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As trocas e conflitos que tornam o Rio uma cidade porosa

O ‘Nexo’ conversou com Bruno Carvalho, pesquisador da Universidade Harvard e autor de livro sobre como os bairros e as culturas da capital carioca se conectam e se influenciam

    “Tudo perde o equilíbrio nesta noite”, escreveu o poeta mineiro Murilo Mendes em “Noite carioca”, poema de 1930. Nos versos, sonatas de Beethoven viram “valsas arrebentadas” enquanto “mulatas de brutas ancas dançam o maxixe”.

    A linguagem soa mal nos ouvidos de hoje, mas os versos de Mendes mostram um fascínio com a diversidade da “noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tão gostosa”. Para o poeta, a cidade seria única na sua simpatia e hospitalidade: “A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada”.

    O olhar de Mendes é destacado no livro “Cidade porosa”, de Bruno Carvalho. Pesquisador e professor na Universidade Harvard, Carvalho lançou a obra primeiramente em inglês, em 2013. Para o autor, o conceito de porosidade explica uma trajetória urbana em que grupos sociais se mostram permeáveis a influências de outras camadas. Mas o termo mantém a ambivalência dessas relações e “evita conotações positivas e carregadas de sentidos históricos, como sincretismo ou miscigenação”. “Porosidade também se refere aos limites frequentemente fluidos entre ordem e desordem, popular e erudito, preto e branco, natureza e cidade, público e privado, sagrado e profano, centro e periferia”, afirmou o autor ao Nexo.

    Para Carvalho, a ideia cria uma alternativa “às narrativas que perpetuam a ideia do Rio como cidade partida ou alimentam o mito de uma sociedade de tolerância racial”. Segundo o autor no livro, a cidade “foi capaz de gerar espaços de confluência, trocas, encontros, vais-e-vens”.

    A Cidade Nova

    Carvalho desenvolve seu tema por meio da história da Cidade Nova, bairro surgido logo após a chegada da família real portuguesa ao Rio, no início do século 19. Em uma passagem do livro, o autor define a área como sendo “onde um bairro judeu coexistiu com uma pequena África e ajudou a moldar formas urbanas, musicais, artísticas e literárias de enorme originalidade, verve e beleza”.

    “Na alvorada do Brasil republicano, os moradores da área eram desproporcionalmente analfabetos e nascidos no estrangeiro”, prossegue Carvalho. “A composição de gênero e raça se manteve comparável à da cidade como um todo, mas consideravelmente menos branca do que na Cidade Velha [região central].”

    Foi nos eventos e encontros da Cidade Nova que o samba e os desfiles de Carnaval floresceram. Era ali do lado, no Estácio, que se situava o famigerado Mangue, um aglomerado de casas de prostituição que funcionava sem interrupção desde o fim do século 19.

    O Mangue proporcionou outro espaço de convívio plural, em torno da prostituição e da boemia. Foi frequentado e retratado por artistas como Nelson Rodrigues, Mario de Andrade, Lasar Segall e Manuel Bandeira, que observou que “era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carnavais cariocas”.

    Bruno Carvalho conversou com o Nexo sobre os temas presentes em “Cidades porosas”.

    As histórias do samba e do Carnaval já foram contadas em muitos livros. Qual é o ângulo que seu livro propõe?

    Bruno Carvalho Cidade porosa conta uma história mais abrangente, sobre as relações entre cultura e processos de urbanização no Rio de Janeiro, a partir da chegada da corte portuguesa em 1808. Tento mostrar a evolução da cidade no contexto de diálogos e tensões entre culturas populares e elites, por meio das mais diversas fontes. Literatura, pintura, arquitetura, urbanismo e cinema, por exemplo, também têm um papel fundamental, de forma muitas vezes surpreendente. Temos autores que desfilam preconceitos por manifestações de origem africana e outros, como Machado de Assis, que sutilmente desafiam hierarquias eurocêntricas. Ou ainda o diretor Orson Welles, que percebe na cultura do samba e do Carnaval modelos civilizacionais com os quais o hemisfério Norte teria muito o que aprender.

    E é claro, antes de dar em samba, o Rio reúne uma multiplicidade de sons, associados às mais variadas matrizes africanas, europeias, ciganas, rurais, urbanas, e por aí vai. E surgem gêneros como o maxixe e o choro. Apesar das desigualdades, o Rio foi capaz de gerar espaços de confluência, trocas, encontros, vais-e-vens. Parte da formação musical do Jacob do Bandolim, por exemplo, passa pela experiência de ouvir na sua vizinhança um francês que tocava violino e um sujeito que cantava modinhas na rua.

    O livro tenta entender a cultura por meio da cidade, e vice-versa. Não faltam escritores canônicos, mas Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola e outros músicos despontam como intelectuais tão ou mais importantes do que os literatos, teóricos e especialistas. O samba nos ajuda a pensar não só o Rio de Janeiro como o próprio século 20 e a aventura da modernidade urbana.

    De que forma o conceito de cidade porosa ajuda a entender o Rio de Janeiro?

    Bruno Carvalho Como categoria de análise, a porosidade oferece uma alternativa às narrativas que perpetuam a ideia do Rio como cidade partida, ou alimentam o mito de uma sociedade de tolerância racial. O livro foca em áreas e momentos particularmente marcados por misturas e circulação, como a Praça Onze da “pequena África” e do “bairro judeu” e o Mangue da zona do meretrício na década de 1920. Os fluxos e as fronteiras perfuradas têm a ver com cidades portuárias de modo geral – porto e poroso vêm de poro. Não faltam cidades mais multiétnicas, mas a história carioca se sobressai pela ausência de bairros ligados a uma única minoria étnica, com limites bem definidos. Porosidade também se refere aos limites frequentemente fluidos entre ordem e desordem, popular e erudito, preto e branco, natureza e cidade, público e privado, sagrado e profano, centro e periferia.​

    O Rio moderno sempre foi poroso e dividido. As divisões refletem a escravidão e seus legados, assim como outras desigualdades estruturais. Não há nada natural no Rio do morro e do asfalto. Uma das questões centrais do livro é como, na primeira metade do século vinte, no plano cultural, prevalece a celebração das misturas, enquanto no plano do urbanismo predominam princípios segregatórios. O livro tenta desvendar as múltiplas camadas, contradições e consequências dessa história complexa e fascinante às vezes encantadora, outras vezes dolorosa.

    Por que você prefere trabalhar com a ideia de porosidade do que com a de miscigenação ou hibridismo?

    Bruno Carvalho Porosidade é ambivalente e evita conotações positivas e carregadas de sentidos históricos, como sincretismo ou miscigenação. E pode ter usos mais precisos do que hibridismo. Afinal, a rigor na cultura tudo é híbrido, e a pureza é sempre uma fantasia. Já a porosidade pode se referir a espaços culturais mais abertos: um bloco de carnaval, por exemplo, comparado a um concerto no Teatro Municipal. A porosidade nem sempre é bem-vinda ou mesmo desejável na cultura, e, ainda que ela possa ser essencial para a vitalidade de uma festa de rua, pode ser prejudicial em outros campos. No exercício da lei, por exemplo, normalmente é preferível ter limites bem definidos. No livro, as misturas musicais da Praça Onze e a exploração de mulheres na zona do Mangue exemplificam a porosidade. No contexto atual, podemos perceber a porosidade nas relações entre grupos criminosos e agentes da lei. Onde terminam as instituições oficiais e começam as narcomilícias, por exemplo?​

    De que forma a comparação entre cidades americanas e brasileiras ajudou você a desenvolver esse conceito da cidade porosa?

    Bruno Carvalho Por mais difícil que seja generalizar, existem paralelos. Penso no planejamento urbano em prol do automóvel, outro tema do livro. Em cidades americanas e brasileiras, o racismo é quase uma constante em processos de urbanização, assim como o papel de afrodescendentes na história da cultura. Ao mesmo tempo, não há nada nos Estados Unidos como o que a Cidade Nova representou do Brasil nas primeiras décadas do século 20. No Rio dessa época não tivemos guetos quase que exclusivamente habitados por negros, nem terrorismo racial como em cidades norte-americanas, onde brancos proibiam o acesso de minorias a certos espaços, muitas vezes com enorme violência. Se em cidades americanas os bairros de baixa renda eram segregados por raça, no Brasil tivemos uma enorme diversidade demográfica em favelas, nas gafieiras da Cidade Nova, nas escolas de samba, e por aí vai. Agora, a circulação e as mesclas são um aspecto central da cidade porosa, mas não pressupõem igualdade de direitos ou de acesso a oportunidades. E a comparação com os EUA também ajuda a relevar algumas dinâmicas contemporâneas: no Rio, alguns espaços dominados por elites permanecem quase que exclusivamente brancos, algo que hoje se vê menos nos Estados Unidos. Há também um compromisso importante por parte de elites urbanas, no sentido de confrontar legados do racismo estrutural. Já no Rio é escandaloso como em certos círculos considera-se normal uma polícia que mata (e morre) tanto, sobretudo jovens negros.​

    O Rio de Janeiro perdeu espaços e frestas para trocas com o tempo? Quais as forças e fenômenos por trás dessa diminuição?

    Bruno Carvalho Num certo sentido, o livro mostra como espaços de misturas ou porosidade são alvos de projetos de “modernização”, como reformas urbanas. Há uma intenção nítida de minar certos aspectos de fluidez e intercâmbio da vida urbana carioca, sobretudo após a proclamação da República. Mas, na história do planejamento urbano, o imprevisto é via de regra. As pessoas inventam novos usos para velhos espaços e velhos usos para novos espaços. A avenida Presidente Vargas foi projetada na década de 1940 para servir como palco para desfiles militares e hoje recebe manifestações populares. No pós-guerra a opção pelo automóvel só se consolida, possibilitando um modelo de expansão espraiada menos afeito às frestas e aos encontros fortuitos. Eu diria que o outro fenômeno que define a história cultural carioca das últimas décadas é a desastrosa “guerra às drogas”. A militarização do combate ao tráfico de drogas é uma opção pela violência. O que deveria ser tratado com inteligência e como um problema de saúde (e aduana) virou um fenômeno que fez com que a cidade perdesse parte dos seus espaços compartilhados e muitas de suas vidas. Não é minha área, mas imagino que exista aí uma relação com a ascensão das igrejas neopentecostais.​

    No Rio, as trocas entre classes sociais parecem acontecer majoritariamente em situações de lazer, em que muitas regras são temporariamente suspensas. Como você pontua, o mesmo não acontece no ambiente de negócios ou no sistema educacional. Isso limita o impacto maior que essas trocas poderiam ter na sociedade?

    Bruno Carvalho Trocas entre classes sociais acontecem nas ruas, no transporte público, nas esquinas, nas festas populares, nos lugares de culto, e também no trabalho – só que com frequência, as trocas se dão em condições altamente assimétricas. Claro, estabelecer uma maior igualdade no acesso às oportunidades e aos direitos básicos aumentaria o alcance e impacto das trocas. Nesse sentido, o universo cultural carioca pode servir de exemplo para o mundo dos negócios. Historicamente há muito mais “meritocracia” no samba e no carnaval, afinal.​

    Na educação superior pública tivemos um aumento animador da inclusão, mas que agora está sob grave ameaça. Níveis de desigualdade como os que temos no Brasil evidentemente dificultam as possibilidades de trocas. Ao meu ver é algo que se agrava na medida em que o Rio se torna uma cidade mais segregada, entre condomínios fechados e comunidades sitiadas. E ainda não está de todo claro quais são as consequências das mediações digitais na vida social, mas isso é um papo para outra entrevista.

    Em um trecho você assinala que da Cidade Nova “emerge boa parte do que veio a ser considerado brasileiro”. De que maneiras a experiência social e cultural daquela área contribuiu para a construção de uma identidade nacional?

    Bruno Carvalho A Cidade Nova no período do livro era uma área bem maior do que hoje, que servia como ligação entre o centro, a zona norte, a região portuária e os muitos morros adjacentes – inclusive a Providência, que podemos considerar a primeira favela. Por lá se desenvolvem expressões culturais que passam a servir como denominadores comuns da brasilidade, como o samba e o Carnaval. E também uma ideia do Brasil como país definido pelas misturas raciais. Não foi necessariamente uma contribuição consciente ou deliberada dos moradores de lá. Nas décadas de 1920 e 1930, uma série de artistas, poetas e cientistas sociais pioneiros enxergam e projetam nessa região do Rio de Janeiro uma imagem que acaba se disseminando como definidora da “identidade brasileira”, feita de misturas. A efervescência cultural de lá estimula uma produção artística e intelectual excepcional. Ao mesmo tempo, nos escritos sobre a Cidade Nova de então começa a se prefigurar o mito da democracia racial, com todas suas negações. ​

    Como você vê a popularização do funk, um ritmo da favela, inicialmente marginalizado pelo bom gosto e hoje ouvido em todos os estratos sociais? Ele pode ser visto como um exemplo moderno da porosidade da cidade?

    Bruno Carvalho O funk de fato penetra em todos os estratos sociais, mas não falta quem torça o nariz. Não resta dúvida, é mais um capítulo na história da porosidade carioca, ainda que já muito marcada pelas realidades de um tecido social cindido pela violência urbana. O funk reúne os elementos e personagens mais diversos, num momento em que a circulação musical ganha em dinamismo por meio de novas tecnologias. O Miami bass e outras sonoridades chegam pelas gravações, já não mais por imigrantes. E [o funk] é um gênero que dialoga com o samba, mas não se prende a tradições locais, aberto a uma série de outras sonoridades – parafraseando Silviano Santiago, podemos falar em um cosmopolitismo da favela.​

    Uma grande obra urbana, a construção da avenida Presidente Vargas, descaracteriza profundamente a Cidade Nova do samba e do Carnaval. Entender a cidade é chave para entender suas manifestações culturais?

    Bruno Carvalho Cidade e cultura se entrelaçam o tempo inteiro. O que faz a cidade, afinal, são as pessoas. Na modernidade urbana, nos acostumamos a viver entre estranhos. E as relações entre as pessoas são mediadas e negociadas por meio da cultura, dos códigos, dos denominadores comuns. De fato a construção da avenida Presidente Vargas desconfigura a Cidade Nova, demolindo boa parte dos seus prédios e acabando com seus espaços centrais, como a Praça Onze. Mas as transformações urbanas não chegam a apagar o passado, que vai se reconfigurando e ganhando novos sentidos e sobrevidas. Uma das características importantes da região durante o século 19 e começo do 20 é que se podia viver ali com uma infraestrutura decente, a preços razoáveis, por razões inusitadas. Entre outros fatores, a estabilidade financeira do funcionalismo público, as atividades econômicas e sociais das chamadas “tias baianas”, as organizações da região portuária, isso tudo produziu o tempo, o espaço e uma dignidade que também ajudou a fomentar as condições para a criação de boa parte do melhor da cultura carioca.​

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