Ir direto ao conteúdo

Qual o alcance da onda de extrema direita, segundo este autor

Cristóbal Kaltwasser fala ao ‘Nexo’ sobre as raízes, as características e o futuro da corrente política que nasceu na Europa, chegou ao Brasil e não para de crescer

     

    O populismo de extrema direita começou a se formar nos anos 1980, cresceu nos 1990 e atingiu o contorno atual após os atentados de 11 de Setembro de 2001, nos EUA. Diferentemente do fascismo que floresceu dos anos 1930 e 1940, a onda atual não nega as eleições democráticas. Ao contrário, participa delas e conquista cada vez mais votos.

     

    Essa é, em resumo, a linha do tempo que Cristóbal Rovira Kaltwasser apresentou ao Nexo numa entrevista feita na quarta-feira (16), por telefone. Para ele, essa onda não para de crescer, e tem na eleição de Jair Bolsonaro, no Brasil, um de seus logros mais recentes.

     

    Kaltwasser é um dos pesquisadores da área da ciência política que acompanham com maior rigor acadêmico o que ele mesmo define como “populismo de extrema direita” – movimento que se apoia num tripé formado por nativismo (só os nativos de um determinado Estado-nação são dignos de viver neste Estado-nação), autoritarismo (discurso da prevalência da lei, da ordem e da política de mão dura) e populismo (difusão da ideia de que existe um povo puro oprimido por uma elite corrompida).

     

    Nos três livros que publicou sobre o tema – por algumas das editoras mais prestigiadas do mundo, como a Oxford e a Routledge, e em parceria com autores estrangeiros como o holandês Cas Mudde –, Kaltwasser define cientificamente os contornos desses movimentos, suas origens e extensão.     

     

    Nesta entrevista, ele mediu sucessos e insucessos eleitorais de partidos ligados a esse movimento pelo mundo, para concluir, no fim, que a extrema direita cresce, ainda que sofra revezes pontuais. Apesar disso, esse ainda é um setor minoritário em quase todos os países do mundo.

    É possível falar em uma onda de extrema direita populista no mundo? Se sim, onde e quando ela começa?

    Cristóbal Rovira Kaltwasser Sim. É possível dizer que há um consenso na literatura acadêmica hoje sobre o fato de que existe efetivamente essa onda de partidos populistas de extrema direita. Essa é uma onda que surgiu nos anos 1980, com a Frente Nacional da França [que seria rebatizada em 2018 como Rassemblement National, ou Encontro Nacional, e que chegaria ao segundo turno das eleições presidenciais de 2002, com Jean-Marie Le Pen, e de 2017, com Marine Le Pen, sendo derrotada em ambas] ou com o Partido pela Liberdade da Áustria [que conquistaria a terceira maior bancada do Parlamento, com 30 dos 183 assentos, na eleição de setembro de 2018]. Eu diria, entretanto, que foi no início dos anos 1990, pensando sobretudo na Europa, que esses partidos começaram a ganhar espaço e a ter mais força num número maior de países.

    Foto: Carlos Barria/Reuters - 06.06.2019
    Trump com terno preto e gravata azul clara fala para dois microfones que aparecem de baixo para cima no quadro. Ao fundo dele, céu azul com nuvens brancas
    Presidente americano, Donald Trump
     

    Em seguida, outro fato importante para explicar esse contexto é o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001, nos EUA. Depois desse ataque, essa corrente começa a expandir-se com mais força e a ganhar maior quantidade de votos. O atentado contra as Torres Gêmeas é relevante pelo seguinte: esses partidos, em geral, opõem-se à imigração. Mas, depois do 11 de Setembro, há um pequeno ajuste, e esses partidos passam a dizer: "nós estamos contra a imigração sobretudo quando ela vem de países muçulmanos." Eles dizem fazer isso por razões de segurança, mas é aí que começa a aparecer o elemento cultural. Começa a aparecer o argumento de que esses imigrantes são perigosos porque não partilham dos mesmos valores ocidentais das sociedades liberais europeias e, como tais, desafiam um dito consenso em torno de certos valores democráticos e liberais. Depois do 11 de Setembro ocorre, portanto, esse giro. E esses partidos começam a expandir-se eleitoralmente.

    A literatura científica trata muito mais desse fenômeno no caso dos países europeus. A novidade está no fato de que, para além da Europa, comecem a aparecer expressões como Donald Trump, nos EUA, ou Jair Bolsonaro, no caso do Brasil. Eles são claramente muito posteriores a essa onda que eu menciono – uma onda que surge nos anos 1980, consolida-se nos anos 1990 e ganha ainda mais terreno depois do 11 de Setembro.

    O sr. menciona os anos 1980 como início, mas qual a conexão desse movimento com o fascismo que havia antes, nos anos 1930 e 1940 em toda a Europa? Não há vinculação?

    Cristóbal Rovira Kaltwasser Sim e não, pois, academicamente, é feita uma distinção. Esses partidos que eu menciono são distintos dos partidos de extrema direita que existiriam na Europa no passado. A diferença chave é que os partidos populistas de extrema direita combinam três ideologias: autoritarismo, populismo e nativismo.

     

    Nativismo quer dizer que somente os membros nativos de uma nação podem viver dentro daquele Estado-nação. Autoritarismo significa uma demanda muito forte por segurança, lei e ordem. Populismo é a dicotomia que divide a sociedade entre um povo puro e uma elite corrupta. Esse pacote ideológico é próprio dessa nova onda de partidos populistas de extrema direita, e é diferente do que havia nos antigos partidos populistas de extrema direita, como os partidos fascistas, que, desde sempre, estiveram 100% contra a democracia. Aqueles partidos fascistas de antigamente diziam: “não nos interessa realizar eleições”. A eles só interessava conquistar o poder e eliminar a existência da soberania popular.

     

    Isso não ocorre nos atuais partidos populistas de extrema direita, que, diferentemente de seus antecessores, pelo menos nas aparências, são partidos que, em teoria, estão a favor da democracia. O que eles dizem é: “queremos eleições livres e limpas”, pois, com isso, eles querem justamente demonstrar que há uma maioria silenciosa, uma maioria que está sendo silenciada, que é uma maioria que deseja mais segurança, que deseja menos imigrantes. Nesse sentido, é preciso diferenciar a atual onda de partidos populistas de extrema direita e a onda anterior, que não cabe nas definições atuais.

    Como o Brasil se encaixa nesse cenário? A extrema direita brasileira tem o poder de encorajar movimentos semelhantes na América Latina?

    Cristóbal Rovira Kaltwasser A literatura acadêmica sobre esse tema parte da Europa porque os casos emblemáticos são europeus. O que acontece, no entanto, é que começamos a ver que surgem em outras partes do mundo fenômenos semelhantes – me refiro a casos como os de Donald Trump e de Bolsonaro.

     

    No caso do Brasil, por exemplo, essa definição de populismo de extrema direita que mencionei anteriormente – baseada no tripé nativismo, autoritarismo e populismo – funciona com certos problemas, porque o tema da imigração não é tão relevante aqui. O que acontece fora da Europa é que o tema da imigração toma facetas distintas. Vou dar um exemplo sobre o Chile, que eu acho que pode funcionar de maneira similar ao caso do Brasil.

     

     

    No Chile, temos um político chamado José Antonio Kast [líder do Partido Republicano, de extrema direita, que terminou em quarto lugar na eleição presidencial de 2017, com 7,9% dos votos]. Ele é o equivalente local de Bolsonaro. No programa de governo de Kast, a questão migratória praticamente não aparece. O que, sim, aparece é a menção à população mapuche, a minoria étnica que temos no Chile. Então, embora Kast não mencione imigração, ele é nativista à medida que define como população nativa do Chile os chilenos, não os mapuche. Para ele, o povo mapuche tem de se deixar assimilar à nação chilena, por assim dizer. Ele os vê como inimigos. Para Kast, a questão não é, portanto, a imigração, mas é a existência de sujeitos, no interior de nosso território, que demandam certos direitos culturais que afrontam o que é apresentado como o padrão da realidade nacional.

     

    Isso acontece de maneira similar na Austrália e na Nova Zelândia, onde os partidos populistas de extrema direita locais também desenvolvem um discurso contrário às populações nativas. Algo similar pode ocorrer no Brasil, com Bolsonaro tentando definir a nação brasileira de maneira que o tema da imigração não seja tão relevante, mas ainda assim haja sujeitos no interior do território brasileiro apontados como supostamente estranhos ao que seria a realidade nacional, à qual não se deixam assimilar.

     

    Na Europa, esses partidos são, em primeiro lugar, nativistas, são contra os imigrantes. Na sequência, além disso, são autoritários e populistas. No caso de Bolsonaro – e com Kast, é muito similar –, ele é, antes de mais nada, autoritário, defende a ideia de uma sociedade ordenada, para a qual é necessário ter mão dura contra a delinquência. Só em segundo lugar vem o tema do nativismo, que pode ser um nativismo dirigido contra minorias étnicas que existam dentro do território. Isso pode estar ocorrendo no Brasil e pode se propagar pela América Latina.

     

     

    É difícil, entretanto, fazer previsões. Em todo caso, tenho a impressão de que o Brasil, por ser um país tão grande, tem um impacto a ser considerado na região. O fato de Bolsonaro ter conseguido chegar à Presidência é algo que tem um impacto para certos líderes. Alguém como Kast observa o exemplo de Bolsonaro. Assim como ele, há outros políticos latino-americanos que observam, tentando determinar até que ponto o fenômeno Bolsonaro é replicável em seus próprios países. Além dos políticos, há também certos segmentos das sociedades latino-americanas que observam o caso do Brasil e pensam que essa pode, eventualmente, ser uma solução interessante para as situações que eles mesmo atravessam.

     

    Porém, ainda é cedo para tirar conclusões. Bolsonaro leva muito pouco tempo no poder. É preciso ver se ele consegue entregar as promessas feitas durante a campanha. Depois de três ou quatro anos de governo, ele pode não cumprir muito do que prometeu, ele pode não conseguir ser reeleito. Obviamente, nesse caso, a capacidade de difusão desse fenômeno para o restante da América Latina será menor. E o contrário também é verdade: se ele cumpre as metas a que se propôs e consegue até ser reeleito, a capacidade de difusão desse exemplo será multiplicada.

    Há sinais de fortalecimento ou de esgotamento nesse ciclo de populismo de extrema direita? Que sinais são esses?

    Cristóbal Rovira Kaltwasser Se tomarmos o assunto a partir de uma perspectiva de longa temporalidade, voltando ao surgimento desse movimento nos anos 1980, passando pela consolidação dos anos 1990 e pela expansão pós-11 de Setembro, eu diria que essa é uma onda que vem se fortalecendo. Vejamos: Trump é presidente dos EUA. Bolsonaro é presidente do Brasil. Na Áustria, tivemos um governo formado por uma aliança de extrema direita e vamos ver agora o que acontece. A Liga chegou ao poder na Itália. Enfim, há muitos exemplos a demonstrar como essa onda vem crescendo eleitoralmente e, em vários países, chegou até mesmo a controlar o Poder Executivo. Portanto, numa perspectiva de longo prazo, eu diria que, sim, o que estamos testemunhando é o fortalecimento desse ciclo.

    Foto: Christian Hartmann/Reuters - 13.01.2019
    Marine_LePen
    Marine Le Pen, da extrema direita francesa
     

     

    Por outro lado, o fato de Viktor Orbán ter perdido a prefeitura de Budapeste, na Hungria [o candidato do partido do premiê, o Fidesz, de extrema direita, foi derrotado na eleição local da capital, em outubro de 2019, por uma ampla coalizão opositora], assim como o fato de [Recep Tayyip] Erdogan ter perdido a prefeitura de Istambul, na Turquia [o candidato do partido do presidente turco, o AKP, foi derrotado na eleição local, em junho de 2019 pelos sociais-democratas] pode ser visto como sinal de debilidade, mas, ainda assim, eu acho que esses são sinais de muito curto prazo. Haverá outras eleições e é preciso ver como serão os ciclos eleitorais.

     

    Meu olfato me diz que, olhando por essa perspectiva mais alongada, de longo prazo, estamos vendo, na verdade, um fortalecimento dessa onda. Eu não vejo nenhum sinal claro de esgotamento. Ainda assim, é preciso levar em conta o seguinte: mesmo nos países europeus nos quais a extrema direita populista cresce, esses partidos ainda não são maioria. É raro que eles cheguem ao Poder Executivo. Os partidos tradicionais continuam tendo a maioria dos votos. Não é o caso de fazer diagnósticos extremistas, de que, em todos os países do mundo, presenciaremos uma chegada da extrema direita ao poder. Não é essa a imagem.

    Que efeito um processo de impeachment contra Donald Trump, nos EUA, poderia ter sobre os políticos de outros países que manifestam afinidade com ele?

    Cristóbal Rovira Kaltwasser A importância de Trump está ligada ao significado que os EUA têm para o mundo. Não estamos falando de um país pequeno. O mesmo, aliás, vale para o Brasil, pois se um candidato de extrema direita tivesse chegado ao poder, por exemplo, no Chile, não haveria a mesma repercussão internacional. Isso é o que acontece também no caso de Trump, pelo significado que os EUA têm para o mundo e para o impacto que esse fato tem nas relações internacionais. Basta vermos o que aconteceu com várias questões multilaterais: Trump retirou-se do Acordo de Paris sobre o clima, abriu uma guerra comercial com a China etc. Então, obviamente, alguém de extrema direita governando os EUA tem mais impacto do que alguém do mesmo tipo governando a Áustria.

     

    Sobre o impeachment em si, eu acho que essa é uma faca de dois gumes. A sociedade americana está sumamente polarizada. De um lado, estão os que se identificam com o Partido Republicano. De outro, os que se identificam com o Partido Democrata. São eleitorados que não se falam e, na verdade, chegam a se odiar. Os níveis de aprovação presidencial oscilam, mas sempre ao redor de 45% a 50% em favor do atual presidente. Mais de 90% dos que se apresentam como republicanos apoiam Trump e mais de 90% dos que se apresentam como democratas rechaçam o presidente. Esses dados são importantes no contexto do impeachment, pois o impeachment é um julgamento político que, no fim, é feito pela Câmara dos Deputados e pelo Senado dos EUA, com os democratas tendo maioria na primeira e o republicanos, na segunda Casa. Portanto, dado o contexto de polarização que existe hoje nos EUA, minha intuição é de que, se a investigação prospera, não vai haver condições de os democratas aprovarem o impeachment [dado que o Senado, de maioria republicana tem a palavra final].

     

    O que esse processo provocaria é a mobilização da base dos eleitores republicanos para as eleições de 2020, sob o discurso de que os democratas só querem, no fundo, trapacear com "nosso presidente" e, por isso, é muito importante ir às urnas e votar, para consolidar a liderança de Trump. Um processo de impeachment pode trazer, afinal, um resultado bastante perverso, porque pode paradoxalmente favorecer a reeleição de Trump. A base republicana estará mobilizada e isso é muito importante num país como os EUA, no qual a mobilização eleitoral é baixa. Essa é, portanto, uma estratégia muito arriscada para o Partido Democrata, e acho que pode trazer consequências mais negativas do que positivas para esse setor que se opõe a Trump.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: