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Por que Belo Horizonte submergiu nas chuvas de 2020

O geógrafo Alessandro Borsagli, especialista na hidrografia da capital mineira, fala ao ‘Nexo’ sobre as causas históricas e atuais das enchentes na região

O estado de Minas Gerais enfrentou o maior volume de chuvas no mês de janeiro de 2020 dos últimos 110 anos, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. As tempestades de verão têm causado enchentes e estragos desde 24 de janeiro, quando as chuvas se intensificaram na região. Já somam 101 as cidades do estado que decretaram situação de emergência.

Segundo a Defesa Civil mineira, 55 pessoas morreram e aproximadamente 45 mil tiveram de sair de suas casas por causa da situação emergencial. Em Belo Horizonte, o órgão emitiu alerta de risco geológico até sexta-feira (31), devido ao encharcamento do solo urbano. Na região metropolitana da capital mineira, a situação do solo já provocou enormes crateras no asfalto e deslizamentos de encostas. A força da chuva levou ainda ao desabamento de construções.

Em Belo Horizonte, os impactos de um grande volume de chuva são agravados pelo fato de a cidade ter crescido em cima de uma grande malha fluvial. Desse modo, o aumento súbito do nível de água nos rios da cidade pode comprometer gravemente a estrutura viária. No caso, por exemplo, da avenida dos Andradas, construída em cima do rio Arrudas, bueiros estouraram como um chafariz, gerando imagens impressionantes que têm circulado nas redes sociais.

Antes do início das tempestades da segunda metade de janeiro, a prefeitura havia colocado em prática um plano emergencial que disponibilizava caminhões, retroescavadeiras e hidrojatos para 11 pontos da cidade. Também foram reservadas 500 vagas em pousadas para famílias que tivessem de sair de casa.

O prefeito Alexandre Kalil (PSD) estimou que a reconstrução de Belo Horizonte custará entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões. “O que aconteceu aqui nenhuma cidade do mundo aguentaria”, disse. Kalil afirmou que o calendário do Carnaval em Belo Horizonte está mantido apesar do que chamou de “maior desastre” da história do município.

O governo do estado, sob a gestão de Romeu Zema (Novo), anunciou que antecipará o pagamento da dívida estadual para todos os municípios que estejam em situação de calamidade ou emergência. Belo Horizonte deve receber R$ 200 milhões, em três parcelas. O presidente Jair Bolsonaro sobrevoou nesta quinta-feira (30) as áreas atingidas do estado.

O Nexo conversou por telefone na quarta-feira (29) com o geógrafo Alessandro Borsagli, mestre em geografia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Minas Gerais, sobre as causas das enchentes em Belo Horizonte, o histórico do problema na cidade e as medidas que podem ser tomadas para que novos episódios de caos não se repitam no futuro. Borsagli é autor do livro “Rios invisíveis da metrópole mineira”, no qual trata dos impactos sociais, ambientais e urbanísticos da vedação dos rios de Belo Horizonte.

Por que Belo Horizonte submergiu nas chuvas de 2020?

Alessandro Borsagli O volume de chuva realmente foi muito alto, em um curto período. Ao mesmo tempo, há o problema da precariedade da rede de drenagem urbana, que já é centenária em Belo Horizonte. O córrego do Leitão, por exemplo, era um curso d’água, que foi canalizado na década de 1920 e que desde então apresenta transbordamentos regulares e cada vez piores. As intervenções feitas na rede hidrográfica potencializam os transbordamentos. A ideia de que as canalizações diminuiriam as enchentes já é um erro comprovado, mas, por questões políticas e econômicas, não é abandonada.

Como é o histórico de Belo Horizonte em relação às enchentes? Já houve tentativas de solucionar o problema?

Alessandro Borsagli Outros transbordamentos ocorreram em 1948, 1962 e 1983. O problema da infraestrutura hídrica também não é novo, e a questão da água no espaço urbano é historicamente utilizada para se fazer política. Por outro lado, esse volume de chuvas que se verificou nos últimos dias foi excepcional, e o aquecimento global pode ajudar a explicar o fenômeno.

Como a gestão das bacias hidrográficas é tratada no âmbito político?

Alessandro Borsagli Normalmente a questão da gestão hídrica é deixada de lado pelos políticos. Quando mencionada em debates eleitorais, os candidatos falam apenas de canalizações. Isto é, discutem propostas de intervenção, e não de reabilitação. Com essa geração de políticos que temos, não consigo vislumbrar mudanças. Mas esse problema só está repercutindo agora porque atingiu os bairros da zona sul de Belo Horizonte [área nobre da cidade].

O Drenurbs [Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte, lançado em 2001], por exemplo, era um programa de vanguarda, para combater o problema do sufocamento dos cursos d’água. Ele propunha a proibição das canalizações dos cursos d’água e a reabilitação do leito natural dos rios. Acontece que, no decorrer dos anos, o Drenurbs foi sendo abandonado, por pressão inclusive dos setores da construção civil, e as canalizações continuaram. Muitas vezes, aliás, o Drenurbs foi usado como justificativa para essas canalizações, que atendem a questões sanitárias e viárias, mas que geram outros problemas, como os transbordamentos.

O que é necessário fazer para evitar o problema das enchentes no futuro?

Alessandro Borsagli É necessário fazer uma reabilitação dos cursos d’água, o que inclui permitir uma maior permeabilidade das vertentes [faixa de terra entre o cume da montanha e o fundo do vale], criar parques ciliados ao longo dos cursos dos rios e estabelecer outras áreas verdes pela cidade. Tudo isso freia a velocidade com que a água chega aos fundos dos vales. Atualmente, a água chega com uma tal força que sai arrebentando tudo.

Pensando em um horizonte mais próximo, é necessário proibir as canalizações imediatamente. Também não se pode permitir a ocupação das planícies de inundação [várzeas] dos rios. E, o mais rápido possível, é preciso criar áreas permeáveis nos locais mais atingidos.

Quem deve se mobilizar para mitigar o problema dos transbordamentos?

Alessandro Borsagli Diversos setores do Poder Público, claro, mas também a sociedade civil. Belo Horizonte apresenta vertentes bem consideráveis nas bacias hidrográficas. Assim, medidas de incentivo fiscal podem estimular que a população também se engaje na retirada de pavimentações que impermeabilizam o solo nessas vertentes.

Também é de suma importância o engajamento das universidades na busca da reabilitação plena da rede hidrográfica. O engajamento dos pesquisadores deve ser um projeto coletivo, um projeto de colaboração em prol da sociedade como um todo.

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