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Qual o laço entre os evangélicos e Israel, segundo este pastor

Henrique Vieira fala ao ‘Nexo’ sobre as motivações religiosas e as finalidades políticas da relação entre as igrejas brasileiras e o Estado israelense

    O pastor Henrique Vieira é uma voz dissonante no ambiente das igrejas pentecostais e neopentecostais no Brasil. Jovem e de esquerda, ele defende que esse é um campo mais “heterogêneo, diverso e em disputa” do que parece.

    A posição contrasta com o que fazem parecer as lideranças mais conservadoras de um setor religioso que já representa 23% da população brasileira, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e que, segundo projeções, pode ultrapassar o catolicismo nos próximos 12 anos.

    No Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica, criada em 2003, conta com 8 membros no Senado e 195 na Câmara. A bancada se posiciona em defesa do governo do presidente Jair Bolsonaro e dedica-se a impulsionar pautas conservadoras ligadas sobretudo a questões de gênero e sexualidade.

    No Brasil, os líderes mais proeminentes do movimento decidiram se ligar à extrema direita. Bolsonaro é católico, mas mantém relação próxima com os ritos evangélicos. O casamento dele com a primeira-dama, Michelle, em 2013, foi celebrado pelo pastor Silas Malafaia. O presidente também foi batizado no rio Jordão, em Israel, junto com os filhos, pelo pastor Everaldo, do PSC, e já prometeu indicar um juiz evangélico para o Supremo Tribunal Federal.

    Outra promessa de governo de Bolsonaro é mudar a Embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, cidade disputada pelas três maiores religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Até agora, o Brasil abriu apenas um escritório menor na cidade.

    A ligação dos evangélicos brasileiros com Israel é marcante. Além da alusão a símbolos e ritos originais do judaísmo, muitos pastores também sobrepõem a defesa do Estado de Israel – e mais particularmente a defesa das políticas levadas a cabo pelo atual premiê do país, Binyamin Netanyahu – aos aspectos bíblicos relacionados à “terra prometida”.

    No início de janeiro de 2020, o pastor Henrique Vieira falou na Universidade de Haifa, em Israel, sobre os contornos dessa relação, em evento promovido pelo Instituto Brasil-Israel e pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Nesta entrevista ao Nexo, feita por escrito na terça-feira (14), ele fala de sua percepção, como pastor e ativista político, das questões que marcam o protagonismo evangélico hoje nas políticas doméstica e externa do Brasil.

    Por que tantos cristãos afinados com o atual governo brasileiro são tão engajados na defesa de Israel? E como esse apoio dos evangélicos brasileiros é recebido no Estado de Israel?

    Henrique Vieira Tanto católicos quanto evangélicos se apropriam da imagem bíblica de Israel – na verdade, uma Israel imaginada e idealizada, que sequer tem correspondência com a Israel bíblica.

    Essa Israel imaginária acaba fomentando um projeto de poder, de prosperidade material e de imposição de determinados valores sobre o conjunto da sociedade. Então, Israel acaba aparecendo como um dispositivo que legitima uma teologia política bélica e intolerante, uma convocação de domínio e poder.

    O que consigo perceber é que o atual primeiro ministro de Israel [Binyamin Netanyahu], de extrema direita, se apropria desse apoio. Por exemplo, ele esteve no Brasil na posse de Bolsonaro e fez muitas menções à comunidade evangélica, mais do que propriamente à comunidade judaica, o que me faz concluir que ele faz um uso político desse apoio que é dado a Israel para fortalecer seu próprio governo.

    Existem paralelos em outras parte do mundo para essa afinidade entre evangélicos e o Estado israelense?

    Henrique Vieira Sim, tem paralelo. No Brasil, isso está muito acentuado e evidente, mas não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Aqui na conferência da Universidade de Haifa [realizada de 13 a 15 de janeiro], da qual estou participando, isso ficou evidente com a fala de outros palestrantes. Por exemplo, o que acontece nos Estados Unidos tem profunda relação com o que acontece no Brasil: um cristianismo sionista de direita, que faz essa relação entre Israel, um projeto de poder e domínio global.

    De que maneira esse tipo de debate, tão complexo do ponto de vista das relações internacionais, chega aos fiéis, aos templos e cultos pelo Brasil?

    Henrique Vieira Na verdade, o debate em si, na minha compreensão, não chega aos templos, porque o debate pressupõe uma troca, percepções diferentes, uma análise mais aprofundada do que acontece nas relações internacionais. O debate em si, considerando o significado de debate, realmente não chega.

    O que chega até lá é uma visão mais unilateral, que se pretende única, verdadeira e universal, uma visão que resume tudo a essa vinculação de Israel como centro escatológico, como o lugar escolhido por Deus para a volta do Messias. Portanto, a complexidade das relações internacionais é diluída, a partir de uma visão unilateral que elege essa Israel imaginária como ponto de revelação de Deus e como sinal de volta do Messias. Por isso, insisto que não se trata de um debate.

    Como o sr. avalia até agora a relação do governo Bolsonaro com Israel e que influência a comunidade evangélica teve nela?

    Henrique Vieira Bolsonaro se aproxima de uma Israel imaginária, por um lado. E do primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por outro. Então, é uma aproximação entre dois governos, que têm uma plataforma de extrema direita. Agora, estando aqui em Israel, não dá para dizer que a associação de Bolsonaro é com a sociedade israelense, por exemplo. A sociedade israelense é multiforme, diversa, com conflitos internos, com diversidade política, com partidos de esquerda, com movimentos feministas, LGBT. Existe uma diversidade pulsante aqui. A Israel concreta, do dia a dia, da sociedade – esta é diversa e inclui posições contrárias à do primeiro ministro e à do governo de Bolsonaro.

    Como o sr. avalia a relação do governo Bolsonaro com os evangélicos no Brasil até agora e que papel essa relação deve ter no resto do mandato?

    Henrique Vieira É uma relação utilitária, absolutamente fisiológica e pragmática com algumas vinculações ideológicas. O governo usa a narrativa evangélica para consolidar um espaço na sociedade e legitimar a sua política. Então trata-se apenas de uma aproximação no sentido político. É uma movimentação que, inclusive, busca isolar evangélicos progressistas, pressupõe que o campo evangélico é uniforme, que não tem tensionamentos ou disputas internas. Ou seja, trata-se de uma arquitetura política para a legitimação do governo e não de um vínculo de integridade e efetivo diálogo.

    Bolsonaro, de maneira hábil politicamente, tenta usar o campo evangélico como um trunfo para legitimar seu projeto conservador e antidemocrático. Eu, como pastor e evangélico, quero mostrar que esse campo é heterogêneo, diverso, e está em disputa. Que não são todos que corroboram com essa pauta do governo. Essa pauta, na verdade, é uma pauta “antievangelho”, porque faz da morte uma forma de fazer política.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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