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A fotografia como arma imperialista, segundo esta autora

Uma das teóricas da fotografia mais relevantes da atualidade, Ariella Azoulay lança novo livro nos EUA e falou ao ‘Nexo’ durante uma visita a São Paulo

As origens da fotografia costumam ser contadas a partir das inovações tecnológicas que possibilitaram seu surgimento e dos feitos de cientistas e empresários responsáveis por impulsioná-las.

Em seu novo livro, a pesquisadora Ariella Azoulay, nascida em Israel e radicada nos EUA, propõe revisitar essas origens. Ela questiona os mitos fundadores da fotografia, restabelecendo sua conexão com a exploração colonial e contestando práticas imperialistas modernas que ajuda a perpetuar.

“Em vez de conceber a fotografia como um meio de registrar episódios pontuais de destruição, nós precisamos nos perguntar de que maneira ela participou da destruição e, finalmente, analisar como, e se, a partir desse reconhecimento, a fotografia pode nos ajudar a imaginar formas de sair dela”

Ariella Azoulay

Em ensaio publicado na revista Zum

Lançado em novembro de 2019 nos Estados Unidos, onde Azoulay leciona na Universidade Brown, o livro “Potential History: Unlearning Imperialism” (“História potencial: Desaprendendo o imperialismo”, em tradução livre) não tem data para chegar ao Brasil. Um conjunto de ensaios de Azoulay com as principais ideias do livro, porém, foi publicado na edição 17 da Zum, revista de fotografia do Instituto Moreira Salles, lançada no fim de outubro de 2019.

 

Azoulay também esteve em São Paulo para o Festival Zum 2019, no qual participou de uma conversa com a antropóloga Lilia Schwarcz. Na sexta-feira (1), Azoulay falou ao Nexo por telefone sobre o contexto político da invenção da fotografia, a conexão entre o direito de circulação de fotógrafos e a ação do poder militar nos territórios e a possibilidade de agência desses profissionais com relação aos usos imperialistas da tecnologia fotográfica.

Qual a relação entre a origem da fotografia e a violência de impérios coloniais?

Ariella Azoulay O imperialismo estava em vigor quando a fotografia foi inventada no fim dos anos 1830, segundo os livros tradicionais de história da fotografia. O imperialismo não é apenas um movimento de expansão, é também um regime de destruição.

Quando pensamos na fotografia no contexto do imperialismo global, é difícil não enxergá-la como uma tecnologia de extração – fotógrafos eram autorizados a perambular com suas câmeras e tirar fotos de pessoas contra a vontade delas ou fora de qualquer relação de reciprocidade.

O imperialismo tomou terras, recursos, objetos e a fotografia continuou, tomando imagens. Essa continuidade deveria impedir que nos relacionemos com a fotografia como uma tecnologia nova e autônoma.

Quando o imperialismo começou a destruir o mundo e a inventar, violentamente, “novos mundos”, ele estabeleceu as bases para [o surgimento de] muitas tecnologias que estavam por vir. O [que o imperialismo se refere como] “novo mundo” é uma economia de violência e extração. Ainda que fotógrafos possam individualmente agir com outras motivações e intenções, mesmo assim são parte dessa tecnologia de extração.

Nesse sentido, convido as pessoas a pensar que as origens da fotografia remontam a 1492, ou por volta desse ano. Não devemos deixar que a concepção de tempo do imperialismo determine a forma como narramos a história. É por isso que rejeito a ideia de que a fotografia começa com a invenção da máquina fotográfica.

Como a fotografia participou da destruição empreendida pelos colonizadores?

Ariella Azoulay Por muito tempo, a divisão do trabalho em torno da fotografia era igual à de outras profissões imperiais. De um lado havia uma camada reduzida de especialistas, que gozavam de direitos imperialistas, e de outro, pessoas que eram consideradas matéria-prima, independente de sua vontade.

Com isso, os fotógrafos e as instituições para as quais trabalhavam enriqueceram com as fotografias, e as populações [coloniais] foram expropriadas também de suas imagens. É assim que nos encontramos hoje em uma situação na qual o que chamo de riqueza visual – ou seja, fotografias – está essencialmente nas mãos de museus e arquivos ocidentais, que capitalizaram isso de muitas maneiras.

Sob o imperialismo e o capitalismo racial, olhar para os outros, quanto mais tirar fotos deles, é tudo menos inocente. A observação sempre teve um propósito. Um dos propósitos da observação fotográfica era enriquecer o conhecimento e o poder dos regimes imperiais sobre as pessoas que eram governadas por eles.

Eles tiraram fotos nas colônias de pessoas que haviam sido expropriadas de boa parte do que tinham, e colecionaram essas fotografias. Não é que criaram imagens para deixá-las nas mãos das comunidades das quais foram tiradas. Hoje, sempre que pesquisadores querem estudar a história de diferentes lugares do mundo, eles vão a museus, arquivos e coleções de universidades, em instituições ocidentais.

Quando você se dá conta da quantidade de fotografias acumuladas nessas coleções públicas e privadas e compara ao que ficou nas antigas colônias, você entende a dimensão do roubo. É um processo muito similar à extração de outros materiais.

O que são direitos imperialistas e como fotógrafos se beneficiaram deles?

Ariella Azoulay No século 19, fotógrafos não podiam ir a nenhum dos lugares aos quais tinham acesso sem que forças militares “abrissem” caminho para eles. Muitos fotógrafos integraram diferentes expedições de conquista e pilhagem. Outros agentes imperiais concederam aos fotógrafos o direito de olhar para as pessoas naqueles lugares. Os agentes dividiam os troféus entre eles. Fotógrafos não precisavam necessariamente exercer violência, se apoiavam nos outros para entrar nas diferentes comunidades.

Desde o início e mesmo hoje, quando fotógrafos conseguem entrar em zonas de desastre ou de perigo, chegam lá com o exército. O poder militar “abre” um território, normalmente contra a vontade daquelas comunidades.

Fotógrafos foram treinados para acreditar que estão fazendo um trabalho intelectual, artístico ou moral ao documentar a vida dos outros e reportar o que está acontecendo nos lugares afetados por desastres. Mas eles raramente se perguntam como obtiveram o privilégio de chegar a esses lugares e reportar sobre as histórias imperialistas que os tornaram tão vulneráveis a novas catástrofes.

Há uma espécie de moral dupla na fotografia que estou tentando abordar, que é a crença de que eles [fotógrafos] estão fazendo a coisa certa, mas em contrapartida negam seus direitos e privilégios imperialistas. Pense na invasão do Iraque [em 2003] e nos novos recursos visuais que foram explorados como parte da campanha de destruição ocorrida lá.

Historicamente, quem teve o direito de tirar fotografias? De outro lado, quem foram em geral os fotografados e espectadores? Com isso, o que as fotografias revelaram e o que deixaram de revelar?

Ariella Azoulay Historicamente, houve mais câmeras nas mãos daqueles que gozavam de direitos imperialistas do que nas do povo colonizado. Isso mudou muito recentemente, mas não podemos ignorar o papel da acumulação primitiva de riqueza visual sobre a qual cada ato de tirar fotografias está assentado.

Ainda hoje, as grandes coleções do que é chamado de fotografia etnográfica e as grandes coleções de cartões postais, que formavam uma enorme indústria visual no século 19, são geridas por atores imperialistas e mantidas em antigas potências coloniais, como França, Inglaterra e Alemanha.

Não é que pessoas que possuíam direitos imperialistas não tenham sido fotografadas, elas foram. Mas elas tinham um conjunto distinto de direitos para negociar essas fotografias. Aqueles cujas comunidades foram destruídas e que foram deixados praticamente mudos e sem posses foram forçados a se tornar os objetos pitorescos do que é a chamada “tradição humanista” da fotografia que documenta populações em sofrimento.

Se a fotografia foi constituída para estar a serviço da destruição, é possível um fotógrafo se posicionar fora dessa lógica? Como?

Ariella Azoulay Ao longo de toda a história da fotografia, muitos fotógrafos tentaram se relacionar com a fotografia de outra maneira. Essas tentativas são importantes, e devem ser consideradas paralelamente aos esforços de fotografados que são parte de comunidades que foram exploradas.

No entanto, isso não muda os princípios gerais segundo os quais a fotografia opera em larga escala e segundo os quais foi mobilizada por atores imperialistas.

Já que fotógrafos foram historicamente dotados desses direitos e privilégios, eles também têm o poder de intervir nesse regime e de usar seu poder não apenas para produzir mais imagens, mas por vezes também para entrar em greve, retendo as imagens ou reivindicando seus direitos sobre imagens já feitas, expropriando as mega estruturas de poder do exercício pleno de direitos sobre essas imagens, do comando que coloca os outros sob vigilância e perfilação.

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