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Como a pandemia prova a importância da coisa pública

Cientista político Rafael Araújo fala ao ‘Nexo’ sobre o efeito do coronavírus no debate acerca do tamanho do Estado e da interdependência entre os países

Em seu primeiro pronunciamento em rádio e TV sobre a pandemia de coronavírus, no dia 12 de março, o presidente da França, Emmanuel Macron, fez uma ode ao “Estado-providencial”, que fornece “saúde gratuita sem distinção econômica” a seus cidadãos.

Para ele – um político de centro direita que fez carreira no mercado financeiro – a pandemia revela que “há bens e serviços que têm que estar colocados fora dos interesses do mercado”.

A pandemia do coronavírus fez com que, por toda a Europa, governos como o da França acionassem imediatamente o sistema de saúde pública, de proteção trabalhista, de socorro às empresas e de assistência social para amortecer os impactos de uma emergência grave em escala inédita.

A mobilização – comparada por esses líderes a um verdadeiro esforço de guerra – mostrou o alcance e a potência de Estados fortes e presentes, num momento em que correntes liberais defendiam o Estado mínimo.

Mesmo nos EUA, onde não existe um sistema de saúde pública universal, o presidente Donald Trump reuniu representantes dos planos de saúde e da indústria farmacêutica para demandar um esforço conjunto com o setor privado. Trump também enviou ao Congresso um pacote de US$ 850 bilhões para conter as perdas econômicas. O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, disse ainda que o governo estuda a possibilidade de enviar cheques com ajuda financeira a trabalhadores de baixa renda. Senadores republicanos dizem que os cheques poderiam chegar a ter o valor de US$ 1 mil. As medidas devem ser determinadas a partir de 24 de março.

Nesta entrevista, feita por telefone, na quarta-feira (18), o doutor em ciência política Rafael Araújo, professor na PUC de São Paulo, falou ao Nexo sobre a dimensão política e sociológica de uma crise global que tem, para ele, o poder de redefinir o debate em torno da coisa pública, do tamanho do Estado, e da cooperação entre os países, além de incutir em cada cidadão novas reflexões acerca da natureza inevitavelmente interdependente do ser humano.

O que essa pandemia revela sobre a aplicação de conceitos como bem comum, comunidade, coletividade, interdependência e cooperação?

Rafael Araújo Vivemos agora a necessidade de colocar em prática todos esses conceitos. É uma pena que seja necessária uma situação pandêmica, com riscos reais de morte, para que a população perceba a necessidade de se ter um olhar coletivo.

O que nós fazemos na sociologia é mostrar como a história da humanidade coincide com a busca desses equacionamentos entre as vontades individuais e a vontade geral, a perspectiva individual e a perspectiva do grupo.

Nós vivenciamos nos últimos anos um verdadeiro bombardeio ideológico que colocou a liberdade de ir e vir acima de tudo. Agora, situações como esta que estamos vivendo nos fazem perceber quão frágil é essa visão.

O ser humano só se constitui como tal em sua característica gregária, coletiva. Nós somos seres simbólicos e nosso simbolismo só se faz na interação, na vida comum. Se não entendermos isso – que a minha liberdade individual está necessariamente condicionada ao coletivo – o resultado é que perdemos nossa humanidade.

Somos seres interdependentes. Nós precisamos sempre – às vezes diretamente, às vezes indiretamente – da cooperação. Sem isso, cedo ou tarde, nossa fragilidade se mostra e aumenta o risco em catástrofes como esta.

Esta é uma crise que realça a importância de Estados fortes? É uma crise que põe em xeque a ideia de Estado mínimo?

Rafael Araújo Eu acredito que sim. Na verdade, acho muito difícil que se defenda o contrário, exceto se forem utilizados os princípios da seleção natural ou da eugenia, que são princípios que operam fora da órbita civilizatória.

Nós vivemos num sistema que construímos e complexificamos desde o início da modernidade. Esse sistema conspira para a concentração de renda. Isso é indiscutível. Nós podemos até ponderar sobre o meio através do qual atingimos esse fim – ou seja, se é pelo mérito de cada um, pois há quem vá defender essa bobagem –, mas é indiscutível que o resultado é a concentração de renda e recursos.

Se isso não fica perceptível no nível local, fica evidente quando ampliamos a lupa e examinamos nosso planeta como um todo. Então, se de fato há essa concentração de recursos, nos resta o Estado como fonte de compensação e de manutenção da vida.

Como esperar que o Estado se retire? Uma crise como essa reivindica ações que apenas o Estado pode empreender, porque implica assumir prejuízos e implica ter recursos para atitudes em nível macro. Veja a iniciativa do governo de fechar o comércio, os shoppings centers, em São Paulo, até o final de abril. Qual empreendedor tomaria, em sã consciência, dentro de uma perspectiva individualista que nós aprendemos a cultivar, uma medida como essa?

O momento que vivemos materializa o que os discursos contrários ao neoliberalismo vêm pontuando desde sempre. Resta saber se as pessoas conseguirão compreender isso.

Quando passar, que lições essa pandemia deve deixar para os países em termos de tamanho e de organização dos Estados, e de cooperação internacional?

Rafael Araújo Eu não tenho dúvida de que não sairemos desta crise da mesma forma que entramos. Nós vamos passar por uma experiência limite e eu espero que tenhamos a possibilidade de aproveitá-la positivamente.

Eu não sou capaz de prever. Entretanto, imagino que possamos rever de forma positiva e propositiva o significado das fronteiras. Só espero que essa experiência não seja um degrau para o pensamento simplista que resulte numa segregação ainda maior.

Eu também espero que a crise econômica que resultará da pandemia – que vai ser uma crise maior que a de 2008, pode anotar isso –, que essa crise demonstre as fraturas estruturais de um sistema de concentração que nós mesmos alimentamos. Espero que os países possam de fato compartilhar conhecimentos e exercitar a solidariedade por perceberem a importância de fortalecermos a nossa cooperação.

Realmente gostaria que as lideranças mundiais pudessem sair dessa experiência de forma mais esclarecida, que a noção de cooperação internacional ultrapassasse os nacionalismos e que as populações pudessem olhar para seus líderes com um olhar crítico, avaliando as posturas e os cuidados que foram tomados durante a crise.

Do ponto de vista da vida cotidiana, do dia a dia das pessoas comuns, o que essa crise tem a ensinar?

Rafael Araújo Nós, no Brasil, não passamos por nada semelhante recentemente. Eu, pelo menos, não me lembro. Algo próximo aconteceu lá no início do século 20 com a gripe espanhola, mas em outra proporção, numa outra situação. Nós nunca fomos obrigados a abrir mão de reuniões presenciais com amigos, de frequentar espaços públicos. Eu, particularmente, não consigo me lembrar de uma situação assim, pelo menos recentemente. Não me lembro de uma situação que nos obrigasse indiscutivelmente – pois cedo ou tarde isso se tornará indiscutível – praticar o cuidado com o outro.

O que vai sair disso? Vamos torcer para que alguns bons hábitos sejam aprendidos nesse período. Realmente espero que sim. Oxalá tenhamos a possibilidade de olhar para nossas vidas com outros olhos. Que o tédio decorrente das quarentenas seja motivo de reflexão e de aprendizado. Que o isolamento nos ajude a ver quão positiva é a convivência, e que nos faça perceber como, de fato, nós dependemos uns dos outros. Como eu disse: nós não sairemos iguais dessa experiência. Espero de verdade que tenhamos a sabedoria de aprender com ela, e que sejamos capazes de sair desse período fortalecidos como cidadãos.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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