Ir direto ao conteúdo

O que vem depois do Brexit, segundo este professor

Simon Usherwood, do King’s College de Londres, fala ao ‘Nexo’ sobre os solavancos e as respostas do sistema britânico aos desafios atuais

     

    A relação entre o Reino Unido e a Europa não começou com o ingresso dos britânicos na União Europeia, em 1975, e não terminará com a saída do bloco, seja em 31 de outubro de 2019, seja em qualquer outra data que venha a ser fixada no complexo e errático processo de negociação do Brexit.

    “A União Europeia sempre será um elemento central da política externa britânica”, disse ao Nexo o cientista político britânico Simon Usherwood, que é vice-diretor do centro de estudos batizado “O Reino Unido numa Europa em Transformação”, ligado ao King’s College de Londres.

    “Às vezes, no debate britânico, fica essa impressão de que ao sair da União Europeia, ela desaparece e nós nunca mais precisaremos falar sobre ela ou nos preocuparmos com com ela de novo”, disse Ushwerwood nesta entrevista feita por telefone na quinta-feira (12).

    O processo britânico de desligamento teve início em 2016 com um plebiscito no qual 52% dos eleitores optaram por sair do bloco formado por 28 países europeus.

    A ferramenta de consulta, que parecia a mais simples e direta possível à época, levou entretanto a um emaranhado de decisões políticas, tomadas por primeiros-ministros, parlamentares e até pela rainha Elizabeth 2ª, que colocaram à prova a solidez da democracia e das instituições britânicas.

    O premiê Boris Johnson conseguiu, por exemplo, autorização da rainha para bloquear os trabalhos do Parlamento por cinco semanas. Em compensação, o Parlamento passou antes uma lei que impede Johnson de seguir adiante com o Brexit sem autorização dos parlamentares.

    A guerra política levou a contestações na Justiça e a protestos nas ruas. Palavras como “golpe” e “ditadura” foram usados por parlamentares da oposição para se referir às estratégias do atual governo conservador.

    Para Usherwood, esses são testes naturais da democracia, e o sistema britânico vem, até aqui, dando mostras de resiliência. É impossível, entretanto, prever todos os desdobramentos, diz ele, especialmente no momento em que a própria integridade do Reino Unido passa a ser questionada por irlandeses e escoceses descontentes com o centralismo político londrino.

    Qual o futuro do Reino Unido fora da União Europeia?

    Simon Usherwood Estando dentro ou fora, saindo com acordo ou sem acordo, o fato é que a União Europeia continuará sendo para o Reino Unido um mercado atraente para quem faz negócios, além de um local atraente para onde os britânicos vão e de onde vêm muitas pessoas. Às vezes, no debate britânico, fica essa impressão de que ao sair da União Europeia, ela desaparece e nós nunca mais precisaremos falar sobre ela ou nos preocuparmos com ela novamente. Na verdade, é claro que a União Europeia sempre será um elemento central da política externa britânica. O Reino Unido vê a si mesmo como um potência global, um grande país, com interesses globais, e muitos de seus interesses estão baseados na Europa. Então, a menos que haja um bom acordo agora, a questão europeia seguirá sendo um assunto central na política e na sociedade britânica por muitos e muitos anos.

    Estudos como o Relatório Yellowhammer, produzido a pedido do próprio governo britânico e vazado para a imprensa, traçam um cenário sombrio para esse futuro. Essas projeções são corretas?

    Simon Usherwood Sim. As projeções que esse documento faz estão em sintonia com projeções feitas por analistas independentes. Eles fazem referência ao fato de a economia britânica estar emaranhada, sintonizada com toda a regulação econômica da União Europeia e de as normas regulatórias britânicas estarem hoje conectadas às normas europeias, então haverá muita destruição num cenário de saída sem acordo. Levará muito tempo e esforço até reorganizar completamente esse quadro. Levou muitas décadas até o Reino Unido entrar em sintonia com a União Europeia, e provavelmente levará muitas décadas mais para dissociar. Um cenário de saída sem acordo apenas torna o cenário mais difícil e impõe custos adicionais. As pessoas terão de recolher os pedaços.

    Como ficarão as relações no interior do Reino Unido, especialmente em relação à fronteira entre as Irlandas e ao descompasso com o desejo escocês de permanecer na União Europeia? Há risco de tumulto político dentro do Reino Unido?

    Simon Usherwood Claramente, sim. Em termos de integridade do país, você percebe um crescimento do apoio à independência da Escócia, além do crescimento do apoio à independência da Irlanda do Norte e à unificação com a República da Irlanda. Esses assuntos se tornarão cada vez mais importantes, particularmente numa situação de saída sem acordo. É de se esperar que o governo escocês usará isso como uma arma para mostrar o quando Londres não se preocupa com os escoceses, e para os irlandeses dizerem como Dublin [capital da República da Irlanda] se preocupa mais com os irlandeses do que Londres se preocupa. São ilações lógicas, baseadas nas experiências dos últimos três anos. Todo esse debate reforça a impressão das pessoas de que os processos políticos britânicos são extremamente centralizados neste país.

    Qual o futuro da União Europeia sem o Reino Unido?

    Simon Usherwood O Reino Unido tem muitos recursos, tem peso na Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], é membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, é um país ativo diplomaticamente, então, será uma grande perda. A União Europeia terá perdido um de seus maiores membros. Isso é ruim para a reputação da organização como um todo. É claro que líderes como a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron querem desempenhar um papel internacional relevante. Nós vimos isso no encontro do G7 [realizado em Biarritz, no mês de agosto], com o oferecimento de fundos para o Brasil, com todo o debate a respeito das queimadas na Amazônia. Há sempre um limite ao que pode ser alcançado, e se torna mais fácil ignorar a posição de uma União Europeia enfraquecida, especialmente no cenário de crescimento da influência da China e das relações que virão adiante com os EUA após o Brexit.

    Outra questão importante a notar é que o Brexit não se trata apenas dos britânicos. Muitos dos fatores que levaram à vitória dos que queriam deixar o bloco, no plebiscito de 2016, podem ser encontrados em outros países-membros. Há muita desconexão nos processos de tomada de decisão, há a sensação de que a União Europeia não enfrenta adequadamente assuntos como a imigração e as mudanças climáticas. Todos esses problemas seguirão existindo enquanto não forem corretamente enfrentados. Sempre haverá, portanto, o risco de que outros países façam algo similar ao que o Reino Unido está fazendo.

    O que a crise atual no Reino Unido mostra sobre o estado atual da monarquia parlamentarista que vigora no país?

    Simon Usherwood A resposta simples é: a situação é muito ruim. Nós temos um governo que não confia no Parlamento, um Parlamento que não confia no governo, um monte de disputas a respeito dos procedimentos e dos limites do que pode ou não ser considerado aceitável.

    Porém, ao mesmo tempo, é preciso notar que o sistema todo não ruiu. Pode ser um cenário desafiador, é verdade, mas ainda assim estamos usando as ferramentas constitucionais e não tivemos um colapso completo do sistema.

    Então, o sistema tem sido capaz de absorver muitas das tensões recentes, embora tenhamos entrando numa fase na qual há potencial para que diferentes atores políticos façam coisas que possam causar mais problemas constitucionais.

    O que essa situação revela sobre o estado da democracia em nível global?

    Simon Usherwood Você pode ver tudo isso como parte de um cenário mais amplo dos desafios que a democracia enfrenta. Há, sem dúvida, uma ascensão do populismo no mundo, mas há também um conjunto de circunstâncias nesse caso que não estão acontecendo da mesma forma em nenhum outro lugar do mundo.

    Uma coisa é certa: lidar com a democracia é sempre desafiador. Pode-se dizer que é um sistema cheio de falhas. Ainda assim, é um sistema no qual as pessoas têm o direito de se expressar sobre como resolver esses problemas. Como [Winston] Churcill [ex-chanceler e ex-premiê britânico] dizia, a democracia é o pior forma de governo, com exceção de todas as demais.

    A democracia sempre foi e sempre será desafiada. É um sistema que tem sempre de apresentar respostas e se adaptar às situações, mas, no fim, é um sistema que vale a pena defender e pelo qual vale a pena lutar.

    O sr. acredita que a saída britânica da União Europeia ainda pode ser revertida?

    Simon Usherwood Sim, há uma chance. Mas é uma chance muito pequena. Pode haver eleições gerais no fim de 2019, e um novo governo pode até mesmo decidir repetir o plebiscito, muito embora não esteja claro que tipo de pergunta seria feita numa nova consulta. Afinal, você simplesmente repete a pergunta que foi feita da última vez? Você oferece outras alternativas nessa nova consulta? Você simplesmente pergunta sobre sair com um acordo ou sair sem acordo nenhum?

    Fazer um segundo plebiscito seria, no fim, uma decisão política. E não há nenhuma garantia de que um segundo plebiscito redunde numa campanha mais esclarecedora e informativa do que foi a última. Mesmo que isso aconteça, eu acho que não resolveria o problema. Novos debates certamente seriam abertos. Alguém sempre poderia dizer: ah, ok, tivemos dois resultados diferentes. Por que não fazer uma terceira consulta para desempatar agora?

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!