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Quais as marcas da imigração brasileira em Paris

Jornalista Adriana Brandão fala ao ‘Nexo’ sobre a contribuição dos brasileiros para a história e a formação da capital francesa

A jornalista Adriana Brandão lançou em novembro um livro que conta as principais passagens dos 500 anos de presença de brasileiros ilustres e desconhecidos por Paris.

O livro, chamado “Os Brasileiros em Paris – Ao Longo dos Séculos e dos Bairros”, em tradução livre, foi lançado apenas em francês, e faz parte de uma coleção da editora Chandeigne que pretende mostrar a contribuição de estrangeiros na história e a formação da capital francesa.

No caso dos brasileiros, a história é antiga. Ela começa no século 16, com a indígena tupinambá Paraguaçu sendo batizada em Paris e tendo como padrinhos o rei Henrique 2º da França [1547-1559] e a rainha Catarina de Médici – de quem Paraguaçu passou a herdar o primeiro nome, Catarina.

No livro, Brandão apresenta biografias de brasileiros ligados aos campos das artes, da política, da tecnologia e da medicina. Ela mostra o distrito parisiense em que cada biografado viveu e também as marcas que cada um deixou – em placas, nomes de ruas, de praças e monumentos públicos.

Nesta entrevista ao Nexo, Brandão, que é também doutora em história e trabalha na Rádio França Internacional em Paris desde 1997, fala dessa relação antiga e de suas marcas na cidade, além dos métodos e fontes de pesquisa usados para escrever o livro.

O que se sabe sobre a presença dos primeiros brasileiros na capital da França?

Adriana Brandão O primeiro brasileiro, ou melhor, a primeira brasileira que teria vindo a Paris foi Paraguaçu [indígena tupinambá da Bahia do século 16]. A história dela ficou famosa com o poema Caramuru, escrito por [José de] Santa Rita Durão [poeta jesuíta luso-brasileiro do século 18]. O texto é provavelmente uma lenda, mas ele mostra que as raízes da relação entre a França e o Brasil são antigas.

Paraguaçu e Caramuru – que era um aventureiro português [chamado Diogo Álvares Correia] – vieram para a França em uma nau francesa que tinha ido à costa brasileira para explorar o pau-Brasil. Aqui na França, ela foi batizada [como Catarina Paraguaçú] e eles se casaram, tendo como padrinhos o rei Henrique 2º da França [1547-1559] e a rainha Catarina de Médici.

Mais tarde, em 1613, seis índios tupinambá do estado Maranhão vieram a Paris para pedir ao Rei Luís 13 [1610-1643] apoio para a França Equinocial, que foi a segunda tentativa francesa de colonização do Brasil, no Maranhão [após a tentativa fracassada de fundar a França Antártica no Rio de Janeiro, em 1555]. Esses indígenas foram recebidos e batizados no Louvre, mas o apoio nunca aconteceu, e a França Equinocial acabou reconquistada pelos portugueses em 1615.

Esses 500 anos de presença brasileira em Paris deixaram marcas ao longo da história?

Adriana Brandão Há muitas marcas visíveis, como placas, nomes de ruas, de praças e monumentos. O brasileiro mais visível na geografia parisiense é, sem dúvida, Santos Dumont, pioneiro da aviação, que foi fundamental para o desenvolvimento tecnológico francês.

Há uma rua e uma ruela em Paris com o nome do pai da aviação. Ambas ficam no 15º distrito de Paris, em Bagatelle. Há ainda um monumento que o voo do 14 Bis, em Bois de Boulogne, além de placas na cidade lembrando as façanhas dele, como a placa que está na frente do prédio onde ele morou, na avenida Champs-Elysées.

Mas ele não foi o único pioneiro da aviação que entrou para a história francesa. Augusto Severo também inventou balões dirigíveis e morreu num acidente com um deles, em Paris, em 1902. Há uma placa, na avenida do Maine, que lembra essa tragédia. Há também uma rua no 14º distrito da capital que leva o nome de Augusto Severo.

Foto: Biblioteca Nacional da França – 1887
Ilustração de Dom Pedro II na imprensa francesa de 1887
Ilustração de Dom Pedro II na imprensa francesa de 1887

Outro personagem importante – e que, em sua época, era chamado de o brasileiro mais importante de Paris, pelo escritor Jean D’Ormesson – é o embaixador Luiz Souza Dantas [1876-1954]. Ele foi embaixador do Brasil na França por 22 anos e, na Segunda Guerra Mundial [1939-1945], na Ocupação Nazista [1940-1944], contrariou o governo de [Getúlio] Vargas e concedeu vistos a centenas de refugiados, principalmente judeus. Por isso, ele foi reconhecido “justo entre as nações” [título outorgado por Israel a pessoas que arriscaram suas vidas para salvar judeus do holocausto]. Há uma placa no antigo endereço da Embaixada do Brasil em Paris, na avenida Montaigne, lembrando a vida de Souza Dantas até a morte dele, em 1954. Ele foi também um dos fundadores da importante Casa da América Latina, que existe até hoje, divulgando a arte e a cultura da região na França.

Há uma outra placa importante no 15º distrito, num hospital, que lembra que o Brasil foi o único país da América do Sul a participar da Primeira Guerra Mundial [1914-1918], ao lado da França e dos aliados, contra a Alemanha. Para agradecer esse apoio, há uma praça de Paris batizada de Praça do Brasil.

Tem também uma rua chamada Oswaldo Cruz [médico sanitarista brasileiro]. Ele estudou no Instituto Pasteur no final do século 19 e iniciou uma parceria importante entre os dois países no setor científico, que existe até hoje.

Além disso, no bairro do Marais, tem ainda a Capela da Humanidade, que foi fundada pelos positivistas brasileiros. Aliás, graças a eles, e especialmente a Paulo Carneiro, o legado do [filósofo francês] Auguste Comte foi preservado na França, a começar pela casa onde ele morou, no quinto distrito.

Por fim, há uma placa sobre dom Pedro II em frente ao hotel onde ele morreu no exílio, em 1891, o Bedford. Dom Pedro era adorado pelos franceses e recebeu uma homenagem solene da república francesa na sua morte, organizado na igreja da Madalena.

Qual a característica da imigração brasileira na França atualmente? E como esses brasileiros são recebidos por uma França onde cresce o rechaço à imigração?

Adriana Brandão Até os anos 1990, a imigração era sobretudo de representantes da elite e de universitários. Há uma parceria antiga entre a França e o Brasil nessa área, que vem desde a independência do Brasil, no século 19. A partir dos anos 1990, com o fim da exigência do visto, essa imigração passou a ser principalmente econômica, e cresceu muito.

O consulado estima em 110 mil o número de brasileiros na França atualmente, principalmente em Paris. Apesar de alguns terem documento falsos e estarem ligados a redes ilegais, sobretudo portuguesas, eu diria que a imagem dos brasileiros aqui ainda é positiva. Eles não sofrem tanto quanto outros imigrantes, contra os quais há uma discriminação muito grande.

Persistem ainda clichês em relação aos brasileiros, como a mulata, o brasileiros sambista, o brasileiro que gosta de festa, de futebol. Tem o clichê do travesti, que era ainda mais forte nos anos 1990.

Quando o Brasil estava bombando, isso foi ainda potencializado. Hoje, com a imagem muito negativa que o Brasil tem junto aos franceses, desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, as pessoas estão tão impressionadas que nos perguntam: “O que está acontecendo com o Brasil?”

Qual foi o papel de Paris na acolhida a exilados da ditadura militar brasileira, no período de 1964 a 1979, ano da Lei da Anistia?

Adriana Brandão Paris foi a capital do exílio político brasileiro durante a ditadura militar. Exilados foram acolhidos em vários países e cidades da Europa e da América, mas a França recebeu o maior número de exilados e de auto-exilados também, principalmente depois do golpe de 1973 no Chile. Muitos tinham sido acolhidos no Chile, mas após a queda de [Salvador] Allende, vieram para a França.

Paris recebeu muitos jovens nessa segunda onda, depois do AI-5 [1968]. A acolhida foi bem organizada após 1973, mas, antes disso, como era a época da Guerra Fria [1945-1991], sob o governo era de Charles de Gaulle [1959-1969], nem todo mundo era recebido de braços abertos. Um exemplo disso é o do Miguel Arraes [governador de Pernambuco, deposto pelo golpe de 1964], que não teve o direito de residir na França. Ele ficou exilado na Argélia e vinha com frequência a Paris, mas não teve o visto de residência.

Outro que teve dificuldade para vir como exilado foi Apolônio de Carvalho [1912-2005], que chegou na Argélia e só pode vir à França depois que associações de veteranos franceses intercederam por ele. Apolônio havia lutado ao lado da Resistência Francesa contra a ocupação nazista.

Aqui, como era a capital do exílio, a oposição brasileira tentou se organizar, fazendo publicações que denunciavam as atrocidades do regime e fazendo o movimento pela Anistia, que veio em 1979, quando a maioria dos exilados foi embora. Só 60 dos mais de 1.500 exilados ficaram aqui na França.

Como foi seu processo de pesquisa? Quais foram suas fontes e o que você pode dizer sobre esse acervo para outros pesquisadores interessados no tema?

Adriana Brandão As fontes de pesquisa dessa relação franco-brasileira são muito extensas, porque existe uma tradição universitária entre a França e o Brasil, com muitas teses, muitos livros que tratam dessa cooperação em diversas áreas. Usei muitas fontes acadêmicas.

Eu fiz uma primeira lista bem extensa sobre os brasileiros que passaram por aqui desde 1500 até mais ou menos 1990, apesar de eu mencionar algumas pessoas depois dessa data, como por exemplo, a menção ao Jardim Marielle Franco, que foi inaugurado em outubro pela Prefeitura de Paris.

Esse acervo, para outros pesquisadores, está disponível principalmente na Biblioteca Nacional da França [BNF], que eu usei muito, e que tem uma biblioteca digital maravilhosa, chamada Gallica. Todos os documentos mais antigos, até meados do século 20, já foram digitalizados por ela e estão disponíveis gratuitamente.

Além disso, a BNF fez uma parceria com a Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Na plataforma França-Brasil há vários documentos que tratam desses laços de 500 anos entre os dois países.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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