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Como o uso de dados está mudando o jornalismo

Ao ‘Nexo’, a jornalista e pesquisadora Giannina Segnini fala sobre seu trabalho em reportagens baseadas em grandes vazamentos de informações, como o Panama Papers

     

    Com a disponibilidade de grandes bases de dados abertos e vazamentos que expõem informações privadas de grupos próximos ao poder, o jornalismo de dados vive hoje um momento de destaque ao redor do mundo.

    Para a repórter e pesquisadora da área Giannina Segnini, no entanto, esse tipo de apuração não é um fim por si só. Deve complementar as habilidades essenciais de jornalistas como a curiosidade e o senso crítico, em busca de uma história maior. “Trato documentos vazados como o ponto de partida de um rigoroso processo de investigação que vai além dos fatos revelados”, disse ao Nexo.

    Jornalista e chefe do programa de mestrado em jornalismo de dados da Universidade de Columbia, nos EUA, Segnini tem uma carreira notória de reportagens baseadas na investigação de grandes volumes de dados, com destaque para o trabalho do Panama Papers na Costa Rica, em 2016, e o projeto OffshoreLeaks, publicado três anos antes pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), do qual faz parte.

    A costarriquenha falou com o Nexo, por email, sobre o impacto da tecnologia para a reportagem jornalística e os dilemas éticos relacionados à divulgação de vazamentos, como os que nos últimos anos serviram como base para reportagens relevantes no exterior e no Brasil.

     

    Segnini era editora de jornalismo de dados do jornal La Nación durante a investigação do OffshoreLeaks. Conduzida por 86 jornalistas em 46 países, o projeto analisou 2,5 milhões de arquivos pessoais e financeiros vazados de servidores de offshores e fez uma série de histórias sobre como figuras de diversas nacionalidades usaram empresas de fachada em paraísos fiscais para esconder dinheiro.

    Três anos depois, os Panama Papers tornaram-se o maior vazamento de informações na área de movimentação financeira mundial, alcançando mais de 200 mil empresas offshores de mais de 200 países. Por causa das reportagens da equipe de Segnini, mais de 50 inquéritos criminais atingiram políticos, empresários e funcionários públicos de diversos países, incluindo dois ex-presidentes costarriquenhos condenados por corrupção. A reportagem inteira envolveu 107 veículos de 80 países.

    11,5 mi

    documentos financeiros foram vazado nos Panama Papers

    Por seus trabalhos, Segnini foi premiada com o Maria Moors Cabot (2014), um dos prêmios mais tradicionais em jornalismo, e o troféu Gabriel García Márquez (2013), entre outros. Suas credenciais incluem ainda a participação em entidades internacionais de jornalistas, como IRE (Repórteres e Editores Investigativos) e GIJN (Rede Global de Jornalismo Investigativo).

    Segnini estará no Brasil neste sábado (19) para discutir novas práticas do jornalismo investigativo no Festival 3i, encontro sobre jornalismo digital e inovador organizado pelo Nexo e outros 12 veículos nativos digitais. O evento acontece entre 18 e 20 de outubro no Rio de Janeiro.

    A jornalista fará parte da mesa “O trabalho do jornalista: vazamentos, prospecção de dados e tecnologia”, ao lado de Glenn Greenwald, do site The Intercept, e André Campos, da organização Repórter Brasil, além da mediadora Natalia Viana, da Agência Pública. Os jornalistas vão conversar sobre o impacto de trabalhos como a série de reportagens elaboradas com base em mensagens vazadas de membros da Operação Lava Jato, chamada pelo Intercept de Vaza Jato, e as plataformas Moda Livre e Moendo Gente, da Repórter Brasil.

    O que é e como surgiu o jornalismo de dados?

    Giannina Segnini O rótulo “jornalismo de dados” pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Alguns acreditam que se trata de matemática e números, outros pensam mais em gráficos e visualizações. Para mim, trata-se de encontrar histórias relevantes por meio do uso de dados e da tecnologia como ferramentas para complementar as habilidades essenciais de um jornalista competente e completo, alguém que tem pensamento crítico e curiosidade para “ligar os pontos” e entender o mundo ao nosso redor.

    A sra. é conhecida por seu trabalho de investigação de offshores, que levou à condenação de dois ex-presidentes por corrupção. Como é seu processo de apuração de informações?

    Giannina Segnini Essas investigações são resultado de trabalho em equipe, e isso é crucial. A colaboração radical entre jornalistas e diferentes áreas do conhecimento é o melhor antídoto para neutralizar as forças ocultas da corrupção e fiscalizar os poderosos. Nossa equipe trabalhou com essa mentalidade, capacitada pelo uso de dados e da tecnologia para complementar um grande trabalho de idas à rua e cultivo de fontes. A investigação dos ex-presidentes foi possível porque combinamos tudo: uso massivo e intuitivo de documentos públicos, fontes humanas, tecnologia e trabalho em equipe eficaz.

    A sra. virá ao Brasil para falar de boas práticas do jornalismo dos “novos tempos”, entre eles o jornalismo de dados. Que ganhos essas novas práticas trouxeram para a investigação jornalística, em especial para investigações sobre corrupção?

    Giannina Segnini O jornalismo de dados não é algo novo. Ele começou há mais de 40 anos. A diferença agora é que dados novos e tecnologias novas de código aberto [que garantem que qualquer pessoa analise os dados disponíveis] estão permitindo que jornalistas descubram histórias que não conseguiriam cobrir de outro modo. Você não pode entrevistar 28 milhões de pessoas para uma matéria, mas pode facilmente entrevistar 28 milhões de registros [em uma base de dados] em minutos e encontrar padrões que estavam “escondidos” dentro das planilhas e que podem servir de base para reportagens tradicionais. Dados e tecnologia não substituem os melhores valores e princípios do jornalismo. Eles os complementam.

    A publicação de diálogos da Lava Jato pelo The Intercept Brasil e outros veículos levantou discussões no Brasil sobre a legitimidade de se divulgar material liberado por vazamentos. Assim como neste caso, os documentos dos Panama Papers foram vazados à imprensa. Quais os dilemas em torno dos vazamentos no jornalismo? Como decidir o que deve ou não ser publicado?

    Giannina Segnini Eu trabalhei com o Wikileaks em 2010. Mais tarde, minha equipe e eu processamos os dados e desenvolvemos a plataforma para o primeiro vazamento do ICIJ [Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos], o Offshore Leaks, e depois trabalhei no Panama Papers e nos vazamentos que vieram em seguida. Usei também material a partir de vazamentos como parte de minhas reportagens nestes 30 anos em que trabalho como jornalista investigativa. Ainda assim, discordo da dependência de vazamentos como principal fonte de jornalismo investigativo, porque, a longo prazo, isso pode levar à falta de independência. Quando jornalistas confiam em material vazado como sua principal fonte, eles podem ser facilmente usados e manipulados por todo tipo de força e agenda externa. Os vazamentos ajudam o bom jornalismo, mas precisamos ser muito críticos e céticos em relação a eles. Sempre me pergunto: quem e por que está vazando esse material? Por que agora? Qual é a agenda por trás desse “presente” [para o jornalista]? Trato documentos vazados como o ponto de partida de um rigoroso processo de investigação que vai além dos fatos revelados e envolve a compreensão do contexto em que esses documentos foram divulgados à imprensa.

    Um dos principais desafios de jornalistas no Brasil e de fora é a alta da desconfiança do público em relação às notícias. A que se deve esse cenário, na sua opinião? As novas modalidades de jornalismo podem ajudar a produzir mais matérias de impacto?

    Giannina Segnini Não sou especialista em opinião pública sobre imprensa, ainda mais no Brasil, mas esse é um fenômeno universal que desafia o jornalismo independente no mundo inteiro. A extrema direita, grupos religiosos conservadores e fundamentalistas e alguns políticos estão envolvidos em uma campanha contra o jornalismo independente, especialmente quando o jornalismo atua para fiscalizar quem está no poder. Esta não é a primeira vez em que o jornalismo é atacado. Eu prefiro: em um momento na história em que as pessoas deveriam estar mais bem informadas do que nunca, há mais ruído e mais conteúdo raso sendo gerado todos os dias do que jornalismo de fato, com qualidade e profundidade. Temos a oportunidade de nos concentrar nas histórias que estão escondidas e descobrir novas narrativas que possam envolver todos nos assuntos de que elas estão tratando.

    Num contexto de transformação da indústria e de enxugamento de recursos dos veículos tradicionais, o “furo” está virando cada vez mais refém do jornalismo de dados?

    Giannina Segnini Não vejo conexão entre as duas coisas. O jornalismo de dados não deve ser um prêmio de consolação para a crise de qualquer outro tipo de jornalismo. Vejo isso de uma maneira diferente: os dados são apenas outra ferramenta em uma caixa de ferramentas gigante que podemos usar quando a história que estamos cobrindo exigir, assim como fazemos com o restante das ferramentas. Um engenheiro civil não diz, por exemplo, que irá construir uma ponte apenas porque quer usar o novo trator que acabou de comprar. Ele pensa primeiro na estrutura do edifício e depois escolhe as ferramentas para construí-lo.

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