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Por que os chilenos estão na rua, segundo esta pesquisadora

Rossana Castiglioni fala ao ‘Nexo’ sobre as raízes políticas e econômicas da onda de manifestações chilenas em 2019

     

    O Chile vive atualmente uma crise de legitimidade, uma crise dos atores e das instituições políticas, disse ao Nexo a doutora em ciência política Rossana Castiglioni, em entrevista na quinta-feira (31) por telefone.

    A maior onda de manifestações da história moderna do país é, para a professora da Universidade Diego Portales, de Santiago, “produto da precarização da classe média, da politização da desigualdade e da rigidez institucional de um país”, cuja Constituição vem do tempo do regime militar (1973-1990).

    Para Castiglioni, doutora em ciência política pela Universidade Notre Dame, nos EUA, as respostas do presidente Sebastián Piñera foram “infelizes e tardias” e agravaram a crise. “A estratégia de reprimir, decretando estado de exceção e toques de recolher, não deu resultado.”

    A pesquisadora, que vive no Chile e tem cidadania chilena e uruguaia, considera que as transformações requeridas pelos manifestantes “provavelmente exigirão uma reforma constitucional”.

    O problema, diz ela, é que os atores responsáveis por executar essas reformas são justamente os que gozam de menor prestígio hoje na sociedade chilena, o que abre espaço para o surgimento de um outsider, que pregue saídas por fora do sistema.

    É possível concluir com precisão os motivos dos protestos de 2019 no Chile?

    Rossana Castiglioni Eu realizei, junto com o pesquisador Cristobal Rovira Kaltwasser um projeto grande de pesquisa sobre os desafios da representação democrática no Chile. Durante esse trabalho de pesquisa, nós já víamos chegar uma série de tensões muito fortes no sistema. Desenvolvemos um esquema teórico para explicar essas tensões. Muitos dos elementos que encontramos ajudam a entender essa explosão social que acontece agora.

    Foto: Rodrigo Garrido/Reuters - 27.10.2019
    Manifestante_Chile
    Manifestante em Valparaiso
     

    Nesse trabalho, nós enfatizamos que o Chile teve uma grande redução da pobreza dos anos 1990 até hoje. Na transição democrática [1990], o país tinha quase 45% da população vivendo abaixo da linha de pobreza. Hoje, esse percentual é de quase 10%. Essa redução da pobreza deu origem à expansão de uma classe média altamente precarizada no país. Essa é uma classe média que gasta mais do que ganha, é uma classe média que arca com os custos de todos os serviços sociais que utiliza e que está endividada.

    Há outra dimensão — não abordada no meu estudo especificamente, mas abordada em estudos de outros colegas pesquisadores — que é o fato de essa classe média sentir-se muito maltratada, muito abusada pelo sistema. Estamos falando, portanto, de uma classe média precarizada, endividada e raivosa que sai às ruas para pressionar o sistema, em busca de maiores e melhores benefícios, porque quer menos desigualdade, mais equidade, quer o fim dos abusos que sofre.

    Ao sair às ruas, essa classe média mobilizada se encontra com uma estrutura institucional herdada da ditadura militar [1973-1990], que não tem capacidade para processar essas demandas, porque é uma institucionalidade concebida para proteger o chamado modelo chileno, para proteger o sistema que foi desenhado durante o governo [do general Augusto] Pinochet. Ou seja, para manter e perpetuar o status quo, e não para transformá-lo.

    Isso foi formando uma panela de pressão no Chile ao longo dos anos, que explodiu agora por causa do aumento do preço da passagem de metrô. Mas, se não fosse por esse motivo, teria sido por qualquer outro.

    Se esses elementos que a sra. menciona vêm se desenvolvendo desde a redemocratização, ao longo dos últimos 30 anos, por que a revolta só explodiu agora?

    Rossana Castiglioni Há fatores que ajudam a entender a razão de isso ter explodido agora. Quero falar primeiro da politização ou da repolitização da desigualdade. A desigualdade sempre foi um problema estrutural em toda a América Latina, que é a região mais desigual do mundo. E o Chile é o país mais desigual da região mais desigual do mundo. A questão importante aqui é quando esse dado se torna politicamente relevante, quando alguém decide politizar essa desigualdade.

    Veja: há coisas que não estamos dispostos a aceitar do ponto de vista normativo ou ético, coisas que não são corretas, das quais nós não gostamos. Mas não são necessariamente essas são coisas que se tornam politicamente relevantes, no sentido de que nenhum ator — a partir de cima ou a partir de baixo — empurre a causa, fazendo desse tema um tema político. Então, o que nós percebemos é que esse tema da desigualdade adquiriu uma relevância política, que foi se desenvolvendo gradualmente desde 2006, quando tiveram início os primeiros protestos por educação, e que atingiram um pico agora.

    Eu sou adepta das teorias sociológicas chamadas vulcânicas. Elas dizem que as coisas explodem quase de maneira fortuita. Quando a acumulação de tensão no sistema é de tal magnitude, a situação se torna insustentável. Não havia válvula de escape para esses problemas sociais no Chile. Não há uma forma de processar institucionalmente esse descontentamento. Então, quando as pessoas politizam essas desigualdades, quando temos cada vez mais protestos, mais pressão, e quando, ao mesmo tempo, o sistema político não é capaz de processar as transformações, há um acúmulo. Por essa teoria vulcânica, torna-se pouco relevante saber a causa pela qual a coisa explode. É o acúmulo dentro de um sistema sem válvula de escape que faz com que, em algum momento, uma coisa, por menor que seja, possa transformar-se em algo maior, numa explosão.

    A sra. menciona a politização da desigualdade. Quais são os atores a politizar o tema no Chile?

    Rossana Castiglioni Essa politização pode acontecer de cima para baixo, quando um ator político relevante toma a questão para si. Mas, neste caso, não foram os partidos tradicionais que puseram o assunto na agenda política. Nem a direita, nem a Concertação [conjunto de partidos de esquerda e centro esquerda] tomaram esse tema em seus discursos políticos até recentemente. Nós estudamos isso, fazendo uma varredura no conteúdo das plataformas políticas e nos discursos presidenciais, e a verdade é que isso surge de maneira tardia aqui. A desigualdade não foi, portanto, politizada por esses atores até pelo menos o segundo mandato de Bachelet [2014-2018]. Em seguida, há uma nova esquerda que começa a politizar esse tema, sobretudo por meio da Frente Ampla, mais recentemente [fundada em 2017, à esquerda da Concertação, à qual Bachelet pertencia].

    Porém, o principal motor da politização veio de baixo, não veio de cima. A classe política não se adaptou a essa mudança. O contexto institucional sequer permitiria.

    Antes da explosão social, houve uma perda progressiva de legitimidade da classe política e das instituições políticas chilenas. São justamente esses atores — que gozam de baixíssimo prestígio popular — os que têm que nos tirar da crise na qual estamos submersos agora. É um cenário complicado.

    Quais desses elementos que você elenca já não estavam presentes em grandes protestos anteriores no Chile, como em 2006 e 2009, que também levaram os governos da época a fazerem concessões importantes?

    Rossana Castiglioni A diferença é que essas mobilizações prévias foram fundamentalmente sobre a questão da educação — problemas de desigualdade na educação, problemas de acesso, de qualidade na educação etc. Houve dois momentos, um em 2006, com a chamada Revolução Pinguim [nome dado em alusão ao uniforme de terno e gravata usado por estudantes secundaristas no Chile] e outro em 2009 com a mobilização dos estudantes universitários.

    Além disso, tivemos outros protestos, vinculados a outras áreas. Tivemos manifestações contra o sistema de pensões, protagonizado por uma movimento chamado “No más AFP” [“basta de AFP”, sigla dos Fundos Privados de Pensão], que tinha como propósito extinguir o sistema de aposentadorias privadas no país, e que exigia a adoção de um sistema de Previdência mais solidário e igualitário. Houve protestos muito grandes em 2018 também, com um movimento feminista forte por conta de questões de gênero. Depois houve outros protestos de menor envergadura, que foram sobre o preço dos medicamentos, sobre o afastamento remunerado do trabalho para pais com filhos em dificuldade, sobre questões de habitação, sobre o que quer que seja.

    Todas essas mobilizações confluíram de maneira simultânea, agora, no espaço público. Agora temos todos os atores, com diferentes tipos de demanda, na rua. As chamadas à mobilização, pelo WhatsApp, estão sendo feitas agora de maneira escalonada: segunda-feira pela educação, terça-feira pelos transportes, quarta-feira por outra coisa qualquer. A cada dia há uma mobilização, convocada por diferentes atores.

    Piñera tem 14% de aprovação agora. Bachelet chegou a ter só 17%. O índice de comparecimento às urnas na última eleição presidencial, de 2017, foi o menor desde a redemocratização, com só 46%. Não há uma desilusão total com tudo?

    Rossana Castiglioni Temos uma crise de legitimidade, uma crise dos atores e das instituições políticas. Isso é produto da precarização da classe média, da politização da desigualdade e da rigidez institucional do país. Tudo isso foi erosionando a credibilidade da política. O voto se converteu em algo que, para muitos, é irrelevante, porque essas pessoas [que se abstêm de votar] consideram que, independentemente de como votem, a institucionalidade no país é tão rígida, que torna difícil que as coisas mudem.

     

    Além disso, os diferentes governos chilenos vieram tomando más decisões ao longo do tempo. Em 2012, por exemplo, houve uma reforma política que terminou por tornar ainda menos penoso não votar. Em vez de instituir o voto obrigatório, essa reforma reduziu o custo para quem não vota. Isso também não ajudou a reverter essa tendência — nos anos 1990, a participação eleitoral era próxima dos 80%. Hoje, estamos com menos de 50%. A segunda eleição de Michelle Bachelet [2013] teve a segunda menor participação eleitoral do mundo [42% no segundo turno], atrás apenas de Madagascar.

    Por fim, todas as pesquisas de opinião aqui demonstram que a confiança nos partidos vem caindo. Quando as pessoas são perguntadas qual é o partido no qual elas mais confiam, a resposta mais comum é “nenhum”, em todas as pesquisas.

    Houve, portanto, uma série de alarmes tocando no Chile nos últimos anos, e a classe política ignorou todos eles. Em parte, porque é uma classe política que tem muito medo desses 50% que nós não sabemos quem são, nem o quê vão fazer. O pânico cênico dos partidos é com relação a esses 50% de gente que não vota, e que, presume-se, estão completamente descontentes. Todos esses fatores, somados, foram cavando a crise de legitimidade política na qual o sistema está imerso agora.

    Em 2013, tivemos algo semelhante, em alguns sentidos, no Brasil. Também houve coisas semelhantes em outros países pelo mundo, nos quais apareceu um outsider para capitalizar eleitoralmente esse descontentamento com o sistema e com os partidos tradicionais. Isso pode acontecer no Chile?

    Rossana Castiglioni Não se pode descartar essa possibilidade. É uma possibilidade real. Se a classe política não está à altura da magnitude dessa crise, podemos passar até mesmo a um cenário venezuelano de alguns anos atrás. A Venezuela também tinha um sistema político bastante estável, com alternância dos grandes setores políticos no poder, sem grandes problemas, até que a crise de legitimidade levou o sistema a um colapso.

     

    Aqui, ou a classe política se adapta ou corremos o risco de que surja algum outsider que queira capitalizar com essa crise. Tomara que não seja alguém de fora, mas alguém que venha de dentro do próprio sistema político.

    Os colegas que pesquisam esse tema aqui dizem que, no Peru, por exemplo, havia 35% dos peruanos assim, adeptos do “que se vayan todos”. No Chile, são aproximadamente 13%. Alguém como José Antonio Kast [político de extrema direita que aparece com 12% das intenções de voto para a eleição presidencial de 2021] poderia se beneficiar desse cenário, ou mesmo alguém da Frente Ampla [de esquerda] que seja percebido ou percebida como outsider, alguém como Beatriz Sánchez [que teve 20% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial 2017].

    Qual foi o papel das redes sociais nesses protestos de 2019 no Chile?

    Rossana Castiglioni Eu não pesquisei isso, mas tenho a sensação de que as redes sociais tiveram um papel importante para coordenar os protestos, com calendários de mobilização e também com imagens, dados e até teorias conspiratórias, sobre isso ou aquilo.

    Há uma enorme circulação de notícias falsas. Essas redes permitem que se construa a realidade que se queira construir, e comunicar a realidade que se queira comunicar. Essa circulação de notícias falsas faz as pessoas reforçarem as opiniões que já tinham antes. Os algoritmos me fazem ver ideias nas quais já acredito. Se acho que o país está mal, vejo notícias que dizem isso. Se acho que o país é uma maravilha, vou igualmente receber informações que reforçam essa crença. Nada disso ajuda quando precisamos construir pontes entre atores com diferentes visões.

    A sra. vê relação entre os distúrbios ocorridos quase concomitantemente no Chile, no Equador, no Peru e na Bolívia?

    Rossana Castiglioni Sinceramente, não vejo. O Brasil também teve mobilizações grandes pouco tempo atrás, com esse tipo de componente, com gente protestando contra desigualdade, pela qualidade dos serviços. Eu não sou de aderir a teorias conspiratórias, teorias sobre conspirações em distintos países para produzir manifestações que desestabilizem governos, ainda que grupos muito minoritários possam tentar fazer isso.

    A magnitude da mobilização no Chile foi tamanha que excede qualquer coisa que tenha acontecido em qualquer outro lugar. Tivemos provavelmente a maior mobilização da história moderna do Chile. É algo excepcional, dada a magnitude e a duração desses protestos.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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