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‘A cultura sempre soube se erguer contra a censura e o desdém’

Escritor vencedor do prêmio Jabuti, Julián Fuks fala ao ‘Nexo’ sobre seu novo livro, o gênero da autoficção e o futuro da literatura brasileira

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    Escritor, crítico literário e doutor em literatura pela USP, Julián Fuks lança domingo (15) “A ocupação”. Antes dele, títulos como “Histórias de literatura e cegueira” (2007) e “Procura do romance” (2012) foram finalistas do prêmio Jabuti, que ele finalmente conquistou em 2015, com “A resistência”. Na ocasião, Fuks se enveredou pelo passado de sua família, a relação hesitante com seu irmão adotivo, e o exílio frente a ascensão da ditadura militar na Argentina. Tudo isso de um ponto vista bastante íntimo, narrando a jornada na forma de autoficção.

    Cunhado em 1977 pelo crítico literário francês Serge Doubrowsky, o termo “autoficção” se refere a um estilo de escrita no qual personagem, autor e narrador dividem o mesmo campo ficcional, com passagens da vida e até características físicas e psicológicas compartilhadas. Alguns escritores famosos no formato são o americano Philip Roth e o sul-africano J.M. Coetzee, ganhador do prêmio Nobel.

    Embora algumas publicações, como a revista francesa Magazine Littéraire, tenham apontado para uma certa saturação do gênero, com o diagnóstico de que a fórmula “caiu em um individualismo infecundo”, a autoficção segue forte e premiada ao redor do mundo.

    Fuks ganhou o prêmio Jabuti em 2015 pelo romance “A resistência”, também um exemplo de autoficção. Antes, foi finalista da premiação literária com “Histórias de literatura e cegueira” (2007) e “Procura do romance” (2012). Em 2018, conquistou o prêmio alemão Anna Seghers de literatura, que já premiou o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro em uma edição anterior.

    Em “A ocupação”, o escritor retoma o alter ego de seu livro anterior, “A resistência”, para acompanhar uma ocupação em um prédio no centro de São Paulo, enquanto aborda também experiências mais íntimas, como a doença do pai e a própria paternidade.

    Em entrevista ao Nexo Julián Fuks fala sobre o novo livro, os limites e a suposta saturação da autoficção, as tendências da literatura brasileira, a crise no mercado editorial e medidas federais à produção literária.

    No seu livro anterior, você conta a história da sua família, do seu irmão e da sua relação com a ditadura argentina. Nesse novo livro, o foco é acompanhar uma ocupação de um prédio no centro de São Paulo. Quais as semelhanças e diferenças de narrar a partir desses dois olhares?

    Julián Fuks Minha preocupação tem sido em escrever autoficções que não sucumbam àquilo que normalmente se critica no gênero, seu narcisismo. Nesses dois livros, a proposta é tentar refletir o modo como as vidas individuais se deixam afetar pela história, pela política, pelos destinos coletivos.

    “A resistência” estava mais centrado nos acontecimentos do passado, as violências, opressões e arbítrios da ditadura que ainda hoje reverberam. “A ocupação” participa de uma preocupação geral: quer refletir o presente, falar de tantas vidas que têm sido afetadas pela violência concreta e simbólica do nosso tempo. Aqui me afasto de mim, e o desafio maior é a aproximação à alteridade, a proposta de deixar que as vozes dos outros ocupem a minha, que as palavras dos outros ocupem o meu livro.

    Quais são os limites entre o relato autobiográfico e a ficção na sua obra?

    Julián Fuks Meus livros recentes têm sido, sim, uma exploração da intimidade, mas não vejo que isso tenha nenhum aspecto indecoroso. A intimidade tem uma potência literária impressionante, convida o leitor a entrar na casa e o engaja na conversa mais sincera que as palavras possam alcançar. Encontram-se assim, talvez, as intimidades de um e de outro, e essa é outra forma de aproximação à alteridade. No íntimo esconde-se também algo mais. Pelo feminismo, descobrimos que o pessoal é político, e cada vez mais visceralmente temos descoberto que o político é pessoal. Esse é o limite da intimidade que busco: aquela que não se converta em exposição banal, aquela que se deixe assimilar como algo maior.

    Alguns críticos dizem que a autoficção é um formato saturado, cujas possibilidades foram exploradas até o limite. Você concorda com isso?

    Julián Fuks Penso a autoficção como parte de um fenômeno maior, o romance a tentar tocar mais diretamente a matéria do real, abdicando para isso dos artifícios da fabulação. São ficções que desconfiam da própria ficção e por isso buscam uma aproximação com outras formas, outros discursos. Não apenas com a autobiografia, mas também com o ensaio, a historiografia, a filosofia, a política, numa série de hibridismos formais que constituem algo mais vasto — que tenho preferido chamar de pós-ficção.

    Por essa perspectiva, não creio que nada vá se esgotar tão cedo. Pelo contrário, acho que ainda há muito para acontecer nessa dilaceração da narrativa fabular, e nesse gesto o narrar pode encontrar uma nova potência, um novo impacto. Cabe desconfiar bastante, aliás, de qualquer vaticínio de fim em âmbito literário: não imagino tempo algum em que a autoficção, a metaficção ou a própria ficção se deixe esgotar.

    Quais tendências você identifica na literatura brasileira atual?

    Julián Fuks Qualquer declaração que ignore a pluralidade da literatura de um país, seja ele qual for, corre o risco de se tornar uma impropriedade. Há muita coisa acontecendo na nossa literatura, e este me parece um momento de especial vitalidade. Mas, se algo cabe destacar, é a preocupação geral que tem proliferado entre autores e autoras de tentar refletir o presente, estes tempos sombrios em que estamos imersos, tentar depurar em obras literárias a barafunda de absurdos que nos atingem diariamente.

    Este momento agudo da nossa sociedade tem ganhado enorme espaço no debate literário e já começa a despontar na concretude das obras, às vezes até de autores centrais como Milton Hatoum e Chico Buarque, e nos romances por vir de Cristóvão Tezza, Tatiana Salem Levy e Ricardo Lisias. Tem nos convocado também a romper com o centro, a buscar outras vozes que se fazem urgentes, vozes silenciadas por décadas, como a de Conceição Evaristo.

    Com a crise do mercado editorial e grandes livrarias como Saraiva e Cultura em processo de recuperação judicial, qual é a perspectiva para os escritores nos próximos anos?

    Julián Fuks Raros escritores assumem esse ofício com a ideia de encontrar nele um sustento estável. A literatura sempre passou ao largo dessas preocupações, e sobrevive justamente por não se render por completo à lógica comercial: essa é mais uma entre as suas formas de resistir. Escritores continuarão escrevendo, seus livros serão publicados — e chegarão até a constituir mercadorias de algum valor. É evidente, por outro lado, que o mercado dos livros passa por uma crise particular que afeta toda a cadeia editorial, e que nos próximos anos a batalha será por encontrar saídas justas e eficazes — dessa como de tantas outras crises que nos devastam.

    Em junho de 2019, o presidente Bolsonaro vetou um concurso para descoberta de novos escritores pela Lei da Política Nacional do Livro. Qual é a perspectiva para a literatura na atual conjuntura da cultura no governo federal? Há boas iniciativas estaduais ou municipais?

    Julián Fuks Este governo é destrutivo em cada uma de suas medidas, tem a destruição como vocação e como objetivo. Sua proposta para a cultura é o silenciamento, a repressão, o cerceamento. Mas, insisto, contra a censura, o desprezo, o desdém, a cultura sempre soube se erguer. Ninguém nunca foi capaz de calar a literatura, mesmo os mais brutos que quiseram calar escritores, ninguém nunca pôde decretar o seu silêncio. Se for sem estímulos oficiais, também sobreviveremos, e faremos da indignação a força para continuar escrevendo.

    ESTAVA ERRADO: A versão original deste texto descrevia, no primeiro parágrafo, a sinopse de "A resistência" se referindo a "A Ocupação". A informação foi corrigida às 14h45 de 16 de dezembro de 2019.

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