Qual o papel da filosofia num mundo de nacionalismo radical

Em entrevista ao ‘Nexo’, o senegalês Souleymane Bachir Diagne fala sobre a importância de uma ideia universal de humanidade e a necessidade de descolonizar a história do pensamento filosófico

A trajetória do filósofo Souleymane Bachir Diagne se divide entre três continentes. Nascido no Senegal, onde deu aulas em Dakar, ele foi professor visitante em Paris, na França, e atualmente leciona filosofia africana e francesa na Universidade de Columbia, em Nova York, nos EUA.

O aspecto multicultural da sua própria carreira é algo que o ajuda a pensar o papel da filosofia hoje. Doutor em filosofia e matemática, Diagne se define como um tradutor de ideias, que lida com diferentes idiomas e lugares a partir do que chama de “ética da hospitalidade”.

Segundo o filósofo, trata-se de receber bem em uma língua algo que foi criado por outra. A chave do processo é a reciprocidade, algo que ele considera essencial para recuperar a humanidade de um mundo fragmentado por tribalismos e nacionalismos.

A “ética da hospitalidade”, afirma Diagne, começa pela própria história da filosofia. Ele contesta o mito de que o pensamento filosófico surgiu de um “milagre grego” e mostra que essa percepção só se tornou popular durante o período do colonialismo europeu do século 19.

Foto: Divulgação
 Souleymane Bachir Diagne
O filósofo Souleymane Bachir Diagne dá aulas na Universidade de Columbia
 

“Houve uma certa limpeza étnica da filosofia. O fato é que o pensamento filosófico pode ser encontrado em qualquer lugar onde os seres humanos se questionem sobre sua própria existência”, disse em entrevista ao Nexo. “A filosofia fala muitas línguas.”

Diagne esteve no Brasil a convite da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) da Bahia, e com apoio da Embaixada da França, para o lançamento do seu livro “Bergson pós-colonial: o elã vital no pensamento de Léopold Sédar Senghor e Muhammad Iqbal” (Editora Cultura e Barbárie), em que escreve justamente sobre o diálogo entre o trabalho de dois filósofos, um francês e um paquistanês. Diagne conversou com o Nexo em 20 de agosto, em São Paulo, após passagem por Salvador.

Qual é o papel da filosofia em um mundo cada vez mais marcado por populismos que oferecem respostas fáceis?

Souleymane Bachir Diagne  A resposta curta é que ela pode trazer a sanidade de volta. A fragmentação atual do mundo em etnonacionalismos e tribalismos não era algo esperado. Saímos da queda do Muro de Berlim com uma ilusão lírica, e aqui estamos agora em um mundo que ergue muros novamente. Eu acredito que esse é um momento em que precisamos da filosofia para reafirmar princípios muito gerais, o mais simples deles sendo o princípio de que somos uma humanidade só. A questão de onde foi parar a nossa humanidade parece ser central no nosso tempo.

A filosofia tem uma certa relação com o tempo, ela nos ensina a colocar as coisas em perspectiva e nos ensina a pensar globalmente sobre todo tipo de crise. É algo que as Nações Unidas tentaram fazer com a declaração de Marrakesh [pacto assinado por 152 países em 2018 com diretrizes para proteger imigrantes e que foi recusado, entre outros, por EUA, Polônia e Hungria], que foi bombardeada pelos nacionalistas étnicos. O acordo não fazia nada mais do que nos lembrar de alguns princípios básicos da filosofia, como a ideia que um ser humano nunca perde sua humanidade, como disse Hannah Arendt (1906 - 1975). Esse é o tipo de coisa que a filosofia faz que nos ajuda a ver o contexto maior.

Temos uma ideia de filosofia no Ocidente muito ligada ao legado da Grécia e separada do que é produzido em outras regiões. Como isso surgiu e qual a consequência disso? 

Souleymane Bachir Diagne  Temos a impressão que sempre foi assim e que a filosofia nasceu do milagre grego. Nós fazemos da filosofia essa essência única da Europa, e falar de uma filosofia não-europeia é quase um oximoro. Mas os filósofos falavam o mesmo? Não. Se você ler Platão, ele falava sobre tudo que os gregos deviam aos egípcios. Mesmo René Descartes (1596 - 1650) diria que a matriz do pensamento dele é a álgebra, que é uma ciência nascida das mãos islâmicas.

Foi preciso o colonialismo do século 19 para começarmos a pensar na filosofia como algo quintessencialmente europeu. Houve uma certa limpeza étnica da filosofia. É sabido que a filosofia grega foi traduzida para o árabe e se desenvolveu nas regiões islâmicas. Nomes como Avicena [pensador que viveu entre 980 e 1037, nascido na região que hoje é o Uzbequistão] e Al-Ghazali [teólogo persa que viveu entre 1058 e 1111] são filósofos universais. Não é uma coincidência que quando Friedrich Hegel (1770 - 1831) estava dando aulas sobre a história da filosofia como algo europeu ele aplaudia o fato de a Europa estar começando uma nova aventura colonial.

A Europa se define como o berço da universalidade. Essa arrogância do universalismo foi estabelecida sob a noção de que havia uma forma mais nobre de produção intelectual do ser humano, que era a filosofia, e que ela era europeia. Precisamos descolonizar a história da filosofia. O fato é que o pensamento filosófico pode ser encontrado em qualquer lugar onde os seres humanos se questionem sobre sua própria existência. A filosofia fala muitas línguas. A tarefa agora é restabelecer a história da filosofia em bases não-imperiais e ao mesmo tempo estabelecer a comunicação entre diferentes regiões. Por isso estou feliz de vir para o Brasil e encontrar filósofos daqui. Precisamos ter essas relações horizontais.

O que a produção filosófica africana pode ensinar ao mundo?

Souleymane Bachir Diagne  Vamos olhar para uma das lições mais importantes de ética e filosofia do fim do século 20, que foi a liberação da África do Sul do mal do apartheid. Nelson Mandela teve a visão de que o fim do Apartheid não podia ser um caos aberto, que ele precisava ter a autoridade moral para liderar as pessoas rumo a algum tipo de conciliação. Precisamos ter justiça para as vítimas e elas precisam saber o que realmente aconteceu. Uma mãe cujo filho desapareceu no Apartheid precisa saber o que aconteceu com ele, que ele foi torturado e morto e enterrado em algum lugar. É preciso saber a verdade para construir o futuro e trazer algum tipo de reconciliação. Ao fazer isso ele convocou uma sabedoria africana tradicional no conceito de ubuntu.

A tradução literal é construir a humanidade junto, em reciprocidade. Eu me torno mais humano por causa da forma como torno o outro mais humano, e vice versa. Essa ideia de uma humanidade compartilhada construída na reciprocidade era algo que saiu da reflexão do conceito de ubuntu. Esse é um dos exemplos mais conhecidos do que significa usar aspectos filosóficos de linguagens de todos os lugares para responder a problemas gerais e a crises que enfrentamos. De certa forma, o mundo que eu descrevi é uma espécie de globalização do apartheid. A resposta deveria ser a mesma: ubuntu, vamos construir nossa humanidade em reciprocidade.

O senhor já disse que é importante ter um ideal universal de humanidade. Por quê?

Souleymane Bachir Diagne  Meu pensamento é muito influenciado pelo filósofo francês Henri Bergson (1859 - 1941), que foi o primeiro a usar a expressão sociedade aberta. Para ele, a sociedade aberta é uma espécie de orientação das nossas ações políticas. A noção de humanidade deveria ser um princípio regulador, um princípio que orienta nossa ação e nosso pensamento.

Eu sinto que vivemos em um mundo onde a própria ideia de universalidade é desafiada, de certa maneira, pelos dois lados. Há pessoas que estão se fechando no seu pensamento egoísta etnonacionalista, e há pessoas que combatem o etnonacionalismo com um pensamento que também é nacionalista. Parece que estamos em uma arena onde tribos estão brigando, o que é regredir ao animalismo. A humanidade deve ser um horizonte universal.

Como criar um ideal universal que não seja excludente?

Souleymane Bachir Diagne  Essa é uma questão difícil. Essa é a razão pela qual eu insisto que o nacionalismo não pode ser combatido com nacionalismo.  Por exemplo, estamos em um momento em que estamos denunciando, com razão, o racismo estrutural. Mas se eu acho que minha experiência como homem negro não pode ser compartilhada por alguém que não é um homem negro, eu estou reproduzindo o tipo de fragmentação do qual o racismo nasce. Temos um antigo ditado humanista que diz que, se sou humano, nada que também é humano deveria ser estrangeiro para mim. Temos que trazer esses princípios de volta. Se o ataque e a defesa compartilham da mesma premissa, não vamos sair dessa crise.

Sua carreira acadêmica já passou por três continentes diferentes. Como essa diversidade de perspectiva influencia o seu trabalho?

Souleymane Bachir Diagne  No centro do meu trabalho está a noção de tradução. Se você olha para as políticas da tradução, há algumas linguagens que dominam o campo, mas se você olha para o ato da tradução em si, há uma espécie de ética da hospitalidade. Oferecer hospitalidade em um idioma a algo que foi criado em outra língua. A tradução também tem a ver com reciprocidade.

Minha situação de viver nesse triângulo entre Nova York, Paris e Dakar corresponde com minha própria forma de pensar. Eu cunhei a expressão "pensar de idioma para idioma" como forma de entender o que a descentralização filosófica significa. Se você olha para um idioma do ponto de vista de outro, você vê como todos eles adicionam perspectivas diferentes ao mundo. Quanto mais idiomas você fala, melhor você consegue multiplicar suas perspectivas no mundo, o que é o próprio significado da filosofia para mim: a arte de conseguir descentralizar a si mesmo.

 

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