‘É preciso começar um movimento de desobediência civil’

Diretor de ‘A vida invisível’, Karim Aïnouz fala ao ‘Nexo’ sobre o cancelamento da exibição do filme na Ancine e sobre o momento do setor audiovisual

    Melodrama centrado na vida de duas irmãs no Brasil de meados do século 20 marcado pelo machismo, o filme “A vida invisível” vem recebendo prêmios ao longo de 2019 em festivais pelo mundo.

    Baseado em um livro de Martha Batalha e dirigido por Karim Aïnouz, a obra foi escolhida para representar o Brasil na corrida por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2020 — os finalistas serão conhecidos em janeiro e a premiação ocorre em fevereiro.

    Na segunda-feira (9), “A vida invisível” foi alvo de uma nova ação do governo do presidente Jair Bolsonaro apontada como censura por artistas: a exibição do filme numa jornada de capacitação de funcionários da Ancine (Agência Nacional do Cinema) foi cancelada, dias depois de cartazes de filmes nacionais serem retirados das paredes da sede da agência no Rio.

    Os servidores viram o cancelamento, ordenado pela Secretaria de Gestão Interna do órgão, como uma represália à classe artística, alvo de ataques de integrantes do governo, incluindo o secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. A justificativa oficial foi de que o projetor da sala de exibição estava com problemas técnicos.

    Os funcionários da Ancine organizaram, então, uma sessão aberta e gratuita do filme, na Cinelândia, centro do Rio, na noite de quinta-feira (12). A exibição será seguida de debate com o produtor do filme, Rodrigo Teixeira, e o ator Gregório Duvivier, do elenco de “A vida invisível”.

    O diretor do longa, Karim Aïnouz, se manifestou por meio de um post no Facebook. Afirmou ser “triste testemunhar os desdobramentos de uma política tóxica e covarde, perpetrada por um governo catastrófico, que põe deliberadamente em xeque a cultura de um país tão abundante quanto o nosso”.

    A ordem para não exibir o filme teria partido de Katiane Gouvêa, secretária do Audiovisual, segundo a coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo. Gouvêa, aliás, não continuará no cargo. O secretário especial da Cultura decidiu exonerá-la “ao tomar conhecimento de que ocorreram fatos em sua campanha eleitoral que, supostamente, podem configurar irregularidade” — ela foi candidata a deputada federal pelo PSD em 2018.

    Em entrevista ao Nexo Karim Aïnouz falou sobre o episódio da Ancine, sobre o contexto geral das ações do atual governo em relação à atividade audiovisual e à cultura, sobre o modelo de fomento ao cinema consolidado nas últimas décadas e sobre os paralelos entre “A vida invisível” e o Brasil de hoje.

    O que explica o fato da exibição do filme para funcionários da Ancine ter sido cancelada?

    KARIM AÏNOUZ É um mistério para mim. Não entendo, estou perplexo. Só poderia especular e acho que não é muito saudável fazer isso a essa altura do campeonato. E não entendo uma coisa que é ainda mais grave: ninguém [da Ancine] explica o que aconteceu. É uma estratégia política clássica, a gente fica falando no vazio. Independentemente de questões ideológicas e políticas, é uma falta de respeito com a economia do país, com uma indústria.

    Na sua opinião, como esse episódio se insere no contexto mais amplo enfrentado pela agência e da relação do governo com a cultura?

    Karim Aïnouz Acho que se insere dentro de um contexto de vilanizar a cultura, de criar uma cortina de fumaça sobre ela e nunca dialogar com os atores culturais de fato. Por exemplo, quem é Katiane Gouvêa? Eu não sei. Como é que tem alguém que toma posse e a gente não sabe qual o currículo dela? É uma pessoa que não tem nenhum diálogo.

    Acho que tem uma vontade de fazer com que a gente se cale. Mas eles têm que ter muito cuidado, porque a gente é muito mais poderoso do que qualquer governo que tenta nos calar. O que se sabe do Brasil lá fora com relação à cultura é muito positivo. O que se sabe do Brasil lá fora com relação ao governo atual é desastroso, catastrófico. Acho que isso pode ser muito negativo para a própria imagem desse governo.

    É uma estratégia constante de desmoralizar um setor da sociedade brasileira que só traz alegria para o Brasil. É, de fato, uma estratégia para nos cansar. Mesmo depois de 48 horas do cancelamento da projeção, não era possível falar com ninguém da Ancine. É como se a gente não existisse. Isso é realmente uma coisa desesperadora.

    Como a agência nacional de cinema de um país não dá os parabéns para filmes que ganharam prêmios internacionais o ano inteiro? Como você explica isso? É um descaso.

    Acho que é um governo, na verdade, antipatriótico, de catástrofe, porque ele prejudica a economia brasileira. É a única maneira que eu posso interpretar isso. Como interpretar um governo que pega os pôsteres nas paredes da Agência Nacional do Cinema, de filmes vencedores nos últimos dez anos, e os retira? A única coisa que eu imagino é que é um governo cujo único interesse é destruir o Brasil.

    A classe artística tem que se mobilizar de maneira mais visível. É constante o ataque que a gente sofre. Acho que está na hora de a gente começar a revidar de maneira concreta o que está acontecendo. Esse eventos têm que ter muito mais repercussão, porque fica parecendo que a gente tem mania de perseguição, quando na verdade a gente está tentando ter um diálogo e é impossível.

    Eu gostaria de interpelar a classe artística para gente começar um movimento de desobediência civil. Ocupar as ruas com o trabalho que a gente faz — é uma coisa super bonita o que vai acontecer agora no Rio, uma exibição do filme pelos funcionários da Ancine num espaço público —, falar mais alto. Porque senão a gente vai ser afogado. Estamos sendo completamente ignorados.

    Se a gente de fato se articular e tiver um movimento de desobediência civil no país inteiro, como está havendo no Líbano, no Chile, na França, em Hong Kong, no Equador, acho que eles vão nos escutar. É uma loucura: o mundo olha para gente, aplaude e o governo brasileiro ignora, é como se a gente não existisse.

    Não existe nenhuma justificativa para o que está acontecendo. Você viu meu filme? Como você explica que esse filme possa ter sido censurado dentro da Ancine? Me explica isso! [risos] Eu estava tentando explicar para os gringos, eu não consigo explicar isso. É inexplicável. É realmente de uma falta de respeito gigante, então acho que a gente tem que reagir a isso.

    Quais os impactos de longo prazo das medidas que o governo tem tomado na área cultural?

    KARIM AÏNOUZ Tem um impacto muito concreto. O Brasil é o segundo maior mercado audiovisual em plataformas de internet e o maior mercado da Netflix depois dos Estados Unidos. A gente é um mercado de audiovisual gigante, e que existe com financiamento misto, como qualquer atividade econômica no Brasil, como a agricultura e a indústria.

    A maneira como o governo está conduzindo a Agência Nacional do Cinema e o Fundo Setorial do Audiovisual é muito perigosa porque pode interromper uma atividade econômica importantíssima para o Brasil. Tem uma consequência concreta no sentido econômico e monetário. Queria que o governo explicasse por que isso está acontecendo.

    Por que é ameaçador? Por que a gente tem que ser ignorado dessa maneira? Acho que a gente realmente incomoda muito e eu queria entender o porquê. Em última instância, é uma estratégia em que não existe uma censura explícita: existe uma censura técnica. A explicação que eles deram com relação ao que aconteceu é que o projetor não funcionou. Mas nunca deram a satisfação de quando ia funcionar pra passar o filme.

    Outra consequência grave é que é um governo que mente constantemente é um governo que não tem legitimidade. Isso é mais sério do que qualquer repercussão que possa haver nas atividades do audiovisual. Um governo que não consegue dialogar com um setor econômico importantíssimo para o Brasil é um governo que não tem legitimidade. Não é à toa que se fala em [se tratar de um] governo autoritário.

    Como era o cenário do cinema brasileiro quando você começou sua carreira? Como esse cenário evoluiu nas últimas décadas?

    Karim Aïnouz Comecei a fazer cinema na década de 1980, começo da década de 1990. Em muitos momentos, eu quase não fiz cinema. Eu vim de Fortaleza, não venho de uma família rica e tive que lutar muito para estar aqui onde estou.

    Consegui fazer meu primeiro filme por conta de apoio público ao cinema. Inclusive voltei a morar no Brasil, porque quando acabou a Embrafilme em 1994 eu estava morando aqui [nos Estados Unidos] e não voltei porque não tinha trabalho.

    Então eu existo e trabalho e estou aqui conversando com você e fazendo os filmes que eu faço por conta de políticas de apoio ao audiovisual, de diversificação do audiovisual, tanto no sentido de gênero [cinematográfico] quanto no sentido geográfico — o Brasil era um país absolutamente centrado no eixo Rio-São Paulo.

    O trabalho da minha geração está aí por conta de uma estratégia muito clara de fomento, de apoio e de celebração do audiovisual e da cultura como um todo. A sensação que eu tenho é uma alegria grande de poder continuar trabalhando, mas, ao mesmo tempo, me coloco no lugar de uma geração que tem 20 anos que está sendo formada [em audiovisual] e não vai ter onde trabalhar.

    A gente criou um modelo econômica e simbolicamente muito saudável nos últimos dez anos e esse modelo tem sido interrompido nos últimos dois. Pensando numa perspectiva mais ampla, pergunto: o que seria do Brasil sem [o filme] “Central do Brasil”, sem “Que horas ela volta?”, sem “Aquarius”, sem tantos filmes que foram feitos nas últimas duas décadas?

    O que os últimos anos permitiram foi que a gente tivesse uma produção audiovisual que nos representa, que é diversa e que é uma atividade econômica muito saudável.

    A Coreia do Sul tem uma estratégia econômica para o audiovisual que é muito forte, que era para onde eu acho que a gente estava caminhando no Brasil. Investimento em formação, nas escolas de cinema, produção, distribuição e a cota de tela, que é o que garante que o público do cinema brasileiro aumente cada vez mais, aumentando o acesso ao cinema brasileiro. A gente estava chegando em um momento muito bonito da cadeia produtiva e de repente isso foi interrompido por razões que eu não sei quais são. São instituições, esforços públicos que levam muito tempo para ser construídos. Não se consegue construir uma Ancine em um ano, mas consegue-se destruir a Ancine em seis meses. Me preocupa muito onde estaremos daqui a dois anos.

    ‘A vida invisível’ é um filme de época. O que tem a dizer sobre o Brasil de hoje?

    Karim Aïnouz Ele tem a dizer que o Brasil de hoje continua um país altamente patriarcal. O que a gente está vivendo em relação ao momento político é diretamente ligado a isso, é um problema endêmico, é o patriarcado em desespero para não sair do poder.

    O filme fala muito disso, claro que através da família da Guida e da Eurídice. Não fala disso como uma plataforma de discurso político frontal, mas através da experiência dessas personagens. Acho também que, como filme de época, possibilita algumas comparações. Mostra como os homens de 1950 são iguais, muito parecidos com os de hoje e como as mulheres avançaram na luta por igualdade de gênero – as mulheres que estão no filme são muito diferentes das mulheres de hoje.

    Ele tenta jogar luz de uma maneira muito íntima sobre um discurso que volta ao imaginário brasileiro. Lembro-me quando a Marcela Temer foi capa da Veja como “bela, recatada e do lar”, um modelo que espelha uma família conservadora dos anos 1950. Acho que o importante do filme é olhar como as mulheres dessa época foram sufocadas. É um filme que tenta olhar para o passado para que através dele a gente aprenda algumas lições, e não repita certas coisas no presente.

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