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Como Trump maneja impeachment, críticas e crises em seu favor

Phil Rucker e Carol Leonnig, do Washington Post, falam ao ‘Nexo’ sobre a resiliência do presidente americano

    Philip Rucker e Carol Leonnig cobrem assuntos de política nacional num dos jornais mais influentes dos EUA, o The Washington Post. Os dois lançaram no início de 2020 um livro no qual contam os bastidores do primeiro mandato de Donald Trump.

    Em “Um gênio muito estável”, Rucker e Leonnig mostram o que há de espontâneo e o que há de calculado no estilo do presidente dos EUA – um líder populista agressivo cuja ascensão encorajou políticos semelhantes em outras partes do mundo, incluindo Jair Bolsonaro, no Brasil.

    Esta entrevista, concedida por escrito ao Nexo pela dupla, foi feita na véspera da votação do impeachment de Trump no Senado. A contagem de votos já sugeria a absolvição do presidente americano, que se tornou o terceiro na história do país a enfrentar esse processo. Na quarta-feira (5), Trump foi absolvido das duas acusações que pesavam contra ele, de abuso de poder e obstrução.

    Rucker e Leonnig são vencedores do Pulitzer, um dos principais prêmios na área de jornalismo e literatura dos EUA, por seus trabalhos de cobertura da política americana.

    Ambos comentam a capacidade de Trump em reverter cenários negativos em benefício próprio. O presidente é candidato declarado à reeleição e aparece às vezes como favorito e às vezes pouco atrás dos principais nomes do Partido Democrata na disputa que está marcada para o dia 3 de novembro de 2020.

    Em 2016, Trump era uma novidade. Ele se apresentava como alguém de fora do mundo da política tradicional, alguém autêntico e espontâneo, que causava frisson nas redes sociais. Em que medida essa imagem do outsider permanecerá seduzindo seus eleitores na eleição presidencial de 2020?

    Phil Rucker Será difícil para Trump posicionar-se como um outsider em sua campanha pela reeleição porque ele é o presidente em exercício, o que, por definição, coloca-o como um insider. Ainda assim, como nós mostramos no livro, ele tem sido um gênio em manter uma ligação emocional forte com seus apoiadores mais fiéis. Muitos desses apoiadores ainda o veem como um outsider, como um vencedor em meio ao chamado pântano de Washington.

    Carol Leonnig Uma grande parcela da população americana ainda está encantada com a novidade e com o estilo de ruptura das normas que Trump representa como presidente. Ele tem provado que pode romper com muitas tradições e expectativas em relação ao padrão presidencial, fazendo com que seus apoiadores reajam com alegria. Seu domínio do megafone – sua conta no Twitter e seus comentários habituais em comícios e em entrevistas coletivas – certamente acabará encorajando outros candidatos a fazerem o mesmo, e, sem nenhuma experiência prévia no serviço público, essas pessoas também poderão querer ser ocupantes de um dos mais importantes postos da Terra.

    O processo de impeachment – com a condenação na Câmara e a projeção de absolvição final, no Senado – foi benéfico ou maléfico para a campanha de Trump à reeleição?

    Phil Rucker Só o tempo irá dizer. Nós cobrimos jornalisticamente Trump por tempo o bastante para saber o quão perigoso é fazer previsões a respeito dele. Tornar-se o terceiro presidente na história americana a enfrentar um processo de impeachment não é uma distinção que Trump ou qualquer outro presidente gostaria de ter. Dito isso, é provável que sua absolvição no Senado signifique que ele permanecerá no cargo agora, e, como a investigação que apresentamos no livro demonstra, ele provavelmente vai emergir de todo esse processo fortalecido e com ainda menos contenções capazes de frear seus impulsos mais destrutivos.

    Carol Leonnig Será majoritariamente um benefício para a narrativa de Trump segundo a qual todas essas alegações de malfeitos não passam de politicagem dos democratas, insuflada por inimigos ressentidos com seu sucesso. Essa tem sido a toada de Trump na Presidência: derrubar os obstáculos, incluindo as evidências substanciais de que ele agiu para obstruir as investigações.

    O que mudou em relação à cobertura que a imprensa faz de Trump nos últimos quatro anos? Como candidato, ele parece saber usar muito bem a polêmica a seu favor. O que os jornalistas americanos aprenderam sobre isso desde a última eleição presidencial?

    Phil Rucker Trump tem uma certa qualidade de teflon como político. Ele parece emergir de cada novo escândalo sempre revigorado. Em nosso livro, levamos os leitores aos bastidores das investigações sobre a Rússia, para mostrar como ele e seus aliados conseguiram pôr de lado [o investigador especial do caso] Robert Mueller e emergir de uma investigação de dois anos sem nenhuma consequência legal, e com sua base de sustentação política intacta.

    Carol Leonnig Os repórteres que cobrem Trump ainda estão se recuperando de terem passado de crise em crise, de manchete de escândalo em manchete de escândalo, e estão apenas começando a aprender agora como ele conseguiu manobrar habilmente para mantê-los focados em seus posts matinais no Twitter, e nas reações que esses posts provocam. Alguns repórteres conseguiram romper com essa lógica de cartas marcadas, mas ainda é excepcionalmente difícil cobrir o presidente e não cobrir seus comentários diários. Ele frequentemente controla o ciclo das notícias. Isso é o que ele tenta fazer como candidato e como criador dessas notícias.

    Em que medida o estilo explosivo e polêmico de Trump corresponde a um traço autêntico de personalidade, e em que medida isso é fruto de uma construção política bem calculada?

    Phil Rucker É fácil cometer o erro de tomar a Presidência de Trump como um turbilhão cotidiano de caos, tagarelice e disfunção, mas o que nós descobrimos em nosso trabalho é que há uma lógica nas ações e no estilo dele. Sua estrela-guia é a perpetuação do próprio poder. É o que nos revelam as mais de 200 entrevistas que fizemos com altas fontes no mundo político. É também o que Trump demonstra estando a serviço de sua autopreservação e de seu autoengrandecimento.

    Carol Leonnig Trump diz a seus colaboradores mais próximos que ele é um game-day player [algo como o jogador que está focado em vencer uma partida a cada dia], ainda que ele reaja de maneira reativa e impulsiva. Ele acredita ter os melhores instintos, além de ter um estilo bastante belicoso. Nesse sentido, há características muito autênticas. Mas ele também sabe que seu jeito durão funciona com suas bases. Por isso, frequentemente escolhe funcionar dessa maneira.

    Diariamente, grandes jornais americanos mostram como Trump é nocivo à democracia americana. Por que, mesmo assim, metade do país apoia ele? As pessoas não leem as notícias? Os grandes jornais estão errados sobre ele? As pessoas não compartilham dos mesmos valores que os grandes jornais americanos? Ou os indicadores econômicos são mais importantes?

    Phil Rucker Um dos atributos mais ricos dos EUA é a diversidade, incluindo a diversidade de experiências de vida e de visão política. Essa diversidade ajuda a entender a razão pela qual há discrepâncias tão grandes de opinião a respeito de Trump. Como nós mostramos em “Um gênio muito estável”, dezenas de milhares de americanos consideram Trump seu vencedor – o executivo durão que enfrenta a máquina de demolição humana que existe em Washington e o capital estrangeiro. E, apesar de eventuais receios em relação aos discursos e a seu divisionismo, eles veem as taxas de desemprego caindo e outros indicadores econômicos subindo. Veem também o trabalho de Trump para reformar o sistema Judiciário federal, com nomes mais conservadores, como uma prova positiva do sucesso de Trump.

    Carol Leonnig Muitos seguidores de Trump têm a sensação de serem desdenhados e esquecidos pelas elites políticas, sejam as elites do Partido Democrata, sejam do Partido Republicano. Trump é um vencedor para essas pessoas. Para elas, ele é alguém que pelo menos está dizendo o que precisa ser dito, é alguém que está lutando por essas pessoas. O que nós ouvimos deles é que os assuntos políticos são menos graves do que o fato de eles sentirem que Trump está lutando por eles.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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