Ir direto ao conteúdo

Bolsonaro contra a imprensa: ‘nada parecido desde a ditadura’

Ataques a órgãos de comunicação se sucedem. ‘Ele dá todos os sinais possíveis não apenas de que não gosta da imprensa, mas os sinais de que abomina a atividade jornalística’, diz Eugênio Bucci

     

    O presidente Jair Bolsonaro ameaçou não renovar a concessão da TV Globo e ofendeu jornalistas do grupo após uma reportagem na terça-feira (29) relatar que o presidente havia sido citado por uma testemunha na investigação do assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco. A mesma reportagem já apontava contradições no depoimento, que no dia seguinte foi desmentido pela promotoria do Rio de Janeiro.

    Na quinta-feira (31), o filho do presidente e deputado federal, Eduardo Bolsonaro, defendeu a utilização de um novo AI-5 para barrar uma eventual radicalização da esquerda no país. O ato institucional de 1968 deu início ao período de maior repressão da ditadura militar, com a intensificação da censura, práticas de tortura e até mesmo a morte de jornalistas, caso de Vladimir Herzog.

    No mesmo dia, Bolsonaro determinou o cancelamento de todas as assinaturas do jornal Folha de S.Paulo no governo federal, além de ameaçar anunciantes. Desde 2018, a publicação se tornou alvo de Bolsonaro por revelar que o então parlamentar teria uma assessora fantasma em seu gabinete, por trazer a público o escândalo das candidaturas laranjas do PSL e por levantar suspeitas de caixa dois na campanha, com empresários pagando por disparos em massa de mensagens de WhatsApp contra seu adversário Fernando Haddad (PT).

    A hostilidade de Bolsonaro contra a imprensa começou antes da posse e se estendeu depois dela, inclusive com ataques a veículos internacionais que atuam no país. Ao mesmo tempo, manteve proximidade com emissoras como a TV Record, da holding do bispo Edir Macedo, e o SBT, de Silvio Santos.

    Para o jornalista Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, doutor em comunicação e ex-presidente da Radiobras, a atitude do presidente não é comparável a de nenhum outro presidente no período da redemocratização. Nesta entrevista ao Nexo, concedida no dia 1º de novembro, ele analisa o impacto dessa relação para a democracia.

    Como avalia a relação de Bolsonaro com a imprensa de forma geral?

    Eugênio Bucci  É péssima, não há outra palavra. Podemos dizer também que é desestabilizadora. É uma relação pautada por intimidações, por ultimatos e por diversas tentativas sucessivas e cumulativas de jogar descrédito sobre a atividade dos jornalistas, no que essa atividade tem de mais essencial para a democracia. Ele dá todos os sinais possíveis não apenas de que não gosta da imprensa, mas os sinais de que abomina a atividade jornalística e que gostaria de viver em um país onde não existissem jornalistas e órgãos de imprensa.

    Isso é indiscutível pela quantidade de declarações que nós temos dele. Quero citar alguns exemplos para não ficar sem o mínimo de demonstração factual. Ele já se referiu a Globo como inimiga numa conversa com um ex-ministro [Gustavo Bebianno]. Essa figura do inimigo é uma figura que vem do pensamento sobre a guerra. É aquele que atua para matar alguém e aquele de quem é inimigo reage tentando matá-lo ou eliminá-lo. É gravíssimo ele se referir à imprensa ou a um órgão de imprensa como inimigo.

    Na primeira entrevista que deu depois de eleito, ele disse que iria cortar verbas de órgãos de imprensa. Ele deu essa entrevista no Jornal Nacional, fazendo então uma manifestação imprópria e deslocada, porque a opinião do presidente da República sobre a conduta deste ou daquele órgão de imprensa não pode embasar um ato que ele venha a tomar como autoridade pública, porque ele tem o dever da impessoalidade. Ele deve agir de acordo com a lei, segundo aquilo que são as atribuições que pesam sobre ele ou que a agente espera que ele exerça. Se ele gosta ou não gosta de um jornal isso é uma questão pessoal que não pode determinar qual será a conduta do Estado em relação a isso.

    As reações dele em relação à imprensa internacional quando começaram a noticiar as queimadas na Amazônia são outro exemplo. A fala dele sobre ideologia no discurso na ONU também é uma outra demonstração cabal de que ele não entende a divergência de ideias.

    Para o presidente, ele representa a verdade e tudo o mais que não concorda com ele é um eleito de ideologia. Por tudo isso, a relação dele com a imprensa é péssima e desestabiliza a vida normal no Brasil e paira como uma constante ameaça à paz social no Brasil.

    Algum presidente brasileiro já teve relação tão conflituosa com a imprensa?

    Eugênio Bucci  É difícil a gente voltar ao tempo do Deodoro da Fonseca, do Floriano Peixoto, Artur Bernardes. O Estado Novo de Getúlio Vargas estabeleceu uma censura muito dura, pôs jornalistas na prisão ou no exílio. Depois, na ditadura militar nós temos o AI-5, que, por incrível que pareça, ainda conta com alguns admiradores declarados no Congresso Nacional. Veio a censura, a ditadura matou jornalistas, matou Vladimir Herzog. Todos esses são períodos difíceis. É muito tenso quando a gente pensa em termos de convívio entre poder e jornalistas, mas é muito difícil a gente fazer uma comparação entre o que acontece hoje e períodos tão distantes e tão diferentes.

    Desde o final da ditadura nós não temos nada parecido com essa temeridade que caracteriza a conduta do atual presidente da República. É verdade que o presidente Lula chegou a tentar expulsar um jornalista do Brasil, o Larry Rohter, que era correspondente do New York Times, mas mesmo ali nós não chegamos nem perto do que está acontecendo hoje. Mais de uma vez, o presidente da República, este que aí está, já disse que jornalistas precisam ser presos.

    Sem dúvida, cabe alguma comparação com o que houve no período da ditadura militar, cabe alguma comparação com o que houve no governo Vargas, mas ali nós tínhamos uma outra ordem jurídica imperando sobre o país. Nos dois casos nós tínhamos ditaduras.

    Desde a queda da ditadura militar seria inimaginável a conduta de um chefe de Estado como a deste que aí está. O que ele faz é algo sem precedentes e até inimaginável numa ordem democrática. Ele faz todo tipo de provocação e de atentado contra a imprensa quando fala, inclusive quando diz que um notório torturador no tempo da ditadura é um herói nacional. Isso também é um ataque à liberdade de imprensa.

    Como avalia a reação de Bolsonaro à reportagem que revelou a menção de seu nome no caso Marielle? E a sua relação com a Globo de forma geral?

    Eugênio Bucci  A reação dele é descabida, mesmo considerando que a manifestação do porteiro, segundo consta do que foi publicado, é um despropósito, ou seja, que o nome dele foi envolvido na história indevidamente.

    A reação dele é absolutamente destemperada. A maneira exaltada, furibunda [irritada] com que ele se manifesta sobre o episódio, em todos os sentidos, é conflitante com a natureza das funções de um presidente da República. A boa vontade das pessoas, dos jornalistas, do Ministério Público em esclarecer os fatos fica patente nos episódios subsequentes e nada justifica a verborragia agressiva, truculenta, desrespeitosa com que ele se dirige aos jornalistas. Ele jamais poderia reagir com tanto ódio, com tantos elementos corrosivos na fala, uma postura tão tóxica quanto ele mostrou. Isso é inaceitável.

    O chefe de Estado deve se pautar pela ponderação, pelo domínio das próprias emoções. Ele deve procurar transmitir paz para a nação e para a sociedade e deve, com as suas atitudes e com as suas falas, mostrar que as instituições dispõem dos recursos necessários para restabelecer a verdade quando ela deixa de estar no lugar onde deveria estar.

    É uma relação que mais uma vez prova que ele guarda ódio da imprensa, que ele não gosta e não aceita a convivência com a dinâmica que é própria da imprensa, que é o debate aberto das questões de interesse público. Isso é da natureza da imprensa e ele mostra a incapacidade de compreender essa natureza e uma incapacidade muito preocupante de conviver com isso.

    Além da Globo, o presidente também elegeu o jornal Folha de S.Paulo como antagonista. Como avalia a relação dele com a Folha?

    Eugênio Bucci  Ela está no mesmo diapasão [escala]. Veja só, a fúria com a que ele se dirige a Globo ou que com seus seguidores se dirigem à Rede Globo é do nível do irracional e é muito interessante notarmos que em governos anteriores, os setores mais fundamentalistas do governismo, os mais bajuladores dos que exerciam o poder, reagiam da mesma forma com relação à Rede Globo e, eventualmente, com relação à Folha de S.Paulo. Com a Folha ele e seus seguidores têm mostrado uma fúria um pouco mais incontida, um pouco mais irracional.

    Se nós voltarmos ao vídeo que os apoiadores dele fizeram circular, em que o Bolsonaro era representado pela figura de um leão, as hienas que o ameaçavam eram todas identificadas. Havia a hiena que representava o partido político A, B, a hiena dos organismos internacionais, do Supremo Tribunal Federal, a hiena da Globo, da Folha e do Estado de S. Paulo. Todos foram xingados. Era um vídeo de um nível intelectual e espiritual bastante rudimentar, uma vez que ele próprio se apressava em caracterizar o Presidente da República como o rei dos animais. O vídeo era uma auto-ofensa, uma dessas proezas da pobreza de espírito e da estupidez, mas também era também ofensivo com outros.

    Que o governo queira ser ofensivo consigo mesmo, pode ser um caso até de interdição psiquiátrica, mas é da conta dele. Agora que apoiadores e pessoas tão próximas ao governo resolvam xingar a imprensa e outras instituições de hienas é uma coisa absurda. Não existe outro termo.

    O presidente editou uma Medida Provisória cancelando a obrigatoriedade da publicação de balanços em jornais, revogada em outubro pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes, ameaça a Globo em relação à renovação da concessão, reduz a publicação de anúncios do governo ou de empresas estatais. Qual é o impacto concreto que um governo avesso à imprensa pode causar?

    Eugênio Bucci  A resposta para isso precisa ser considerada em dois níveis. No primeiro nível, nós temos que levar em conta a institucionalidade do Estado de Direito. Não é o Presidente da República que renova ou deixa de renovar uma concessão de uma emissora de rádio ou televisão. Isso passa pelo Congresso Nacional também, segundo a própria Constituição. Nós podemos, é claro, e até devemos discutir o acerto desses dispositivos constitucionais, mas no caso que estamos analisando agora o Presidente da República não é um imperador. As coisas não acontecem no Brasil de acordo com aquilo que lhe deu na veneta numa manhã de bom humor ou de mau humor e, portanto, existe aí a institucionalidade do Estado de Direito, a repartição dos poderes, os freios e contrapesos e os diversos mecanismos para assegurar a impessoalidade no trato das questões que cabem ser resolvidas pelos poderes da República.

    Muitas das coisas que ele diz, que vai renovar e que não vai renovar, são bravatas de adolescente, algo que nem deveríamos tomar em consideração como boa parte das declarações do Presidente da República, aliás.

    Agora, num outro nível, a gente precisa ver que as declarações do chefe de Estado possuem efeitos e possuem estragos. Quando ele diz que não vai mais manter as assinaturas dos órgãos federais da Folha de S.Paulo, ele está dizendo que a imprensa fornece informações que são desnecessárias, indesejáveis e até nocivas, e isso tem um efeito na cultura política do país. Isso é ruim. Mesmo que a gente leve em conta que essas declarações não tem fundamento, são irracionais, irresponsáveis, elas são nefastas porque geram um efeito na cultura.

    Por fim, quanto à cortar assinaturas de jornais ou anúncios, tudo isso é matéria que deve ser discutida na democracia. O Estado deve ser anunciante na imprensa comercial? Editais, licitações e outros atos da administração pública precisam obrigatoriamente aparecer em veículos de imprensa comercial acarretando custos para os cofres públicos, sendo que isso poderia ser resolvido por sites públicos, com uma visibilidade tão grande quanto ou talvez maior? Tudo isso pode e deve ser discutido na democracia. Nós podemos ter soluções melhores do que essas que hoje estão em vigor, mas aquilo que o presidente vem dizendo é de um oportunismo inaceitável, porque ele se vale de detalhes para fazer um ataque que tenta ferir de morte a função jornalística. Tudo que ele fala sobre esse assunto não tem pertinência, legitimidade, boa fé, honestidade intelectual e conhecimento de causa.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: