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A São Paulo de Adoniran: o que mudou e o que permanece

Ao ‘Nexo’, diretor de documentário sobre cantor e compositor paulista fala sobre os paralelos entre as crônicas musicais feitas por ele no século passado e a cidade atual

Adoniran Barbosa tinha medo de elevador. Só andou de metrô uma vez, “para tirar fotografia”, e não gostou: ficou assustado com a rapidez com que as portas fechavam.

Essas e outras anedotas sobre o sambista que cantou São Paulo aparecem no documentário “Adoniran – meu nome é João Rubinato”, que entrou em cartaz nos cinemas na sexta-feira (23), às vésperas do aniversário de 466 anos da capital paulista, comemorado em 25 de janeiro de 2020.

João Rubinato (1910-1982), que acabou ficando conhecido pelo nome de um de seus personagens de maior sucesso no rádio, nasceu em Valinhos, interior de São Paulo.

Sua origem é comum a muitos paulistas de sua época: é filho de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no fim do século 19 para trabalhar nas lavouras de café. Ainda criança, trabalhou com o pai no carregamento de vagões da São Paulo Railway. Foi também entregador de marmita e varredor em uma fábrica de tecidos. Já na capital, exerceu as funções de tecelão, encanador, pintor, vendedor ambulante de meias, garçom e metalúrgico. Até que, em 1930, começou a trabalhar no rádio, onde se tornou ator, comediante e compositor.

Figura icônica do samba paulista, o autor de “Trem das onze” retratou em suas músicas a transformação acelerada de São Paulo e seus bairros ao longo do século 20, onde “adifícios arto” surgiam de todo lado.

Não é de surpreender que a cabine ascensora e o transporte subterrâneo o tenham deixado pouco à vontade. Em suas músicas, Adoniran vinha narrando o desaparecimento da cidade que existira no começo do século, soterrada por uma modernização que esqueceu de incluir os Jocas e os Mato Grossos. Os personagens de “Saudosa Maloca” viram o cortiço onde moravam ser demolido para virar prédio, e ficaram na rua.

“Grande parte das crônicas musicais dele são destinadas a contar histórias de especulação imobiliária e desigualdade social. Isso sem dúvida se preservou no cenário da cidade. Todo paulistano que caminha pelas ruas ou que tenha um vizinho que morava numa casa há 50 anos e a viu ser derrubada para virar prédio tem isso em si”, diz Pedro Serrano, diretor de “Adoniran – meu nome é João Rubinato”.

Ao Nexo, o cineasta falou sobre como o sambista se tornou símbolo da capital paulista, sua maneira peculiar de cantar e compor, e quais os resquícios da São Paulo de Adoniran na São Paulo de hoje.

Por que Adoniran se tornou uma figura tão importante para a memória de São Paulo?

Pedro Serrano Primeiro por ter feito crônicas, nas músicas dele, que retratavam perfeitamente o cotidiano da cidade, tanto as transformações urbanísticas como o dia a dia do povo. Segundo porque, através dessas crônicas musicais, através da música dele, que tinha um linguajar específico e um jeito muito próprio de compor, ele acabou se destacando. ​​

Ele teve uma projeção nacional quando “Trem das onze” foi eleita a melhor música de carnaval no quarto centenário do Rio de Janeiro [em 1964]. Isso tudo acabou trazendo uma projeção pra ele que nenhum outro sambista de São Paulo teve – não quer dizer que eles sejam menores, mas não tiveram essa projeção toda, como Adoniran teve. Isso acabou tornando-o um símbolo do samba de São Paulo e, consequentemente, da cidade.

O que te levou a fazer um documentário sobre ele?

Pedro Serrano Comecei com um projeto que foi lançado em 2015, que é o curta "Dá licença de contar". Sempre achei “Saudosa maloca” e outras músicas do Adoniran muito visuais, e decidi fazer esse curta baseado nas músicas dele. ​​

O filme é um passeio pelo universo criativo dele, com várias personagens se cruzando, fazendo também um retrato, uma crônica da São Paulo do século 20, principalmente dos anos 1950. O curta vai abrir algumas sessões do documentário aqui em São Paulo, e ele está disponível no YouTube e no Vimeo.

Minha relação com o Adoniran começou então partir desse curta. E, como te disse, ele é uma viagem onírica, poética pela obra dele, em uma abordagem ficcional. Aí houve uma proposta para ele virar um longa-metragem. Mas eu senti necessidade de me aprofundar na pesquisa e, gravando entrevistas, falando com as pessoas, recebi de um crítico de cinema amigo a provocação de que havia espaço para fazer um documentário sobre o Adoniran.

Levei um tempo para assimilar essa ideia, mas acabei decidindo fazer um documentário que fosse um retrato biográfico do personagem, resgatando a memória cultural de quem foi ele, principalmente para as novas gerações, porque eu sentia que elas já não conheciam o nome.

Conheciam a obra, mas não sabiam mais quem era o autor, não associavam mais o nome à obra. Então, [o filme] faz um resgate para as novas gerações e uma preservação de memória tanto da cidade quanto do personagem para as gerações mais antigas, que foram contemporâneas aos sucessos dele e a ele.

A partir da década de 1950 ele criou uma maneira de cantar e falar que o consagrou. Como é esse personagem? O que resta dele no estereótipo do paulistano que existe hoje?

Pedro Serrano A gente ouve esse linguajar que ele desenvolveu na boca das pessoas até hoje. Quem nunca ouviu alguém que, mesmo por brincadeira, chega de viagem e fala um "cheguemo" ou "voltemo", coisas assim? ​​

Fora os erros nas conjugações dos verbos que ele usava muito e que são muito presentes na norma não culta, que é o que se ouve na boca das pessoas no dia a dia. Ele desenvolve esse jeito de falar justamente ouvindo nas ruas todos os sotaques dos imigrantes que compunham São Paulo no início do século 20.

Era uma somatória de migrantes italianos, espanhóis, do interior, do Nordeste, que faziam esse caldeirão que era São Paulo e produziam esse “falar errado” que foi muito bem captado por ele e por um parceiro dele, o Osvaldo Moles, que era o criador dos tipos que ele fazia na rádio. Eles faziam crônicas humorísticas na rádio com esse jeito de falar.

O que o Adoniran traz de novo é transportar essa linguagem que ele desenvolveu nos personagens de rádio para os sambas. Isso era totalmente inédito e é aí que ele adquire esse estilo tão peculiar. Por isso ele teve destaque, por esse estilo tão único.

Acho que esse linguajar foi incorporado e você ainda é capaz de ouvir em muitos cantos essa maneira de “falar errado” que ele reproduziu – não é que ele inventou, ele só reproduziu mesmo coisas que eram ouvidas na boca do povo e que se ouve até hoje.

Em um certo momento no documentário, é dito que os sambas de maior sucesso de Adoniran (como “Saudosa Maloca”) são os que falam de uma cidade em transformação. Que transformações eram essas que São Paulo atravessava na época?

Pedro Serrano O Adoniran viveu praticamente a São Paulo do século 20 inteiro, desde os anos 1920 e 1930 até 1982, quando ele morreu. Ele assistiu à transformação de uma cidade que ainda tinha um quê de provinciana, bem no começo do século, em uma metrópole, uma megalópole. ​​

Ele viu casas, cortiços sendo derrubados para dar lugar a prédios, a pavimentação de ruas, a extinção do bonde, que era uma coisa tão típica e perdeu lugar para os veículos automotores.

Ele canta em música, por exemplo, a transformação da Praça da Sé, que era também mais provinciana, onde, como ele canta na letra, as pessoas namoravam, conversavam. Depois ela é transformada em um grande centro de distribuição de pessoas, quando se faz a estação [de trem] da Sé. Ela vira um lugar de passagem, por onde as pessoas passam para fazer baldeação. Ganha uma conotação muito mais de cidade grande. Ele viu a construção do Viaduto Santa Ifigênia, que ele também canta em música, um sinal do progresso.

O que permanece da São Paulo dos sambas de Adoniran? Eles ainda traduzem de alguma forma a cidade?

Pedro Serrano Traduzem. O paralelo que procuro fazer no filme é justamente entre a cidade do nosso tempo e da época dele. A única diferença é que a do nosso tempo é cada vez mais vertical e ganha cada vez mais concreto. De resto, ela é toda semelhante: toda a questão dos prédios, da especulação imobiliária que ele cantou é totalmente atual, ainda existe na cidade. ​​

Grande parte das crônicas musicais dele, dos sambas, são destinados a contar histórias de especulação imobiliária, gentrificação, desigualdade social. Isso sem dúvida se preservou no cenário da cidade. Todo paulistano que caminha pelas ruas ou que tenha um vizinho que morava numa casa há 50 anos e a viu ser derrubada para virar prédio tem isso em si.

Ele tem uma música, “Aguenta a mão, João”, que conta da enchente tirando a casa dos pobres. Ele canta sobre a desigualdade social, as pessoas que não têm moradia, em músicas como “Despejo na favela”, que é uma das músicas dele que eu mais gosto e que também é super atual. Hoje em dia, os despejos na verdade muitas vezes se transformaram em incêndios criminosos. Em todas essas questões sociais, os problemas infelizmente persistem e a cidade é a mesma.

É importante destacar a cidade como personagem do filme e que o retrato [que o filme faz] dele vai além do Adoniran óbvio e mais conhecido por todos, o cara engraçado e divertido. A gente procura mostrar também, com depoimentos de pessoas mais íntimas que conviveram com João Rubinato – o nome verdadeiro dele, por trás do personagem Adoniran Barbosa –, essa figura mais profunda, atenta às mazelas sociais, que acaba se revelando até mais calada, melancólica e triste.

Como seria um samba de Adoniran feito sobre a São Paulo de hoje?

Pedro Serrano Olha... boa pergunta, hein? Eu acho que, como cronista da vida cotidiana, chuto que ele seguiria nos temas que ele já cantou, seguiria falando do tema da moradia e dos prédios que surgem. Eu acho que ele falaria do trânsito, que é algo muito presente na metrópole. ​​

Ele ia dar algum jeito de retratar como é o cotidiano desse cidadão que passa o dia inteiro num carro, por exemplo. O Uber é uma profissão à qual eu tenho certeza que ele estaria atento, pela questão da precarização do trabalho. Ele ia arranjar algum jeito de inserir esse personagem [nas composições], na cidade e no contexto social dele.

Um entrevistado, amigo dele, um dia me falou que acha que ele faria também alguns sambas sobre a internet. Ele sempre abordou muito a transformação do modo de viver, sem dúvida se estivesse vivo quando surgiu a internet ele tocaria nesse assunto. Sem dúvida, olha eu! Quem sou eu para falar o que ele faria. [risos]

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