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Como o feminismo negro reescreve a história, segundo Patricia Hill Collins

A socióloga americana falou ao ‘Nexo’ sobre a relação entre ativismo e academia e a importância de incluir vozes diferentes na construção de conhecimento

     

    O movimento social que ganhou o nome de feminismo deixou de fora de sua pauta, durante boa parte do século 20, as dificuldades específicas enfrentadas por mulheres negras – além de outros grupos, como mulheres lésbicas e pobres. Não obstante, as mulheres negras vêm desde muito tempo teorizando a própria condição e criando estratégias para superá-la.

    “Opressão é um termo que descreve qualquer situação injusta em que, sistematicamente e por um longo período, um grupo nega a outro grupo o acesso aos recursos da sociedade (...) a convergência das opressões de raça, classe e gênero, característica da escravidão nos Estados Unidos, configurou todas as relações subsequentes que as mulheres de ascendência africana vivenciaram nas famílias e comunidades negras  no país, com empregadores e umas com as outras. Também fez surgir o contexto político em que o trabalho intelectual das mulheres negras se desenvolveu”.

    A frase, que situa as raízes políticas do feminismo negro, está no livro “Pensamento feminista negro”, publicado pela socióloga americana Patricia Hill Collins em 1990. A obra é um marco dos estudos feministas negros. Nele, Collins mapeou os principais temas e conceitos tratados por intelectuais e ativistas negras americanas como Angela Davis, bell hooks, Alice Walker e Audre Lorde, muitas das quais também começaram a ser traduzidas recentemente no Brasil. O livro de Collins foi lançado pela primeira vez no país em 2019, pela editora Boitempo.

     

    Em São Paulo para participar do seminário Democracia em colapso?, promovido pela Boitempo em parceria com o Sesc, Collins falou ao Nexo na sexta-feira (18) sobre a exclusão das ideias de intelectuais e ativistas negras da história oficial, o papel de acadêmicos progressistas no atual momento político e os efeitos da circulação de textos fundamentais do feminismo negro americano pelo Brasil.

    No prefácio de “Pensamento feminista negro”, você afirma ter tido a preocupação de citar vozes múltiplas, de mulheres negras muito e pouco conhecidas, para mostrar que a construção desse pensamento não partiu apenas de algumas poucas intelectuais excepcionais. Qual o problema dessa concepção?

    Patricia Hill Collins O problema que eu quis enfrentar foi a crença de que apenas mulheres negras instruídas eram dignas de ser ouvidas. Isso tendia a apontar uma lista muito restrita de pessoas como aquelas a quem deveríamos ouvir. Eu quis intervir nisso para dizer que havia um círculo muito maior de mulheres negras que tinham ideias, análises, que estavam trabalhando pela transformação social.

    Se ouvíssemos apenas mulheres negras da elite instruída, teríamos uma perspectiva única dentro uma comunidade muito mais ampla. Eu queria que o livro de fato representasse a heterogeneidade das mulheres negras, não apenas um segmento.

    Por que as contribuições teóricas de mulheres negras foram sistematicamente apagadas da história? Quais as consequências disso?

    Patricia Hill Collins Na verdade, eu diria que elas nunca foram incluídas. Não é uma questão de a história ter sido reescrita, de pessoas terem sido removidas – elas nunca estiveram nela! Aquela que se faz passar como a história universal nunca foi universal, porque nunca incluiu mulheres negras, homens negros, pessoas latinas – muitos grupos ficaram de fora dela. Mas essa história oficial é tomada como verdade.

    Temos uma ideia do que é a democracia, mas nunca a tivemos, porque ela não incluía toda essa gente

    Por isso, incluir mulheres negras nela não é suficiente, não basta só anexar aqueles que foram excluídos. A questão é que toda a história precisa ser reescrita. É um pouco mais ambicioso.

    O que é visto como algo fundamentalmente sólido foi bastante antidemocrático. Temos uma ideia do que é a democracia, mas nunca a tivemos, porque ela não incluía toda essa gente. É esse tipo de ideia que inspirou o livro. Não é realmente uma democracia se for só [formada por] um grupo de homens brancos proprietários, como está na Constituição [americana]. Mulheres negras estiveram na linha de frente tentando fazer essa crítica, essa análise. Não é uma questão de querermos privilégios. Acreditamos que as instituições seriam melhores se fossem mais inclusivas, em vez de nos deixarem de fora.

    Qual o papel de acadêmicos militantes progressistas no momento político atual?

    Patricia Hill Collins Com muita frequência, as noções de progressista e engajado são colocadas em oposição ao que é ser um acadêmico. Então colocar essas três coisas juntas, se ver dessa forma, é o papel [do acadêmico]. É produzir o tipo de pesquisa, perguntar as perguntas e investigar as questões que são importantes para a sociedade em que vivemos.

    Nos Estados Unidos, pesquisadores progressistas e engajados fizeram um ótimo trabalho produzindo muitos dados sobre os problemas sociais que nós temos. Mas só ter informação ou conhecimento não basta. Pessoalmente, sinto que precisamos de muitas pessoas que sejam como “cães de guarda” do tipo de conhecimento que é produzido na academia. Que sejam acadêmicos progressistas e engajados atentos ao que está acontecendo na instituição. Isso é crucial para o conhecimento que se obtém.

    Há mais mulheres negras hoje nesse meio do que quando você começou?

    Patricia Hill Collins Nos Estados Unidos, com certeza sim. E isso porque conseguimos fazer com que [pessoas negras] fizessem o percurso educacional – isso significa terminar o ensino médio, entrar na universidade, se formar e obter uma pós-graduação. Esse é um processo lento, que requer apoio financeiro e de outras ordens.

    Desde o início, o feminismo negro esteve em coalizão com outros projetos políticos semelhantes

    Quando se chega a um momento em que essas portas começam a se fechar, como no período em que acredito que estejamos vivendo agora, uma quantidade de pessoas suficiente para formar uma massa crítica já está dentro, então é muito difícil fechar de novo essas portas, da maneira como era antes. Está melhor, mas em vez de falar em termos de “melhor ou pior”, eu diria que é diferente agora. Muitas das pessoas em posições de poder e autoridade são mulheres negras – e não só, mas de outros grupos também. O feminismo negro não é excludente, não olha só para dentro. Desde o início, ele esteve em coalizão com outros projetos [políticos] semelhantes.

    O que mudou nas lutas raciais e na realidade das mulheres negras desde a publicação de “Pensamento feminista negro” em 1990?

    Patricia Hill Collins Depende para onde se está olhando. Se você olhar para a participação [política], para as imagens das mulheres na mídia, isso mudou. Se estiver olhando para o que piorou, houve uma grande mudança no encarceramento em massa desde [a publicação] de “Pensamento feminista negro”, que deixou muitas mulheres criando famílias e mantendo comunidades sozinhas. A questão do vício em drogas também é bem significativa nos Estados Unidos e invadiu comunidades negras.

    Ao mesmo tempo, tivemos Michelle Obama, temos cineastas negras maravilhosas produzindo trabalhos novos muito interessantes. É uma mistura. É possível ver mulheres negras fazendo muitas coisas diferentes, nem só boas nem só ruins. É assim quando se olha para um período de 30, 40 anos de transformações sociais significativas. É por isso que essa é uma pergunta difícil – ela pode ser respondida de maneira a se adequar à perspectiva de cada um. Alguns dirão “está muito pior” e outros dirão “está muito melhor”. Não é o que estou dizendo. Isso é algo difícil de responder com apenas algumas frases.

    Vivemos um momento em que a questão racial vem sendo mais amplamente debatida, e isso tem feito muitas pessoas aqui no Brasil descobrirem e afirmarem sua negritude. Quais os impactos disso?

    Patricia Hill Collins Nos Estados Unidos, houve um movimento de consciência negra nos anos 1960 e 1970 – quando eu era bastante jovem. Isso te ajuda a se reivindicar [como negro] e reorienta toda a sua visão. Toda a sociedade em que você viveu parece diferente quando você percebe que o racismo é um princípio fundamental de como tudo se organiza.

    Alguém te diz “pessoas negras são tratadas de maneira diferente em relação às pessoas brancas, e você é uma dessas pessoas”. Como você se sente? O que isso significa? É uma jornada pessoal para cada um. Mas a grande questão é conectar essa jornada pessoal a uma situação coletiva, a um desdobramento coletivo. Não há como haver um movimento antirracista sem que as pessoas reconheçam que há racistas e que elas estão posicionadas de maneiras distintas nessa luta. Elas precisam pensar no que isso significa, sendo negras ou não. E começar a enxergar a discriminação onde não era vista antes.                               

    ‘Pensamento feminista negro’ foi publicado no Brasil pela primeira vez em 2019, em um momento em que que há grande interesse pelo tema do feminismo negro e em que outros títulos de autoras negras americanas, como bell hooks e Audre Lorde, estão sendo traduzidos e editados. Como a circulação mais ampla desses textos pode contribuir para o contexto brasileiro?

    Patricia Hill Collins Cada uma dessas autoras trazem ideias diferentes. A primeira coisa que [a publicação desses livros] vai mostrar é que não há um pensamento de grupo do feminismo negro. Não há uma plataforma ou ideologia. Será possível ver a heterogeneidade de ideias de mulheres que vêm tentando resolver problemas enfrentados pelas mulheres negras.

    Quando ideias viajam, isso só pode ser bom para todo mundo

    Para as mulheres negras brasileiras, é uma oportunidade de descobrir autoras das quais elas gostam e não gostam, que falam ou não de suas questões. Mas para um público mais geral, isso também dá visibilidade às mulheres negras como pensadoras e ativistas, de uma maneira que talvez não fosse tão evidente antes.

    Acho que isso só pode ser positivo. Quando ideias viajam, quando elas se espalham e se tem a oportunidade de pensar criticamente sobre elas, isso só pode ser bom para todo mundo. 

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