Ir direto ao conteúdo

‘Nenhum incêndio florestal na Amazônia é natural’

Professor de física da USP e cientista de reconhecimento internacional, Paulo Artaxo fala ao ‘Nexo’ sobre o fogo e o desmatamento na maior floresta tropical do planeta

 

A alta de incêndios na Amazônia no fim de agosto de 2019 recebeu atenção mundial e pressionou o governo de Jair Bolsonaro a tomar medidas para combater o fogo.

Além dos danos ambientais, o episódio gerou uma crise diplomática com a França, temor de retaliação comercial estrangeira ao Brasil e desgaste político dentro e fora do país para o presidente.

Segundo pesquisa do Instituto Datafolha, 51% dos brasileiros adultos reprovam e 25% aprovam a atuação de Bolsonaro quanto às queimadas e ao desmatamento na maior floresta tropical do mundo.

Mesmo com o decreto presidencial que proibiu queimadas controladas na Amazônia por dois meses e com a autorização para as Forças Armadas atuarem contra incêndios na região durante um mês, a floresta continua pegando fogo acima da média histórica para esse período do ano.

Os dados são do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão do governo federal que monitora desmatamento e fogo. Historicamente, o mês de setembro tem mais incêndios, o que complica ainda mais a situação atual.

A respeito dos efeitos dos incêndios para a floresta e para o meio ambiente em geral, o Nexo conversou com Paulo Artaxo, professor de física da USP (Universidade de São Paulo) e cientista brasileiro que estuda a física aplicada a problemas ambientais.

Ele é pesquisador do Laboratório de Física Atmosférica da mesma universidade, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e integrante do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança de Clima), grupo das Nações Unidas que estabelece a base científica para a tomada de decisões sobre aquecimento global. Artaxo é um dos cientistas mais citados do mundo em trabalhos acadêmicos.

Quais são as consequências de longo prazo, para a floresta e para as cidades, de queimadas dessas proporções?

Paulo Artaxo Uma das consequências a longo prazo é o agravamento do efeito estufa. Quando se queima um hectare [área equivalente a 10 mil m²] da Floresta Amazônica, são emitidas em torno de 150 toneladas de dióxido de carbono [CO2] para a atmosfera. Então a queima piora o efeito estufa, que é uma questão muito premente em todo o mundo. Além disso, o fogo prejudica os serviços ambientais que a floresta realiza — por exemplo, processamento de vapor de água e preservação da biodiversidade do planeta. Quando se derruba floresta e se substitui por área de pastagem ou plantação, evidentemente se deixa de realizar esses serviços ambientais fundamentais para manter os ecossistemas.

Quando se queima, a pluma de poluentes atmosféricos (carregada de ozônio, monóxido de carbono e partículas) viaja por longas distâncias e passa por várias áreas urbanas, no Brasil central e no sul do Brasil, impactando negativamente a saúde das pessoas.

Qual a relação entre as queimadas e mudanças climáticas?

Paulo Artaxo As queimadas hoje são responsáveis pela emissão de cerca de 10% do total de gases de efeito estufa para a atmosfera, globalmente. No caso do Brasil, as queimadas são responsáveis por cerca de 40% a 50% das emissões de gases de efeito estufa. Então, não existe nenhuma outra forma mais barata, eficiente e rápida de diminuir essas emissões no mundo do que reduzir queimadas em florestas tropicais, especialmente a Amazônia. Isso porque a Amazônia é a maior e principal floresta tropical do planeta. As demais florestas tropicais, situadas na República Democrática do Congo e na Indonésia, são, do ponto de vista de tamanho, uma fração pequena da Floresta Amazônica, que tem 5,5 milhões de km².

Existem condições naturais que favorecem a propagação do fogo nestas últimas semanas?

Paulo Artaxo Nenhum incêndio florestal na Amazônia é natural. A Floresta Amazônica é chuvosa, tem muita água armazenada em seu ecossistema e simplesmente não pega fogo sozinha. Um incêndio precisa começar com a ação humana. Pegar fogo sozinho é possível, por exemplo, no Cerrado, um bioma com muito menos vapor de água na atmosfera e um ecossistema adaptado para a ocorrência frequente de fogo. Na Amazônia, a propagação do fogo depende das condições meteorológicas do local do incêndio e depende de há quanto tempo aquela área foi desmatada (quanto mais tempo, há menos vapor de água ali). E outro fator que colabora para propagação do fogo é a estação seca da Amazônia, que vai de agosto a novembro.

Como o poder público e os cidadãos podem agir para prevenir o desmate da Amazônia?

Paulo Artaxo O poder público tem que adotar políticas que inibam ações ilegais. Cerca de 90% desses incêndios na Amazônia são criminosos, feitos por pessoas que se utilizam de derrubada e queimada para ocupar terras públicas, que pertencem ao Estado brasileiro. O governo brasileiro precisa combater essa ilegalidade e fazer cumprir o que está determinado na Constituição. E o principal que cidadãos podem fazer é se esforçar para eleger governantes que se pautem pelo respeito ao meio ambiente, à legalidade e à Constituição.

Quais são as instituições brasileiras diretamente responsáveis por prevenir e combater queimadas e desmatamento na Amazônia?

Paulo Artaxo O Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], o Ministério Público, a Polícia Federal são instituições que têm entre suas obrigações proteger o patrimônio ambiental do Brasil. Quem lida diretamente com a questão do combate a queimadas é um órgão do Ibama chamado Prevfogo, o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, praticamente desativado no atual governo federal.

O que significa a paralisação do Fundo Amazônia para a floresta?

Paulo Artaxo O Fundo Amazônia [congelado em agosto de 2019] é a iniciativa mais importante que o Estado brasileiro tinha para fazer estratégias de desenvolvimento sustentável na Amazônia. O fundo financiava municípios, estados, grupos de pesquisa e organizações não governamentais para proteger a floresta e achar caminhos de desenvolver economicamente a Amazônia sem a desmatar. Era um fundo de extremo sucesso, muito bem gerido pelo BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, banco público federal], e infelizmente o atual governo concordou em desativar o Fundo Amazônia pois não tem interesse em praticar o desenvolvimento sustentável.

O Fundo Amazônia financiava, por exemplo, projetos em Manaus na Fundação Amazonas Sustentável, que, entre outras coisas, fazia trabalhos com comunidades ribeirinhas para ensinar como utilizar a pesca de maneira sustentável, como fazer uma pequena agricultura local de maneira sustentável, sem prejudicar a floresta.

A volta do Fundo Amazônia depende do governo federal retomar uma estratégia de preservar o bioma amazônico e incentivar o desenvolvimento sustentável na floresta. Isso tem apoio da população brasileira, que em sua grande maioria não endossa a posição de destruição da Amazônia. Além disso, governos estrangeiros não apoiam políticas de destruição de florestas tropicais — não só a França [cujo presidente, Emmanuel Macron, entrou em disputa direta com Bolsonaro], Alemanha e Noruega [os dois países que juntos faziam praticamente todo o financiamento do Fundo Amazônia e em agosto de 2019 anunciaram o congelamento de repasses], mas também a grande maioria dos países-membros da ONU [Organização das Nações Unidas].

Que efeitos o sr. avalia que a ampla repercussão nacional e internacional às queimadas poderão ter para a política ambiental do governo federal?

Paulo Artaxo Isso vai depender do governo federal, não de nós, a população. Espero que o governo realmente veja que é um péssimo negócio desmatar a Amazônia, trocando uma rica biodiversidade por uma monocultura (seja pecuária, plantação de soja ou outra atividade). É preciso ver como será a reação do governo à pressão nacional e internacional.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!