‘A pandemia nos lembra que também somos parte da natureza’

Ao ‘Nexo’, o escritor de ciência David Quammen fala sobre o papel que atividades como a caça e o desmatamento tem na origem de doenças como a causada pelo novo coronavírus

Identificado pela primeira vez em um mercado de animais silvestres em Wuhan, na China, em dezembro de 2019, o novo coronavírus surgiu provavelmente de um morcego que habitava a região, segundo estudos mais recentes. Do animal, o vírus migrou para um pangolim, e acabou se espalhando e se adaptando ao organismo humano.

As circunstâncias que levaram ao aparecimento da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, são semelhantes às de outras zoonoses (doenças transmitidas de animais para humanos) que causaram surtos em escala global nos últimos anos. Entre elas estão a doença causada pelo vírus ebola, que atingiu a África a partir de 2013, e a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que surgiu na Ásia em 2002, causada por outro tipo de coronavírus.

“A transmissão de vírus animais para humanos é um fenômeno antigo, mas parece estar acontecendo com mais frequência agora”, disse ao Nexo o divulgador científico americano David Quammen, considerado um dos principais escritores de ciência do mundo. “Agora, esse fenômeno tem mais chances de se transformar em uma pandemia.”

60%

das doenças infecciosas nos humanos são zoonóticas

Autor de 15 livros, Quammen voltou a ser lembrado na pandemia de agora por causa de um trabalho que lançou em 2012, “Spillover: Animal infections and the next human pandemic” (Transbordamento: Infecções animais e a próxima pandemia humana, em tradução livre). A obra deve ser lançada no Brasil em 2020 com o título “Contágio” pela Companhia das Letras.

Foto: Reprodução
Um retrato de David Quammen, um homem branco de cabelos brancos e olhos azuis, vestindo uma camisa também azul.
O escritor de ciência David Quammen

No livro, Quammen investigou as infecções que migram do mundo animal para os humanos (um processo chamado de “spillover” em inglês) e transmitiu um alerta que a ciência fazia há quase uma década: o aumento de zoonoses no século 21 poderia causar uma nova grande pandemia, nos moldes da gripe espanhola em 1918.

Doenças como a covid-19 não surgem por acaso, mas são resultado da ação predatória do ambiente, que há anos vem se intensificando, explica o autor. Atividades como o desmatamento e a caça invadem habitats e forçam o contato com animais que podem carregar infecções.

Nesta entrevista, Quammen explica essa transmissão e afirma que todos somos responsáveis pela situação a que chegamos hoje. Para ele, esta não será a única pandemia que a humanidade vai enfrentar nas próximas décadas.

Como o novo coronavírus foi passado de animais para humanos?

David Quammen A transmissão de vírus animais para humanos é um fenômeno antigo. Não há nada de novo. Desde que viramos uma espécie, há cerca de 200 mil anos, nós, humanos, fazemos contato com a vida selvagem — caçando animais para comer, por exemplo. Por esse motivo, somos expostos aos vírus que habitam os animais selvagens. É provável que o ancestral do vírus do sarampo tenha sido transmitido para humanos no século 4 a.C. Da mesma forma, é provável que o ancestral do vírus da varíola tenha sido transmitido de animais silvestres para vacas ou cavalos — e então dessas vacas e cavalos para as pessoas — três ou quatro mil anos atrás. ​

Mas agora ele está acontecendo com mais frequência. Nos últimos 50 ou 60 anos, temos visto mais casos em que reconhecemos que um vírus animal migrou para os seres humanos, se hospedou, se replicou e veio a causar doenças transmissíveis. Qual a explicação para isso? Atualmente, há mais pessoas em contato com animais. Há 7,7 bilhões de nós, humanos, neste planeta. Somos inteligentes, temos fome e estamos extraindo recursos do meio ambiente para adaptá-los a nossos usos. Estamos extraindo madeira das florestas tropicais, minérios de regiões remotas e combustíveis fósseis do subsolo. Estamos capturando animais e os matando para comê-los ou para supostos usos médicos. Isso sempre aconteceu na história, mas agora acontece mais do que nunca. Porque há muitos de nós, e consumimos muito.

Outra coisa diferente hoje é que as pessoas estão vivendo mais próximas nas cidades, em aglomerados populacionais muito densos. Estão também viajando muito e com mais rapidez. Isso significa que, se um vírus é transmitido de um animal para um humano, e depois passa a se propagar de humano para humano, há grandes chances de esse vírus infectar um número grande de pessoas e circular em todo o mundo em um período muito curto de tempo. A conclusão é que, hoje em dia, a transmissão de vírus animais para humanos está mais frequente — e, agora, ela tem mais chances de se transformar em uma pandemia.

O que a ciência sabia sobre a eclosão de uma pandemia?

David Quammen Quando fiz a pesquisa para meu livro “Spillover”, 10 ou 12 anos atrás, conversei com cientistas sobre as zoonoses, essas doenças que nascem nos animais e migram para humanos. Perguntei a eles: haverá uma próxima grande pandemia? Se sim, como ela será? ​

Uma década atrás, a ciência já estava falando disso. Hoje, reunindo as várias respostas que esses cientistas me deram na época, a mensagem que recebi foi a seguinte: sim, haverá uma grande pandemia no futuro. Ela será causada por um vírus. O vírus sairá de um animal. Que tipo de animal? Um animal silvestre. Que tipo de animal silvestre? Provavelmente um morcego, ou talvez um primata. Que tipo de vírus? Um vírus que evolui rapidamente, possivelmente um vírus influenza, ou um coronavírus. E onde essa infecção deve surgir? Bem, em algum lugar onde humanos estão tendo intenso contato com animais silvestres, ou ainda em um mercado úmido, em um lugar como a China.

Todas as respostas estavam lá. Os cientistas não sabiam dizer quando uma pandemia aconteceria, nem exatamente como, mas eles previram muita coisa. Nós recebemos os alertas. As lideranças políticas falharam ao não prestarem atenção a eles e não nos prepararem para isso.

O sr. acredita que somos responsáveis pelo desastre de agora?

David Quammen Sim. Todos nós, humanos, somos responsáveis por esse padrão [de vida]. A pandemia do novo coronavírus, em particular, surgiu a partir de animais silvestres da China, ou que foram enviados à China como parte de um esquema ilegal de comércio de animais selvagens. Do ponto de vista direto, as pessoas que participam desse esquema — que capturam morcegos ou pangolins — são os responsáveis pelo que está acontecendo.​

Mas a pandemia do coronavírus é apenas um evento em meio a vários outros. Como eu disse, muitas vezes houve casos de infecções transmitidas de animais a humanos. Algumas delas se tornaram pequenos surtos, outras viraram grandes epidemias. Mas todos esses fenômenos são causados pela ação humana. Não são eventos que simplesmente acontecem — eles são resultado de decisões que tomamos. E o que decidimos fazer foi extrair cada vez mais recursos do meio ambiente. Capturamos animais, consumimos carne, extraímos supostas substâncias medicinais dos animais. Extraímos madeira, minerais e combustíveis fósseis. Todos somos responsáveis por isso. Todas as escolhas que fazemos — o que comemos, o que vestimos, tudo que compramos — têm impacto sobre essa situação de agora.

Um celular, por exemplo. Um celular contém um mineral, o coltan, que é extraído em poucos lugares, como a República Democrática do Congo. É uma área com uma rica biodiversidade. Ali há gorilas, diversas espécies de roedores, diversas espécies de macacos, porcos-espinhos e morcegos. Ao comprarmos um celular, estamos pedindo aos mineradores que vão a esse lugar e extraiam o coltan para nós. Esses mineradores precisam comer. O que vão comer? Animais selvagens.

Veja, há diversos tipos de responsabilidade. Algumas pessoas têm responsabilidade direta [pela pandemia], outras têm responsabilidade indireta. Mas todos fazemos parte desse cenário. Todos somos parte dessa grande demanda de consumo que favorece os “spillovers”.

O sr. mencionou que, anos atrás, os cientistas falavam na próxima grande pandemia. A pandemia de covid-19 é essa grande pandemia? Ou devemos esperar por outras no futuro?

David Quammen Bem, se pensarmos nas perguntas que eu estava fazendo aos cientistas 10 anos atrás, sim, esta é uma grande pandemia. Acho que ninguém pode negar que a crise do coronavírus é um grande acontecimento — não só por causa do número de doentes e mortos que ela está causando, mas também por seu impacto econômico e financeiro, por exemplo. Por isso, sim, esta é a “próxima grande pandemia” que eu mencionava quando publiquei meu livro. Mas esta é a última grande pandemia? Não, provavelmente não é. Haverá outras além desta. Haverá mais vírus migrando de animais para humanos. Haverá mais surtos de doenças causadas por novos vírus. ​

Se a próxima pandemia será tão grande quanto esta, ou pior, depende de nossa capacidade de tirarmos uma lição da situação de agora e nos prepararmos melhor para conter a próxima doença. Se aprendermos nossa lição, se usarmos nossos recursos, criarmos redes de vigilância e cooperação e investirmos em tratamentos, vacinas e outras medidas necessárias para conseguirmos lidar com um problema antes que ele se transforme em um desastre, então, sim, possivelmente vamos conseguir evitar que a próxima doença se transforme em uma pandemia. Espero que a gente aprenda nossa lição e faça isso.

O sr. disse em entrevista em abril ao jornal El País que a diferença entre a pandemia e a mudança climática é que a primeira está matando mais rápido. O que os dois fenômenos têm em comum?

David Quammen Acho que eu quis dizer que a mudança climática é um desastre que acontece relativamente em câmera lenta, enquanto este [o do coronavírus] está acontecendo rapidamente — então parece mais dramático. A pandemia é mais difícil de negar. As pessoas estão vendo que há outras pessoas morrendo, que há doentes abarrotados nos corredores de hospitais, sem espaço, leitos e respiradores suficientes. Isso é difícil de ignorar. Mas a pandemia e a mudança climática têm em comum a origem. Ambas têm as mesmas causas: a população humana, o consumo humano, o fato de estarmos provocando perturbação no ambiente, porque somos muitos e precisamos de muitos recursos.​

Acredito que há três grandes problemas que enfrentamos hoje: a mudança climática, a ameaça de uma pandemia e a perda da biodiversidade. Uma perda cataclísmica da diversidade biológica, com redução de populações e extinção de espécies. É um desastre terrível. Não nos afeta tão rápida ou diretamente quanto uma pandemia, mas é uma tragédia de longo prazo, do ponto de vista ecológico e humano. São três grandes problemas, todos com as mesmas causas: nossas ações. A quantidade de filhos que temos, o crescimento da população, o consumo de recursos, a tecnologia, tudo isso. Vejo esses problemas como três grandes rios que correm em paralelo. Não é que um problema cause o outro, ou um leve ao outro, mas eles correm juntos.

O que a covid-19 revela sobre nossa relação com o meio ambiente?

David Quammen Uma das coisas que a covid-19 nos lembra é que nós, humanos, somos parte da natureza. Não estamos separados dela, nem acima dela. Somos animais. Compartilhamos as origens e muitos aspectos de nossa anatomia com outros mamíferos. Também podemos compartilhar os mesmos vírus e doenças. Se não fôssemos semelhantes a esses animais, não seríamos afetados por seus vírus. O fato de que esse vírus [o Sars-CoV-2] migrou de um morcego, provavelmente para um pangolim, e depois migrou de um pangolim para os humanos — e agora está afetando a saúde humana — é um lembrete de que também fazemos parte do mundo natural. ​

A covid-19 também nos lembra que há consequências quando perturbamos a natureza. Agora estamos vivendo essas consequências. Ela nos lembra, então, que devemos tomar uma atitude. Precisamos agir para reduzir nosso impacto [sobre o meio ambiente], reduzir nosso consumo e reduzir, um dia, os números de nossa população, em ritmo lento. É um lembrete de que devemos fazer tudo isso. Do contrário, teremos cada vez mais problemas à medida que seguirmos.

O que devemos fazer para evitar mais pandemias no futuro?

David Quammen Do ponto de vista individual, precisamos repensar nossas escolhas. Entre elas, estão quanta carne comemos, quanto viajamos em aviões e carros — queimando combustíveis fósseis — e quantos filhos decidimos ter, se é que queremos filhos. Todas essas decisões pessoais têm grande impacto no meio ambiente, e neste momento precisamos reduzir esse tipo de impacto. ​

Do ponto de vista coletivo, como cidadãos, precisamos eleger líderes que reconheçam nossos problemas [como a ameaça de uma pandemia] e lidem com eles, em vez de ignorarem que eles existem. Tanto os Estados Unidos quanto o Brasil estão sendo prejudicados por seus presidentes [Donald Trump e Jair Bolsonaro, respectivamente] neste momento. Precisamos de lideranças melhores que essas. Isso significa que precisamos ser eleitores mais inteligentes, preocupando-nos não só com nós mesmos, mas com as outras pessoas, nossas comunidades, nossos países e as próximas gerações que viverão neste planeta.

Uma vez com melhores líderes, podemos esperar que eles cooperem. Mas também devemos exigir que eles trabalhem com outros países, criando redes de vigilância e resposta [para pandemias]. Por vigilância, quero dizer que precisamos detectar e conter os surtos de doenças antes que elas se tornem epidemias. Além disso, precisamos de mais cooperação, com acordos internacionais para compartilhar o saber científico e recursos para quem mais precisa. Um profissional de saúde me disse que, por causa da globalização, hoje “uma doença em algum lugar é uma doença em todo lugar”. Nós precisamos reconhecer isso.

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