísmo. Há diversas variações dentro da religião; as três principais são as correntes ortodoxa, reformista e conservadora.

    Além das correntes religiosas e das origens geográficas, a comunidade judaica também mostra diversidade na política. Há, entre os judeus brasileiros, os mais diversos posicionamentos. E a própria relação com o governo Bolsonaro é variada, como explicou ao Nexo o professor de história da UnB (Universidade de Brasília) Bruno Leal em entrevista publicada em 25 de janeiro de 2020:

    “É uma relação que reflete a heterogeneidade dessa comunidade e da própria sociedade brasileira como um todo. Há judeus que apoiam e judeus que não apoiam o governo do presidente [Jair Bolsonaro]”

    Bruno Leal

    professor de história na UnB e pesquisador associado do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, em entrevista ao 'Nexo' publicada em 25 de janeiro de 2020

    Uma análise sobre Bolsonaro e os símbolos de Israel

    Os atos de maio de 2020 não são a primeira vez que a bandeira de Israel é usada em atos a favor do presidente. E sua presença não é recebida de forma homogênea na comunidade judaica brasileira. Entre os contrários à presença da bandeira nos atos bolsonaristas está o presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Fernando Lottenberg. Em nota no início de maio, ele criticou o uso da bandeira em atos antidemocráticos.

    “A Conib tem um firme compromisso com a democracia e com as liberdades públicas e lamenta a presença de bandeiras de Israel, uma democracia vibrante, em atos em que ocorrem ataques às instituições democráticas”

    Fernando Lottenberg

    presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), em nota publicada em 4 de maio de 2020

    Para entender a relação do governo Bolsonaro com símbolos ligados a Israel, o Nexo conversou com Michel Gherman, doutor em história, colaborador do Instituto Brasil-Israel e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O que explica o interesse de Bolsonaro em se associar a símbolos ligados a Israel e ao judaísmo?

    Michel Gherman Os símbolos de Bolsonaro chegam ao judaísmo depois de passar por vários caminhos tortuosos. Bolsonaro está vinculado a uma agenda de extrema direita, a uma agenda profundamente vinculada a uma releitura do nazismo, a uma releitura de perspectivas civilizatórias cristãs, a uma releitura de referências do fundamentalismo cristão. E ele chega aos símbolos judaicos a partir desses caminhos. Ou seja, quando ele chega nos símbolos judaicos, eles já estão contaminados com perspectivas que de judaicas têm pouco.​

    Os símbolos são feitos para serem utilizados politicamente pelas pessoas que os utilizam. Quando vemos uma estrela de Davi, temos que entender o que significa a estrela de Davi. No caso de Bolsonaro, ela significa muito pouco de judaísmo, e muito de civilização judaico-cristã, que é um conceito produzido e reinterpretado pela nova extrema direita. Ela representa a barreira armada contra o Oriente, tem a ver com a extrema direita armamentista. Ela representa o fundamentalismo cristão e uma perspectiva neopentecostal. Bolsonaro dialoga com o que chamamos de “Israel imaginária”, e não com Israel.

    O que seria a ‘Israel imaginária’?

    Michel Gherman A “Israel imaginária” tem a ver com demandas específicas de uma extrema direita que olha para um lugar mítico, mágico – ou um não-lugar – que responde a suas demandas políticas.​

    O judeu imaginário da extrema direita vem direto de um suposto reino da Judeia, de um suposto reino de Davi, de um suposto reino de Salomão. E vem direto para essa agenda neofascista do bolsonarismo. É um judeu que não passa pela modernidade, pelo liberalismo, pelo socialismo; que não passa por perspectivas civilizatórias típicas da Europa. É um judeu absolutamente desconectado da história. É um judeu conectado a um tempo imaginário.

    E essa Israel também é conectada com um tempo imaginário. A Israel real é uma Israel com uma sociedade civil que, por exemplo, em termos de bandeiras morais, está muito longe dessas demandas que o bolsonarismo tem. A Israel real é uma Israel que tem uma esquerda, que tem partidos árabes. Então, produzindo a Israel imaginária, você tem que silenciar a Israel real, além de silenciar o judeu real – em algum sentido, matando o judeu real, tirando sua voz.

    Como avalia a presença da bandeira de Israel em atos a favor do presidente e contra o Congresso e o Supremo?

    Michel Gherman Para mim, é um símbolo importantíssimo em termos de pesquisa, porque comprova que símbolos podem passar por mudanças radicais. A “Israel imaginária” ou o “judaísmo imaginário” de Bolsonaro acabam vinculados a manifestações que nada têm a ver com as perspectivas originais desses símbolos. “Judeus imaginários” e “Israel imaginários” às vezes têm que matar os judeus reais e a Israel real para poder se fortalecer como símbolos.​

    Como judeu, talvez seja a maior tragédia da história do judaísmo brasileiro, você ter símbolos judaicos sendo utilizados para justificar bandeiras antidemocráticas, bandeiras excludentes e que, em algum sentido, também desrespeitam os mortos judeus na ditadura militar brasileira.

    Como a comunidade judaica brasileira recebe o uso desses símbolos por Bolsonaro?

    Michel Gherman Uma das categorias que utilizamos é a categoria de “comunidade imaginada”. É uma categoria de um autor chamado [Benedict] Anderson [cientista político e historiador irlandês], e que promove uma espécie de conversão a uma comunidade política teológica.​

    Então, para que o judeu real seja aceito por essa comunidade bolsonarista, ele precisa produzir uma conversão política teológica. Ou seja, a ideia de que essa “Israel imaginária” – a Israel do retorno de Cristo, armada até os dentes, moral em termos das agendas – tem que ser aceita também por judeus.

    Quando você fala em comunidade judaica, você está falando em judeus no Brasil; e os judeus no Brasil são absolutamente diversos. Há alguns judeus no Brasil (alguns deles até dirigentes comunitários) que fizeram essa conversão, se transformaram em membros dessa comunidade bolsonarista. E olham para os judeus reais – movimentos juvenis, clubes, sinagogas conservadoras e reformistas – como judeus inimigos.

    E há outra parte da comunidade judaica que olha para esses símbolos com o mesmo horror que estou descrevendo. Então, a comunidade judaica olha para eles de maneira diversa, porque são diversos. Ultimamente, setores da dirigência comunitária, diretores da comunidade judaica, têm começado a publicamente criticar esse uso. O que mostra que a clareza desse processo está ficando maior.

    Em postagens nas redes sociais, a Secom reproduziu frase semelhante ao lema ‘o trabalho liberta’, associado ao nazismo. Como o senhor avalia esse episódio? A associação das postagens ao nazismo é cabível?

    Michel Gherman É absolutamente cabível. Porque a assunção de que elas são parte de um discurso nazista não é escondida. Faz parte de um discurso que vem desde a campanha de Bolsonaro. Bolsonaro, na campanha, falou em adaptação de minorias, que é um discurso típico nazista. Bolsonaro tinha essa raiz, essa gramática nazista, isso estava bastante claro.​

    O que está acontecendo ultimamente é que isso está aparecendo mais. Porque o governo está se ideologizando. E com a saída do [ex-ministro da Justiça Sergio] Moro e o fortalecimento dos militares, o discurso ideológico está mais potente. Então você tem o discurso do [ministro de Relações Exteriores] Ernesto Araújo que compara a quarentena com o nazismo – um discurso típico da nova extrema direita. Você tem essa nota da Secom, onde até um judeu está envolvido – o [Fabio] Wajngarten [chefe da Secom da presidência].

    Pior do que dizer que o “trabalho liberta” – que são duas palavras que têm que permanecer separadas para o resto da história, e que foram juntadas – é a nota de resposta dele [Wajngarten]. É uma nota típica da gramática nazista. No final da nota, Wajngarten ainda afirma sua identidade judaica, como se um judeu, só por ser judeu, não pudesse ser nazista.

    Me parece que o processo de Wajngarten é de tentativa de “kasherizar”, transformar em kosher [termo que se refere aos alimentos considerados próprios para o consumo de quem segue as leis judaicas] um discurso nazista. É muito sério.

    Não é a primeira vez que o governo Bolsonaro é de alguma forma associado ao nazismo. Em janeiro, o então secretário da Cultura, Roberto Alvim, produziu e publicou um vídeo com referências ao nazismo. Como a sociedade deve reagir às referências nazistas feitas pelo poder público?

    Michel Gherman Acho que não houve referência no episódio do Alvim; houve nazismo. Alvim se fantasiou de Goebbels e falou as frases de Goebbels; ou seja, ele foi Goebbels. Não há referência ao nazismo, há nazismo. Acho que, primeiro, como sociedade, temos que maximizar as relações que temos com o discurso, e não minimizá-las.​

    A primeira questão é o esforço para a comunidade judaica. Hitler utilizou os judeus como vítimas prioritárias a partir de uma agenda que tem a ver com Hitler, e não com os judeus. Nada nos judeus justifica o assassinato deles. O racista inventa justificativas para transformar suas vítimas em vítimas. [As justificativas] não existem, na realidade. O fato de que o nazismo assassinou judeus tem muito mais a ver com os nazistas do que com os judeus. O compromisso dos judeus é que essa memória, para a humanidade, seja garantida por eles. Ou seja, que os judeus mostrem que o genocídio, o Holocausto, é uma produção de um crime contra a humanidade, não somente contra os judeus. E essa é a grande tarefa histórica dos judeus brasileiros hoje: denunciar o que está acontecendo como um crime contra a humanidade, e não somente um crime contra eles.

    E com relação à sociedade maior, acho que a clareza do que está acontecendo pode servir na formação de uma unidade contra o fascismo e o nazismo no Brasil. Acho que não dá para se calar. A sociedade brasileira – e aí incluindo os judeus no Brasil – tem que peitar essa ascensão do nazismo. Em nome, no caso dos judeus brasileiros, das vítimas judias do nazismo; em nome, no caso da sociedade maior, das vítimas humanas. Em última instância, de nós mesmos. Acho que é uma motivação que temos para criar uma unidade contra o nazismo e o fascismo.

    Como avalia a aparente contradição entre a adoção de símbolos judaicos pelo governo Bolsonaro e a ocorrência de episódios de associação ao nazismo?

    Michel Gherman Não vejo contradição. A Israel que é vinculada à identidade judaica é uma Israel que não tem nenhum compromisso ou relação com essas loucuras da extrema direita. Essa chamada extrema direita, inclusive, não aceita a identidade judaica hegemônica em Israel. A Israel que se mantém como símbolo dessa aglutinação da extrema direita – não só no Brasil, mas no mundo – é uma Israel imaginária, que tem pouco a ver com as contradições que são a grande força política desses Estado político.​

    Então não tem contradição. O que há é uma loucura simbólica utilizada por um governo, que justifica esses símbolos para seu público interno, e não seu público externo. O problema é que isso, às vezes, confunde o público dentro e fora da comunidade judaica. Porque uma bandeira de Israel numa manifestação pode ser vinculada à Israel real.

    O que se produz, em última instância, é uma confusão dentro da comunidade judaica; e para fora da comunidade judaica, [produz] antissemitismo. Porque qualquer pessoa medianamente liberal, para quem os valores da democracia são importantes, é contra o governo Bolsonaro hoje. E quando se vê uma bandeira de Israel, você vincula Israel – e, aqui o perigo, a Israel real – ao governo Bolsonaro. Isso vai produzir, ou já está produzindo, um antissemitismo.

    Setores da esquerda já tinham a tendência de fazer essa mistura, e a minha preocupação é que isso se consolide, e que a gente tenha uma ascensão de antissemitismo no Brasil como nunca tivemos antes.

    Há compatibilidade entre os valores judaicos e a agenda ideológica de Bolsonaro?

    Michel Gherman Há uma extrema direita judaica que está dialogando com Bolsonaro, e que tem os valores vinculados às perspectivas bolsonaristas. Tal qual há uma extrema direita brasileira, uma extrema direita cristã, uma extrema direita muçulmana; essa extrema direita dialoga entre si.​

    Há setores que são compatíveis. O problema é que a maioria dos judeus no mundo, no Brasil e em Israel, olham para esses valores como valores absolutamente estrangeiros e estranhos a eles.

    O meu judaísmo não é só não-compatível com o bolsonarismo. O meu judaísmo está no alvo do bolsonarismo, como uma coisa que deve ser atacada. A minha Israel é uma Israel que está no alvo do bolsonarismo, como uma coisa que deve ser atacada. Ou seja, é pior do que ser incompatível: é ser parte de um projeto de destruição por um governo de extrema direita.

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