Viviane Mosé: ‘O maior desafio do isolamento é aprender a parar’

Em entrevista ao ‘Nexo’, psicanalista e filósofa fala sobre isolamento social: solidão para uns, hiperconvívio familiar para outros e os impactos na sociabilidade após a pandemia

    As palavras isolamento, confinamento e distanciamento social viraram parte do nosso repertório diário. Junto com os aniversários por vídeo-chamada, as reuniões virtuais e os chats por celular sem motivo aparente. Quem pode, fica em casa. E mesmo quem não pode, tende a achar que essa é a melhor estratégia.

    Segundo o Datafolha, três em cada quatro brasileiros adultos que possuem celular apoiam o recolhimento doméstico como medida para frear a disseminação do coronavírus.

    Essa situação tem levado a espaços públicos esvaziados e lares cheios, com novas (e nem sempre harmoniosas) dinâmicas de convívio e organização. Há, também, um contingente considerável de pessoas atravessando o período de isolamento social sozinhas em casa.

    A nova realidade, que não tem prazo certo para terminar, testa as emoções, a saúde mental, a empatia e a resiliência de todos. É também uma jornada para um próximo estágio que ninguém sabe bem dizer como será.

    O Nexo conversou com a filósofa, poeta e psicanalista Viviane Mosé sobre alguns dos aspectos da existência em meio à pandemia e ao isolamento. Mosé é autora de diversos livros, entre eles “A espécie que sabe: do Homo Sapiens à crise da razão” (Editora Vozes, 2019) e “Nietzsche hoje: Sobre os desafios da vida contemporânea” (Editora Vozes, 2018).

    Tem acompanhado relatos sobre a quarentena? Que tipo de relato tem chamado a sua atenção?

    VIVIANE MOSÉ Eu não tenho acompanhado os relatos do isolamento, e raramente acesso as redes sociais. Tudo isso me pegou de um modo muito intenso, precisei resgatar o que me era mais íntimo, mas não tem sido fácil. Em meus livros falo sobre a exaustão da civilização, sobre uma queda que necessariamente se daria dado que “o processo civilizatório é uma contra natureza”, como diz Nietzsche. Em algum momento, ficaria clara nossa submissão e nossa perda nessa disputa insana. Mas o modo como tudo está se dando é de qualquer modo surpreendente. Desaba o nosso mundo ilusório, nossa bolha feita de fama e consumo, mundo forjado para nos fazer esquecer da vida, esta experiência inédita e imprevisível. Quem somos como humanidade e o que buscamos ser? E em que sociedade queremos viver? Foi neste lugar que me coloquei nestes dias de solidão. O que realmente importa no fim das contas?

    O isolamento ainda não tem prazo para terminar. Isso nos desorganiza internamente?

    VIVIANE MOSÉ Vida é igual a fluxo, mudança, transformação eterna. A falta de mudança é sinônimo de morte. A instabilidade é condição da vida, este fio que levamos adiante até que tudo acabe. Mas por medo de encarar a vida de frente, para não ver, não saber, não sentir, em suma, para não sofrer, criamos a bolha da civilização, feita de pontos fixos, de certezas, de verdades que mais servem para criar castas e relações de dominação e controle de uns poucos. Somos feitos de rotinas, tarefas, compromissos diários, as cidades nasceram em torno de uma praça onde tinha sempre um relógio e uma igreja. Esquecemos a vida e nos isolamos na bolha da civilização que agora desaba. Mas a vida continua. E, ao mesmo tempo, tudo nasce. Vivemos um choque grave. Daqui sairemos pessoas mais maduras, mais fortes, afinal estamos sendo obrigados a nos ver, ao invés de nos relacionarmos com aquilo que acreditamos ou sonhamos ser. Sim, precisamos de alguma rotina no isolamento para não enlouquecer, mas o que mais precisamos agora é aprender a não agir, a não se impor. É preciso incorporar algum grau de silêncio na alma. Temos que aprender a parar, este é o maior desafio. E, quem, sabe aprender a lidar com a instabilidade, com a mudança, como fazem aqueles que se arriscam, que ousam.

    Existe muita gente que está se vendo em uma solidão forçada. Como lidar com isso mantendo a sanidade?

    VIVIANE MOSÉ A solidão é condição da dignidade humana. Quem não sabe estar só se prostitui em relações mal arranjadas, forjadas, tóxicas. Ser uma boa companhia para si mesmo é o mínimo que uma pessoa precisa se quiser se relacionar com alguém de modo saudável. Sim, a solidão é dura, mas necessária e muito vigorosa. Foi sempre abraçada a ela, a minha mais profunda solidão, que encontrei a força necessária para seguir adiante. Foi o que fiz nestes últimos dias tão difíceis. Agora me sinto revigorada, pronta para dar minha contribuição, meu ânimo, minha força àqueles que precisam. A vida vale a pena. E o que esta doença põe à prova é o vínculo que temos com a vida, o quanto sua raiz está forte e seu tronco e galho e folhas estão firmes, cheios de vontade de viver. Isto que acabei de falar pode ser traduzido como saúde. O vírus desta nossa saúde, o quanto de vida somos capazes de fazer transformar do corpo. É hora de se apegar à vida, nosso maior valor. Afirme a solidão, pergunte o que ela tem a lhe dizer. Ouça, se transforme. Sairemos mais fortes de tudo isso.

    Para outros, o convívio familiar foi intensificado. Como isso se reflete na individualidade?

    VIVIANE MOSÉ Além da dureza de encarar a nós mesmos, nossos fantasmas, medos, ilusões, este isolamento forçado está nos impondo o convívio de modo quase violento com a família. Vivíamos, mesmo com as pessoas mais íntimas, cada um em sua bolha, cada um acreditando que é o que imagina ser, e aplicando o mesmo raciocínio aos outros. Em outras palavras, nos relacionamos com a imagem que temos de nós mesmos e das pessoas e não com elas. Vez ou outra, a casa caía, surgia um conflito, o que já ajudava a arranjar as coisas. Mas em famílias onde reinava uma paz formal, onde os conflitos eram sufocados, este confronto familiar tem sido desastroso, porque as pessoas não têm intimidade umas com as outras, então passam a se estranhar. É preciso viver este conflito, falar sobre ele, tentar encontrar pontos de equilíbrio no meio das diferenças. Evitar o confronto aberto, as acusações, tendo em mente que todos de algum modo erramos. Precisamos nos diminuir um pouco para que todos possam se expressar. Precisamos aprender a ceder. Teremos famílias com isso, e não aglomerado de pessoas em um mesmo espaço, como estava se tornando hábito.

    A quarentena terá impactos na nossa sociabilidade?

    VIVIANE MOSÉ Não vejo problemas em desenvolvermos nossas habilidades de modo virtual, esse isolamento nos fará sofisticar estas relações. Ter aulas, brincar de bonecas, conversar, entre muitas outras coisas, podem ser feitas virtualmente. Esta é uma potência humana, que lhe permite o intelecto, por isso temos memória, linguagem, pensamento, consciência. Nossa experiência em rede é muito recente, e precisa ser aprimorada, sofisticada. Vivemos uma guerra que acontece por meio da informação, e é também pela possibilidade de compartilhar horizontalmente esta informação que estamos construindo novas possibilidades de vida e ação. Ao mesmo tempo, o isolamento nos dará uma sede enorme pela presença, pelo convívio, pelo corpo. Passaremos a valorizar cada vez mais um abraço, um aperto de mão. A vida ganhará mais espaço ao invés do acúmulo, do consumo.

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