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Como o novo coronavírus cruza política e saúde na China

Deisy Ventura, especialista em saúde global, fala ao ‘Nexo’ sobre a interseção entre doença e poder nas relações internacionais e os desafios que a epidemia apresenta para o governo chinês

    Deisy Ventura é uma pesquisadora brasileira com perfil incomum: ela trabalha na área de intersecção entre saúde global e política internacional. Pesquisa fluxos migratórios, direitos humanos e questões sanitárias.

    Todas essas questões aparecem misturadas na epidemia do novo tipo de coronavírus – agora batizado de Covid-19 – que teve início em dezembro de 2019 na província chinesa de Hubei.

    “As características do regime chinês geram desconfiança na comunidade científica internacional quanto às informações sobre a epidemia”, disse Ventura ao Nexo nesta entrevista feita por email na quarta-feira (12). No dia seguinte, o governo chinês anunciou uma mudança na metodologia de diagnóstico da doença, o que fez o número de pessoas infectadas crescer em 14,8 mil novos casos em relação ao sistema de contagem anterior. A partir do novo método, o número de contaminados passou dos 60 mil na quinta (13), com mais de 1.300 mortos.

    Dentro da China, a resposta do governo ao surto da doença tem sido questionada pela população, quando consegue furar a censura estatal. A morte do doutor Li Wenlinag, que foi perseguido por agentes do governo depois que tentou alertar sobre os primeiros sinais de existência do novo tipo de vírus, revoltou uma população que sente estar desprotegida e isolada.

    Ventura, que coordena o doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) e preside a Associação Brasileira de Relações Internacionais, chama a atenção ainda para a importância de que países como o Brasil ampliem o fomento não apenas ao sistema público de saúde mas à área de pesquisa científica, sob risco de o país ser transformado em “quintal subalterno, onde grassam a superstição e a miséria”.

    Como especialista em relações internacionais e também em saúde pública, como a sra. percebe a intersecção entre essas duas áreas no caso do surto desse novo tipo de coronavírus, na China?

    Deisy Ventura A China é hoje um dos atores mais importantes das relações internacionais, com impacto significativo na saúde pública por meio de temas como a propriedade intelectual, a pesquisa científica, a cooperação internacional, entre muitos outros. No caso do coronavírus, a intersecção mais direta foi a recente declaração de emergência internacional pela OMS (Organização Mundial de Saúde), que passou a coordenar a resposta à epidemia por meio de recomendações aos Estados, da organização de um plano internacional de resposta, da busca de financiamento para pesquisa, entre outras iniciativas.

    Ou seja, a epidemia de coronavírus na China passou a ser um desafio mundial, e não apenas nacional, devido ao potencial de propagação da doença em outras regiões e à necessidade de cooperação entre os Estados para contê-la.

    Um dos aspectos mais importantes dessa cooperação é o compartilhamento de conhecimentos sobre a origem, a detecção e o tratamento da doença. Por outro lado, há efeitos negativos como o pânico, que pode levar governos e sociedades a darem mais atenção à epidemia em curso na China, porque ocupa as manchetes, do que a doenças de dimensões altamente danosas já existentes em seu território, mas que não recebem a atenção dos meios de comunicação que mereceriam. Além disso, temos testemunhado a disseminação criminosa de preconceitos em relação às populações asiáticas.

    O fato de a China ser um país fechado, controlado por um partido único e sem livre circulação de informação teve impacto na forma como o vírus circulou?

    Deisy Ventura As características do regime chinês geram desconfiança na comunidade científica internacional quanto às informações sobre a epidemia, mas também entre os chineses.

    Podemos tomar o exemplo do médico Li Wenliang, que, ao informar a existência do surto, foi acusado pelas autoridades de espalhar notícias falsas. Infelizmente, ele contraiu a doença no exercício da profissão e veio a falecer [em 6 de fevereiro], convertendo-se em um herói nacional.

    No entanto, há consenso em reconhecer uma grande melhora na resposta chinesa ao coronavírus se ela for comparada ao que ocorreu em 2003 durante a epidemia de Sars (Síndrome Aguda Respiratória Severa). Me lembro de uma capa da revista Time, de maio de 2003, que apresentava uma radiografia de tórax como bandeira chinesa e a manchete “Nação SARS – como esta epidemia está transformando a China”.

    Transformou não somente a China, mas o direito internacional, pois houve a tomada de consciência do risco que a ausência de informação representa para a saúde no plano global, considerando o aumento vertiginoso da circulação internacional de pessoas para turismo e negócios. Um novo regulamento sanitário internacional foi adotado em 2005 para que a OMS pudesse declarar uma emergência por iniciativa própria, deixando de depender da notificação dos Estados nos quais irrompe um surto. Esse regulamento construiu um mecanismo inédito de coordenação internacional de respostas a emergências, e isso se deve, em grande parte, ao que ocorreu na China em 2003.

    Ainda assim, não apenas o regime chinês mas a deterioração da democracia em diversos países são graves ameaças à saúde global, entre outras razões pela potencial ocultação de informações que podem ser decisivas para uma resposta rápida e coordenada às epidemias.

    O encurtamento das distâncias – com meios de locomoção de alcance global cada vez mais frequentes e baratos – traz consigo o risco de propagação de vírus para os quais ainda não há defesa?

    Deisy Ventura Segundo a Organização Mundial do Turismo, houve 1,5 bilhão de viagens internacionais no ano de 2019, e esse número tem crescido a cada ano. No entanto, dois terços da população mundial permanecem sedentários. Em outras palavras, a parte da humanidade que tem acesso à mobilidade internacional, de fato, pode contribuir para a propagação das doenças, o que não é nem de longe uma novidade histórica.

    A chegada dos europeus ao chamado “Novo Mundo”, por exemplo, trouxe doenças que exterminaram grandes contingentes de indígenas. Contudo, limitar a mobilidade internacional não evitaria a propagação das doenças.

    Primeiro pela ineficiência patente das medidas restritivas: o ser humano se move, impelido pela busca de trabalho ou outros motivos, até mesmo quando há risco de morte na travessia – o que o Mar Mediterrâneo, cemitério de migrantes, não cansa de nos provar. Segundo, porque um pequeno número de casos pode ser suficiente para propagar internacionalmente uma doença.

    Restrições injustificadas de ingresso induzem a entrada irregular de pessoas em um território, dificultando o controle pelo Estado, entre outras razões porque aniquila as ações de prevenção e leva pessoas doentes a não buscar ajuda por temor das autoridades, comprometendo assim a segurança de todos.

    Mas a terceira e última razão me parece a mais importante: se não focarmos nas verdadeiras causas da propagação das doenças, estaremos condenados a “enxugar o gelo”. A invasão das áreas de preservação ambiental, o modo de produção de alimentos que submete animais a condições de vida propícias à proliferação de patógenos, o uso inadequado de antibióticos na agropecuária e o subfinanciamento crônico dos sistemas de saúde e da pesquisa científica em inúmeros países é que podem ser decisivos para que as pandemias tornem-se uma constante em nossa vida.

    Qual a relação entre o investimento em pesquisa científica e a capacidade de um país lidar com essas epidemias?

    Deisy Ventura A relação é direta. Um país que não investe em pesquisa torna-se dependente dos que investem, aniquilando sua soberania e colocando sua população em posição de extrema vulnerabilidade diante das epidemias e de outras ameaças.

    A humanidade ainda está longe de dominar os efeitos sobre a saúde dos avanços tecnológicos e das novas relações entre homens, animais e meio ambiente. Vivemos sob o império dos interesses econômicos. Desafortunadamente, a saúde está longe de ser uma prioridade dos regimes políticos, inclusive dos democráticos.

    Por sua vez, os efeitos nefastos da economia sobre a saúde animam um grande mercado de tecnologias, insumos e medicamentos. Em outras palavras, quero dizer que a pesquisa científica é indispensável inclusive sob o ponto de vista dos interesses econômicos nacionais. A ausência de investimento em pesquisa traça um futuro sombrio de sofrimento e mortes evitáveis em massa, além da transformação de países outrora promissores em quintais subalternos, onde grassam a superstição e a miséria.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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