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Quais as ambições e limitações de Macron na arena global

Professor e escritor Philippe Moreau Defarges fala ao ‘Nexo’ sobre como o presidente da França ambiciona ser um porta-voz de causas globais. E como tropeça tentando

     

    O presidente da França, Emmanuel Macron, tenta assumir, desde que foi eleito, em maio de 2017, um papel de destaque no cenário internacional. Mas tropeça em suas próprias limitações, na agenda doméstica e no contexto internacional.

    Esse é o diagnóstico feito pelo ex-diplomata, escritor, professor e membro do Ifri (Instituto Francês de Relações Internacionais), Philippe Moreau Defarges.

    Em entrevista ao Nexo, feita em Paris, na terça-feira (3), Defarges traçou um perfil do presidente francês e do contexto internacional que ele enfrenta, numa era marcada pelo crescimento da extrema direita, pela saída do Reino Unido da União Europeia e até mesmo pelo atrito com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em torno de questões de soberania e de preservação da Amazônia.

    Para Defarges, Macron persegue o sonho de igualar-se a ex-presidentes franceses da estatura de Charles De Gaulle e de François Mitterrand. O primeiro foi herói da resistência nos anos 40 e comandou o país por quase 12 anos, divididos em dois períodos (1944-46 e 1959-69). O segundo, o primeiro presidente socialista da França, governou por mais tempo, 14 anos (1981-95). Macron até pode disputar um segundo mandato de cinco anos em 2022, mas não é exatamente pelo tempo no poder que ele pretende se equiparar a esses dois antecessores, mas por seus sonhos de grandeza.

    O professor considera que foi esse sonho de grandeza que moveu o presidente francês a manifestar-se sobre as queimadas da Amazônia em agosto, entrando em atrito com Bolsonaro.

    Em vez de receber apoio de seus pares europeus, Macron terminou como uma voz solitária no episódio, mas, para Defarges, “nem sempre é de todo mau estar sozinho, especialmente para alguém que esteja interessado em ser visto justamente como um defensor das grandes causas, como alguém que tem uma visão capaz de ir além da visão dos demais”.

    Ex-diretor de um grande banco europeu e ex-ministro da Economia do governo socialista de François Hollande (2002-2017), Macron optou por construir uma legenda própria, a República em Movimento (République en Marche, ou REM), para concorrer e vencer as eleições presidenciais há pouco mais de dois anos.

    Desde então, ele se equilibra entre problemas internos — sendo o maior deles a pressão de uma onda de protestos sociais liderados pelos chamados “coletes amarelos” — e problemas internacionais, que o presidente francês tenta a todo custo converter em oportunidades para exercer um papel de liderança, até agora, contestado.

    O que Macron ganhou e perdeu no embate com Bolsonaro, internamente na França e externamente?

    Foto: Carlos Barria/Reuters - 26.08.2019
    Trump_Macron
    Donald Trump e Emmanuel Macron em Biarritz
     

    Philippe Moreau Defarges A primeira perda de Macron diz respeito à própria relação com o Brasil, o que pode trazer dificuldades até mesmo para as trocas econômicas entre os dois países e particularmente para as empresas francesas que têm negócios no Brasil. É possível também que perdure alguma hostilidade da parte de alguns brasileiros em relação à França, o que só poderá ser visto com o tempo.

    Por outro lado, o presidente francês ganhou um certo status de porta-voz das preocupações com o meio ambiente, embora alguém sempre possa dizer que esse ganho é algo vago.

    Agora, internamente. Veja, a motivação de Macron não está dissociada da crise dos coletes amarelos. Ele é alguém que, nesse contexto, tenta aparecer como um grande presidente. Ora, o primeiro requisito para alguém que queira parecer um grande presidente é justamente defender uma grande causa, e a causa da Amazônia, a causa dos indígenas da Amazônia, cumpre perfeitamente esse papel de grande causa.     

    De qualquer forma, é preciso fazer uma pequena ressalva, de que esse episódio entre Bolsonaro e Macron foi midiatizado de tal maneira que fica até difícil fazer uma avaliação do valor real do ocorrido.

    Por que Macron ficou isolado em seu posicionamento mais duro sobre romper o acordo entre Mercosul e União Europeia?

    Philippe Moreau Defarges Ele esperava uma espécie de solidariedade dos demais membros do G7 na questão com o Brasil, é verdade, mas é um erro esperar solidariedade de outros Estados, que não são lá muito solidários uns com outros.

    Ele me pareceu desapontado com isso, de certa forma, mas ele não pareceu sequer surpreso com esse fato. Além do mais, convenhamos que nem sempre é de todo mau estar sozinho, especialmente para alguém que esteja interessado em ser visto justamente como um defensor das grandes causas, como alguém que tem uma visão capaz de ir além da visão dos demais.

    Qual pode ser o impacto desse choque para a relação entre Brasil e França?

    Philippe Moreau Defarges Eu não acho que tenha essa importância toda.

    Acho que o problema de verdade, o verdadeiro desafio, é a questão da Amazônia em si, e do que o presidente Bolsonaro e os brasileiros em geral querem em relação a esse assunto, que é um assunto grave. É extremamente grave o que vem ocorrendo em termos ambientais e, até onde posso ver, Bolsonaro brinca com fogo. Ele realmente arrisca um assunto de interesse planetário.

    Pode até ser que a ênfase dos movimentos de Macron tenha sido midiática, mas, ainda assim, ele tem o mérito de ter tocado num assunto que é real. Isso precisa ser reconhecido. Ele tocou num ponto nevrálgico. A pauta ecológica transformou-se recentemente numa emergência de verdade. Acho que se o ritmo de devastação seguir esse curso, isso é algo que pode ter consequências dramáticas para o Brasil. Pode vir a ser um problema de verdade.

    Como o sr. caracteriza a política externa de Macron, de maneira mais ampla?

    Philippe Moreau Defarges Macron, apesar de tudo, tem ambições muito grandes para a França. Suas referências, nesse sentido, são De Gaulle e Miterrand. Ambos foram grandes presidentes e Macron também almeja ser um grande presidente.

    Sua prioridade agora está colocada numa série de reformas internas na França. Ele sabe que o país precisa ser reformado. Há, portanto, enormes debates em curso sobre o sistema de aposentadoria, sobre a queda no poder aquisitivo de sua população e, portanto, é preciso que o país se reforme no plano interno. Se ele tem ou não tem sucesso nessa missão, isso é algo a ser avaliado no futuro.

    Na política externa, a dificuldade é que ele deseja ser um grande líder europeu, mas ele depende de circunstâncias que obviamente estão além de seu controle. Para começar, a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. A Europa precisa do Reino Unido da mesma forma que o Reino Unido precisa da Europa, essa é que é a verdade. Esse é um problema real para todos, ainda mais depois da chegada de Boris Johnson ao cargo de primeiro-ministro britânico.

    Há três países que não podem deixar de estar na construção europeia: França, Alemanha e Reino Unido. Não dá para pensar na Europa sem o Reino Unido. Então, não adianta o presidente francês ter todas essas pretensões se o contexto lhe é tão francamente desfavorável.

    O sr. acredita que exista hoje um choque aberto entre governos mais nacionalistas e governos mais internacionalistas? Caso haja, no que esse choque pode acarretar?

    Philippe Moreau Defarges Esse enfrentamento é verdadeiro dentro da França, e é mundial também. Hoje, efetivamente, esse enfrentamento tornou-se extremamente duro, que opõe os, se podemos chamar assim, mundialistas, gente que está aberta à mundialização, e os que estão contra isso.

    No meio, há um debate que é francês, é europeu, é mundial, e é sem dúvida brasileiro também. O que complica esse debate para figuras como Emmanuel Macron é o fato de que ninguém sabe dizer ao certo aonde vai dar essa mundialização. Basta olhar para a própria questão ecológica ou mesmo para o aumento das desigualdades. Estamos, portanto, num período que eu considero extremamente perigoso.

    Macron pode desempenhar um papel importante na Europa, é verdade. O problema é que ele precisa, para isso, encontrar um grande projeto europeu. Que projeto é esse? Eu considero que é um projeto que não poderá estar desgarrado de questões comuns à própria Europa, mas que também deve contemplar toda a região do Mediterrâneo e da África, pois o mundo está se virando cada vez mais na direção do Pacífico [em referência ao poder da China e às tensões nucleares com a Coreia do Norte].

    A Europa vai ter de reencontrar uma forma de manter-se central. Talvez a Rússia venha a ter um papel importante nesse movimento também. Macron busca essa reaproximação com uma Rússia situada entre a Europa e a China. Para o presidente francês, é fundamental que a Rússia fique na órbita europeia. Esse é um grande desafio, e é um desafio que ele não pode manejar sozinho. A Europa esteve por muito tempo no centro da história, mas agora corre o risco de ser colocada à margem da história. Esse é o grande problema que ele tenta administrar.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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