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O que é o peronismo, que vai da esquerda à direita na Argentina

A um mês de eleições presidenciais no país vizinho, o ‘Nexo’ ouviu o antropólogo argentino Alejandro Grimson, autor de livro sobre o tema

 

A Argentina passará por eleições presidenciais em 27 de outubro de 2019. Se necessário, um segundo turno ocorrerá um mês depois. Em meio a uma crise econômica, o presidente Mauricio Macri tenta a reeleição, mas o favorito é o opositor Alberto Fernández.

Mais uma vez, a disputa eleitoral no país vizinho ocorre entre não peronistas, caso de Macri, um liberal de centro-direita, e peronistas, caso de Fernández, de centro-esquerda.

A palavra “peronismo” tem relação com a herança política do ex-presidente Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-1974) e com o Partido Justicialista, que no passado se chamou Partido Peronista.

Apesar de o candidato peronista de 2019 ser mais alinhado à esquerda, a característica desse movimento vai muito além dessa distinção ideológica.

Ao mesmo tempo em que Fernández e sua candidata a vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, são peronistas, o candidato a vice de Macri, o senador Miguel Ángel Pichetto, também é, desde o início da carreira política. Pichetto liderou a bancada do Partido Justicialista no Senado por 16 anos.

As regras do sistema eleitoral argentino permitem que integrantes de um mesmo partido disputem as urnas em coligações adversárias. Pichetto, que em alguns assuntos tem posições mais conservadoras e associadas à direita do que a maioria de seu partido, deixou a liderança da bancada ao ser escolhido vice de Macri, mas permanece no Partido Justicialista.

A história política da Argentina está há mais de sete décadas atrelada ao peronismo. Na analogia do próprio Alberto Fernández, Perón foi uma espécie de “bígamo” da política: tinha uma família de esquerda e outra de direita, que se deram conta uma da outra e continuaram convivendo. O candidato disse que essa visão não agrada muito aos peronistas.

Dos quatro presidentes não peronistas eleitos a partir dos anos 1950, ou seja, após o primeiro governo de Perón, nenhum terminou o mandato: dois saíram por renúncia e dois por golpe militar. Se transmitir a faixa a Fernández em dezembro de 2019, Macri será o primeiro presidente não peronista eleito a terminar o mandato.

Além de Perón, uma figura histórica importante foi Eva Duarte, conhecida como Evita. Esposa de Perón de 1945 a 1952, quando morreu de câncer, ela foi uma liderança popular entre as mulheres e as classes mais pobres. Celebrada ainda hoje, Evita atuou em causas sociais e trabalhistas e também a favor de instituir o voto feminino. A ditadura que depôs o governo Perón sequestrou o corpo de Evita. O corpo foi devolvido à família após 16 anos.

Para entender as definições do movimento peronista e como ele se transformou ao longo das décadas, o Nexo ouviu o antropólogo argentino Alejandro Grimson, autor do livro “O que é o peronismo?”, que trata do assunto desde os anos 1940 até a década de 2010. A obra foi lançada na Argentina em 2019 e não tem edição no Brasil. Grimson é professor da Universidade Nacional de San Martín.

O que é o peronismo? É possível definir os aspectos principais?

Alejandro Grimson O peronismo é um movimento popular, democrático e nacional da Argentina que tem entre suas pautas temas como a soberania nacional, a independência econômica e a justiça social. O peronismo nasceu em 1945, em outro contexto histórico, quando se tentava um acordo nacional para o desenvolvimento.

Naquela época, a Argentina tinha uma sociedade muito hierárquica, os poderes econômicos não aceitaram a proposta de Perón [militar que acumulava os cargos de vice-presidente, ministro da Guerra e secretário do Trabalho de um governo ditatorial]. Ele chegou a ser preso naquele ano. Em 17 de outubro de 1945, uma multidão foi às ruas demonstrar apoio para Perón e ele saiu da prisão.

A partir da chegada de Perón à Presidência, quando ele venceu as eleições em 1946, foi impulsionada uma série de reformas sociais, em áreas como direitos trabalhistas e civis. Por exemplo, em 1947 pela primeira vez as mulheres argentinas conquistaram o direito a votar. A Argentina viveu uma época de crescimento econômico. Reeleito em 1951, Perón foi deposto por um golpe militar em 1955 e foi forçado a ficar no exílio por 18 anos.

Para compreender o peronismo é muito importante compreender essas mudanças ao longo do tempo. Desde 1983, com o fim da ditadura militar mais recente, a Argentina está vivendo sua etapa mais extensa na democracia. O peronismo foi mudando várias vezes, incluindo a época de hegemonia neoliberal na América Latina, na década de 1990 [com o governo do presidente argentino peronista Carlos Menem]. Naquela época alguns partidos populares de diferentes países passaram por um processo de contração, mas na Argentina a oposição nos anos 1990 esteve muito ligada com setores do peronismo que criticaram bastante o neoliberalismo, mesmo havendo um presidente peronista.

A partir de 2003 e vinda de uma grande crise econômica, a Argentina passou por 12 anos de governos Kirchner. Na primeira fase desse período houve um crescimento econômico considerável, com recuperação do poder aquisitivo, ampliação de direitos sociais. O peronismo perdeu as eleições de 2015 para Macri, por conta de uma série de erros políticos que se sucederam ao final desse período de 12 anos.

O sr. afirma que o conceito do peronismo variou muito ao longo das décadas. O que o caracteriza hoje?

Alejandro Grimson Hoje se quisermos traduzir para um cenário internacional, seria razoável dizer que a candidatura de Alberto Fernández é de centro-esquerda e moderada. A candidatura reúne uma série de grupos e partidos do campo progressista. Fernández foi chefe de gabinete [equivalente a ministro da Casa Civil no Brasil] de Néstor Kirchner [presidente de 2003 a 2007] e de Cristina Kirchner [presidente de 2007 a 2015], com quem rompeu em 2008. Ele ficou mais de dez anos afastado de cargos públicos e foi crítico do governo Cristina. Em 2013, o peronismo começou um período de fragmentação, o que teve reflexo na eleição que Macri venceu.

Foto: Juan Mabromata/AFP - 24.08.2011
A então presidente argentina Cristina Kirchner acena em frente a quadro de Perón
A então presidente argentina Cristina Kirchner acena em frente a quadro de Perón
 

Agora, Fernández está protagonizando um processo de unificação do peronismo, em meio à diversidade do peronismo, num contexto para impedir a reeleição de Macri, que não conseguiu retomar o crescimento econômico como havia prometido e passou a encontrar mais rejeição popular. Hoje o peronismo é o principal movimento de oposição a políticas liberais na economia, e se chegar ao poder irá ter de tomar medidas como renegociar a dívida com o FMI [Fundo Monetário Internacional].

[Miguel Ángel] Pichetto tomou uma decisão pessoal ao entrar como vice na chapa de Macri. Pelo que vimos do resultado das eleições primárias [em agosto de 2019], Pichetto não angariou votos do eleitorado peronista. Ele teria dificuldade em se reeleger senador pela sua província e, por suas posições públicas, mostra concordar com as políticas liberais de Macri. Esse é um fato que mostra a diversidade dentro do Partido Justicialista.

Cristina Kirchner pode retornar ao governo nas eleições de 2019. Qual é o papel de Cristina e Néstor Kirchner no peronismo?

Alejandro Grimson Eles renovaram o peronismo no século 21. Levaram algumas bandeiras históricas do peronismo, mas em outra época, se aliando com outros governos de centro-esquerda na América do Sul. Na história do peronismo os Kirchner foram responsáveis por decisões significativas, como a política de direitos humanos relativa a vítimas da ditadura militar, que é algo que não tem volta atrás na Argentina — por exemplo, em 2017 a Corte Suprema aplicou uma pena menor a um condenado por tortura, houve forte mobilização popular e se impediu a medida. Néstor e Cristina conquistaram um espaço próprio dentro do peronismo.

A que o sr. atribui a grande variedade de grupos políticos que se reivindicam peronistas?

Alejandro Grimson Desde a origem do peronismo, há uma variedade de grupos. Já havia diversidade ideológica em 1945, com setores socialistas, com setores mais corporativistas, com setores do conservadorismo, entre outros. Em 1973, com o retorno de Perón à Argentina e sua nova eleição, havia por exemplo grupos peronistas pensando numa revolução socialista e outros de um sindicalismo mais moderado e ortodoxo. O fato de Perón ter ficado 18 anos fora da Argentina pode ser parte da explicação para essa diversidade, mas sempre houve. Nos anos 1990, por exemplo, Menem expressou algo que quase não existe mais hoje no peronismo, que é uma proposta neoliberal, e teve oposição de grande parte do próprio partido.

Isso também tem a ver com a ideia do próprio peronismo de ser em essência um movimento heterogêneo, não um partido organizado da forma mais tradicional. Então se encontram organizações peronistas com objetivos distintos nos sindicatos, nas favelas, nos bairros, entre estudantes. Isso faz parte da paisagem política da Argentina. A heterogeneidade — na base, em manifestações, no partido, em eleições, entre políticos eleitos — torna muito difícil para estrangeiros compreenderem o peronismo.

O peronismo nunca vai conseguir uma homogeneidade. O que pode acontecer, como está ocorrendo agora em 2019, é haver lideranças que geram uma síntese em torno das ideias diversas do peronismo. Pelo que tudo indica, Alberto Fernández está conseguindo fazer isso.

Por que, na avaliação do sr., Perón é uma figura que perdura até hoje no país?

Alejandro Grimson Eu acho que ninguém pergunta porque o socialismo perdura desde o século 19 até hoje, em países onde a social-democracia é forte, como a Espanha ou a França. Ninguém pergunta porque a democracia cristã tem tanta durabilidade. Ou as ideias do liberalismo político. Muitos fenômenos políticos têm longa duração, outros não. O peronismo existe há 74 anos, o que representa muito menos do que outras grandes identidades políticas, assim como muito mais do que outras.

O peronismo perdura há mais de sete décadas por duas razões: uma tem a ver com os direitos sociais, civis e políticos, especialmente levados adiante como política pelo primeiro governo Perón e a primeira parte dos governos Kirchner; e outra razão é o jeito como os governos antiperonistas se desenvolveram na prática, em cada caso, com políticas que terminaram rejeitadas pela população.

Qual é a importância do peronismo hoje na Argentina?

Alejandro Grimson O peronismo é, há muitos anos, a principal identidade política da Argentina. Daí surgem as identificações de peronista ou antiperonista. Nos setores mais pobres, entre os trabalhadores, ele é maioria. A força da peronismo também está ligada a um deficit histórico da Argentina que é a incapacidade de grupos das camadas sociais mais altas construírem um projeto de desenvolvimento nacional que reduza desigualdades. O peronismo propõe ser uma resposta a esse problema, se coloca nesse espaço, com seus sucessos e seus fracassos.

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