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Como a concretização do Brexit ameaça a coesão do Reino Unido

Pesquisadora britânica Kirsty Hughes fala ao ‘Nexo’ sobre o crescimento do independentismo na Escócia e na Irlanda do Norte após o desligamento da União Europeia

    O trabalho da britânica Kirsty Hughes é pesquisar as relações entre a Escócia, o Reino Unido e a Europa. Como especialista no tema, ela afirma nesta entrevista dada por escrito ao Nexo na terça-feira (28) que essas relações não vão nada bem.

    Movimentos independentistas ou separatistas cresceram no interior do Reino Unido como resposta ao Brexit – nome formado pela junção das palavras “british” (britânica) e “exit” (saída), que se refere ao desligamento britânico da União Europeia.

    Esse processo de desligamento foi decidido por meio de um plebiscito realizado nos quatro países que conformam o Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) em 2016 e terá seu início gradual na sexta-feira (31), culminando com a saída total e definitiva um ano depois.

    A maioria dos escoceses (62%) e dos norte-irlandeses (55,8%) votaram contra o Brexit no plebiscito de 2016, mas terão de seguir a decisão tomada pela maioria (51,9% dos britânicos votaram “sim” à saída).

    É a FAVOR DO Brexit?

    Brexit_Escócia
    Brexit_Irlanda

    Para os derrotados, a permanência no bloco era vista como mais vantajosa que o desligamento. Agora, restam duas opções: acompanhar a retirada britânica ou tentar desligar-se do Reino Unido e entrar na União Europeia.

    Mesmo para Hughes, que fundou e dirige o Centro Escocês para Relações Europeias, centro de estudos baseado em Edimburgo, na Escócia, é difícil prever o que pode acontecer. Mas o simples fato de iniciativas como essa voltarem à ordem do dia (os escoceses pedem autorização para realizar um plebiscito independentista ainda em 2020) deveria preocupar o governo britânico.

    No caso dos norte-irlandeses, a sensação de separação é imediata. Como o país faz fronteira seca com a República da Irlanda (que é um país independente e que, como tal, continua fazendo parte da União Europeia), será preciso inventar um “tratamento especial” para o trânsito de mercadorias na ilha. Neste caso, existe o temor de ressuscitar antigas rivalidades entre independentistas (que queriam as duas irlandas unificadas e separadas do Reino Unido) e unionistas (que defendiam a ligação com o Reino Unido).

    Mapa mostra a localização da Irlanda do Norte e da República da Irlanda em relação ao Reino Unido.

    Hughes diz que o sentimento de separação do Reino Unido está colocado. A questão, diz ela, “é quão rapidamente algo dessa natureza poderia ocorrer”.

    Dos quatro países que formam o Reino Unido, dois – a Escócia e a Irlanda do Norte – votaram contra o Brexit no plebiscito de 2016. Ainda assim, terão de sair da União Europeia. Como escoceses e norte-irlandeses estão lidando com esse momento?

    Kirsty Hughes A maior parte da população da Escócia e da Irlanda do Norte está bastante infeliz com o fato de o Brexit estar se concretizando.

    Existe neste momento muita incerteza na Irlanda do Norte a respeito de como será o funcionamento desse tratamento especial de agora em diante: haverá alguma vantagem no fato de permanecer no mercado comum europeu no que diz respeito ao trânsito de mercadorias, mas haverá também, por outro lado, controle alfandegário e uma peneira regulatória entre a Irlanda do Norte e o restante do Reino Unido, então o que se vê aqui é que há muita preocupação sobre qual será o impacto de tudo isso no comércio e nos negócios.

    Já na Escócia, há uma percepção de que os interesses do governo escocês foram simplesmente ignorados nesse processo.

    Os atritos internos decorrentes do Brexit trazem riscos reais de desmembramento do Reino Unido num futuro próximo?

    Kirsty Hughes Há uma possibilidade real de a Escócia tornar-se independente e de a Irlanda do Norte reunificar-se à República da Irlanda. A questão que está colocada para ambos é quão rapidamente algo dessa natureza poderia ocorrer.

    A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, vem pedindo ao governo do Reino Unido permissão para realizar um plebiscito ainda este ano, mas ninguém acredita que isso possa sair assim.

    De acordo com as pesquisas mais recentes, a opinião pública aqui está dividida em 50% de eleitores favoráveis à separação e os outros 50%, contrários. De qualquer forma, não vimos ainda nenhuma pesquisa feita após as eleições gerais de dezembro, quando passou a ficar mais claro que o Brexit de fato seria levado a cabo.

    É possível que vejamos daqui em diante um maior apoio à independência. O grupo dos mais jovens e dos adultos que têm até 55 anos é muito mais entusiasta da independência escocesa do que os mais velhos.

    Na prática, o mais provável é que esse embate entre escoceses e britânicos a respeito do direito de realizar uma nova consulta popular ainda se mantenha no futuro próximo.

    Em 2016, a maioria dos britânicos votou a favor do Brexit. De 2018 em 2019, as pesquisas de opinião mostravam o contrário – que a maioria queria ficar. Por fim, em 2019, os defensores de uma saída definitiva e não negociada, membros do Partido Conservador, venceram as eleições gerais. Como interpretar sinais tão contraditórios?

    Kirsty Hughes Uma forma de interpretar esses sinais diferentes é perceber que o Reino Unido é um Estado muito dividido e sua política continua sendo uma desordem.

    A Inglaterra e o País de Gales ficaram praticamente divididos ao meio na hora de decidir sobre ficar ou sair da União Europeia, enquanto a Escócia e o Irlanda do Norte simplesmente foram contrários a essa ideia.

    O Partido Conservador só teve maioria na Inglaterra, pois na Escócia quem venceu foi o Partido Nacional Escocês, enquanto no País de Gales venceu o Partido Trabalhista e na Irlanda do Norte os partidos mais votados foram os defensores da permanência na União Europeia.

    Mas é preciso entender dois detalhes aqui. O primeiro é que o sistema britânico, conhecido em inglês pela expressão “first past the post” (que elege o mais votado em cada distrito), fez com que o voto dos que se opunham ao Brexit fosse dado a vários partidos, enquanto os votos dos defensores do Brexit foram todos concentrados nos tories (nome dado aos membros do Partido Conservador). Dessa forma, os conservadores foram eleitos, ainda que tenham tido um percentual mais baixo do que o do total de defensores da permanência na União Europeia e dos defensores da realização de um segundo referendo.

    Em segundo lugar, muitas pessoas estavam simplesmente fartas com toda essa crise e com o impasse instalado na política britânica. Para todas elas, os tories tinham uma mensagem muito simples sobre o Brexit: “nós vamos resolver isso”.

    Como a sra. projeta o futuro do Reino Unido como um todo após o início do desligamento da União Europeia, em 31 de janeiro de 2020?

    Kirsty Hughes O Reino Unido já estava golpeado economicamente, mesmo antes do Brexit, por uma desaceleração do crescimento e por uma redução nos investimentos. O que deve acontecer é que o impacto econômico deve ser ainda maior agora – mesmo com os britânicos permanecendo ainda dentro do Mercado Comum Europeu, durante um período de transição, até dezembro de 2020.

    Haverá grande perturbação em nossas relações comerciais com a União Europeia, assim como haverá pontos de controle alfandegário nas fronteiras.

    Por fim, haverá um período de duras negociações até que se consiga um novo acordo de comércio com o bloco europeu – um novo acordo agora que, por certo, não será tão bom quanto o anterior. O Reino Unido deve se tornar a partir de então um ator pequeno ou, na melhor das hipóteses, de porte médio no jogo global do comércio, deixando de participar das negociações com a China ou com os EUA na qualidade de um membro da União Europeia.

    Muitos europeus referem-se com frequência a uma suposta identidade insular dos britânicos, apartados por natureza do restante do continente. Isso é verdade? Há uma mentalidade inevitavelmente isolacionista em Londres?

    Kirsty Hughes Eu não considero que a mentalidade da “pequena Inglaterra” seja inevitável. Ainda assim, é preciso reconhecer que o Brexit é, de muitas maneiras, uma crise da identidade inglesa – não uma crise da identidade britânica, pois os escoceses estão contentes de ter múltiplas identidades, incluindo ser escoceses e europeus.

    Em Londres e nas grandes cidades inglesas, muitas pessoas consideram-se europeias, enquanto nas pequenas cidades das zonas rurais prevalece em muitos aspectos um olhar mais para dentro de si, em parte por causa da retórica martelada ao longo de anos por uma mídia antieuropeia e pelo Partido Conservador, mas também como reflexo do ressentimento pelo declínio econômico e pelos 10 últimos anos de austeridade.

    A política britânica precisa urgentemente de uma renovação e de uma modernização, mas o mais provável é que ainda leve muitos anos até que isso possa acontecer.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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