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A história secreta (e criminosa) da produção de tomate

Livro do francês Jean-Baptiste Malet traz resultado de dois anos de investigações, em quatro continentes, da cadeia de ilegalidades cometidas da produção ao comércio do alimento

 

O comércio do tomate embalado na forma de molho, ketchup, extrato e conserva se tornou semelhante, em alguns casos, ao tráfico internacional de drogas. Do plantio à prateleira, ele envolve uma série de ilegalidades cometidas por grupos criminosos organizados e até por países, que veem nesse comércio um motor importante de suas economias.

Durante dois anos, o jornalista investigativo francês Jean-Baptiste Malet percorreu locais de produção, embalagem e exportação de tomate na Europa, na Ásia, na América e na África para escrever o livro “O Império do Ouro Vermelho - A História Secreta de uma Mercadoria Universal”, publicado em oito idiomas, entre eles o português. No Brasil, a obra foi lançada pela editora Vestígio.

O autor revela no livro diversas ações de adulteração do produto em si, da embalagem e dos testes químicos que indicam se ele é apto ou não para consumo. Também aborda o envolvimento da máfia italiana na cadeia de produção, o emprego de mão de obra de imigrantes na Europa e de prisioneiros em campos de trabalho forçado e de crianças na China, propondo uma leitura crítica do capitalismo atual e das formas de exploração não apenas dos trabalhadores, mas também dos consumidores – em muitos lugares do mundo, o molho de tomate faz parte da cesta básica de consumo mesmo das pessoas mais pobres, cuja renda não passa de US$ 1 por dia.

Malet concedeu entrevista por escrito ao Nexo, de Paris, no dia 28 de agosto, um dia antes de embarcar para o Brasil para o lançamento do livro no país.

Por que, em seu livro, o sr. fala numa ‘civilização do tomate’? O que o tomate processado representa para a economia e para a cultural mundial?

Jean-Baptiste Malet Há mais ou menos um século, a humanidade consumia muito pouco os derivados do tomate, enquanto que, hoje, essa é uma mercadoria universal. Uma porção de ocorrências históricas contribuíram para transformar o tomate nessa mercadoria universal. Um exemplo: a empresa Heinz [fundada no fim do século 19 nos EUA e adquirida por fundo brasileiro em 2013] foi a primeira multinacional da história dos EUA. Ela precedeu até mesmo [a fabricante de automóveis] Ford na história da produção e do consumo de bens e produtos de massa, especialmente pelo uso do recurso do trabalho no formato de linha de montagem, a partir de 1904.

Apesar dessa contribuição americana, a indústria do tomate nasceu na verdade no norte da Itália, no fim do século 19. A demanda importante da diáspora italiana por conserva de tomate levou também a uma demanda mundial por esse produto. Milhões de imigrantes italianos do fim do século 19 e no início do século 20 tornaram-se verdadeiros embaixadores da indústria do tomate no mundo.

Como parte da história do desenvolvimento dessa tecnologia, é preciso citar também a política de autosuficiência agrícola iniciada pelo fascismo italiano, que racionalizou os cultivos consideravelmente, desenvolveu o setor de pesquisa agroalimentar e fez do tomate em lata um símbolo ideológico da “autosuficiência verde” [doutrina proclamada pelo ditador italiano Benito Mussolini]. Esse mote, de inspiração futurista, preconizava a conservação das frutas da pátria. O paradoxo dessa história é que o avanço da tecnologia industrial italiana, nascida da “autosuficiência verde”, permitiu aos industriais italianos, depois da Segunda Guerra Mundial, mundializar sua indústria. Eles contavam com os melhores equipamentos industriais existentes à época para esse fim.

Mais tarde, já nos anos 1980, a invenção, nos EUA, do barril asséptico de extrato de tomate favoreceu ainda mais a expansão desse setor, já dentro de uma ordem neoliberal. O fluxo do tomate industrializado podia finalmente tornar-se intercontinental. Além disso, a produção, que significava o cultivo extensivo, não precisava mais ser geograficamente estática, localizada. Foi isso que levou à entrada da China, com produção em escala, nessa história.

Qual o papel do tomate na geopolítica mundial hoje?

Jean-Baptiste Malet Um dos paradoxos do tomate é que nós poderíamos tranquilamente viver sem ele. Não se trata de um alimento incontornável. Ele nem é muito interessante do ponto de visto nutritivo para o corpo humano. Entretanto, toda a humanidade consome tomate e ninguém parece disposto a dispensar esse alimento.

Eu acredito que o papel do tomate seja antes de mais nada simbólico. A história do tomate, assim como sua circulação e suas condições de produção são representativos do melhor e do pior da globalização. O tomate pode até ser um alimento gostoso, delicioso. Um molho de tomate pode ser algo muito especial, mas esse mercado mundial tornou-se terreno fértil para produtos nocivos não apenas do ponto de vista nutritivo, gustativo, mas também de um ponto de vista ambiental e social.

Na China, onde estive para realizar parte dos trabalhos que compõem esse livro, vi crianças amassando tomates para a indústria do setor. Muitas vezes são os prisioneiros dos gulags chineses, os campos de trabalho forçado e reeducação, que amassam os tomates em Xinjiang [território do noroeste da China]. Esses tomates não são consumidos na China. Eles são vendidos a grandes multinacionais ocidentais que produzem, por exemplo, o ketchup.

Quais as ilegalidades envolvidas na cadeia de produção do tomate?

Jean-Bapiste Malet Há três tipos. A mais massiva e inquietante violação é a que diz respeito à África Ocidental. A maior parte do extrato de tomate proveniente dessa região contém aditivos muitas vezes não especificados no rótulo, tais como amido, soja e glicose, além de corante vermelho para colorir extrato podre que se tornou preto. É comum que produtos adulterados ou que tenham sido rejeitados na indústria global, os lotes de extrato de tomate que não tenham encontrado compradores, passem pela África. Os chineses detêm 70% do mercado africano de extrato de tomate e quase 90% do mercado da África Ocidental.

Para conseguir fazer frente aos italianos, que historicamente controlavam esse mercado, muitos comerciantes de Tianjin [cidade portuária do noroeste da China] começaram a traficar o produto. Ele passou a ser adulterado por engenheiros químicos especializados nesse tipo de tráfico, exatamente como ocorre com o mercado das drogas. Adulterar extrato de tomate é algo que tem um risco menor do que traficar drogas e é algo que, no entanto, pode dar muito mais lucro, se considerarmos que toda a África consome concentrado de tomate, mesmo as pessoas que vivem com US$ 1 por dia. 

Foto: Tony Gentile/Reuters - 28.09.2009
Imigrantes na colheita no sul da Itália
Imigrantes na colheita no sul da Itália
 

Outro tipo de fraude comum é a falsificação de etiqueta de embalagem na Itália. Muitas empresas ligadas à máfia têm negócios na indústria do tomate. Basicamente essas pessoas fazem etiquetas bio [com a informação falsa de que o conteúdo da embalagem é orgânico] ou de tomate San Marzano [variedade especialmente valorizada no mercado]. Também há registros de casos de fraude envolvendo tomates cultivados em locais proibidos, em terrenos contaminados por rejeitos tóxicos, por exemplo. Nesse caso, a fraude consiste em alterar a análise química. A polícia italiana chegou a fazer escutas telefônicas que levaram à descoberta de casos nos quais as empresas do sul da Itália compravam análises químicas adulteradas.

Outro tipo de fraude italiana é a do tomate chinês embalado no sul da Itália. Depois de viajar num contêiner, o concentrado chinês de tomate é embalado em conserva num recipiente com a bandeira italiana, e é vendido como se fosse um concentrado italiano. Trata-se de algo muito frequente, e que muitas vezes ocorre na brecha da legalidade.

É preciso mencionar, por fim, a exploração dos trabalhadores africanos no sul da Itália, que trabalham com o tomate pelado [variedade na qual o tomate é vendido inteiro, mas sem pele]. Esses trabalhadores são muitas vezes controlados por uma cadeia criminosa, que envolve mortes ocorridas durante o verão, seja nos campos de cultivo, seja nos guetos onde eles são obrigados a viver, seja nas estradas por onde circulam, dentro de caminhões de carga fretados por organizações criminosas.

Apesar das declarações, a verdade é que o poder público não faz grande coisa em relação a um setor industrial que é importante para o país. Não há vontade política de resolver a situação. Na Itália, em geral, você encontra produtos muito bons. Os produtos ruins raramente ficam para consumo interno. Eles são destinados para exportação.

Como o Brasil aparece nessa história, do ponto de vista da produção e do consumo?

Jean-Baptiste Malet O Brasil, como a maior parte dos países do mundo, importa tomate industrializado. Na América do Sul, o Chile é um dos países mais importante no que diz respeito à produção. Um terço do tomate processado que é consumido no Brasil vem do Chile. Porém, entre os produtos mais baratos consumidos no Brasil, há uma parte que vem da China. O Brasil importou mais de US$ 5 milhões de concentrado de tomate da China em 2017, e mais de US$ 13 milhões do Chile no mesmo ano. Na minha opinião, isso é uma loucura.

A América do Sul é o berço do tomate. O continente sul-americano não devia importar tomate chinês ou italiano. O tomate italiano representa 85% do suprimento de tomate pelado disponível no Brasil. Tudo isso deriva da velha ideia liberal do século 18 segundo a qual é uma boa ideia transportar através de todo o Oceano Atlântico um tomate produzido por escravos do outro lado do mundo. Eu acho que o Brasil poderia e deveria produzir todo o tomate que consome, mas, para isso, seria preciso colocar em questão o dogma liberal e, em consequência, o livre mercado.

Como tem sido a receptividade ao seu trabalho? O sr. sofreu algum processo, ameaças, pressões?

Jean-Baptiste Malet O meu livro foi traduzido na Itália e incomodou um industrial de péssima reputação no sul do país. Depois da pressão exercida por ele, o livro foi censurado. Não chegou a haver uma ordem judicial contra a publicação, mas a pressão feita sobre a editora italiana responsável pela publicação fez com que o livro fosse retirado das prateleiras. Hoje ele já está traduzido em oito idiomas e eu estou trabalhando com o meu editor francês para que o livro possa estar disponível também na Itália.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

 

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